A organização ultraconservadora católica Tradição, Família e Propriedade (TFP), grande apoiadora do movimento que derrubou o presidente João Goulart na década de 60, existe apenas no papel, desde que uma disputa interna judicializada afastou do controle os fundadores, também conhecidos por provectos.
Atualmente é controlada pelo grupo Arautos do Evangelho, uma dissidência da antiga TFP, que adotou uma estratégia de atuação mais focada na questão religiosa.
Mas os antigos fundadores da TFP não estão fora de combate. Eles se organizaram na política nacional e internacional, por meio do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira (IPCO), que leva o nome do pensador católico e escritor. Ele foi o criador da TFP.
E atualmente, os seguidores de Plínio Corrêa vivem um momento de euforia estimulados pela guinada do Brasil à direita, desde a eleição do presidente Jair Bolsonaro.
“A organização vive o que deve ser um dos seus melhores momentos dos últimos 30 anos”, destaca o mestre em Ciência Política pela UFSCar Moacir Pereira Alencar Júnior em entrevista à agência Sputnik. “Basta ver a agenda de palestras e eventos que promovem, inclusive em prefeituras.”
A professora da Universidade de Passo Fundo (UPF) e coorganizadora do livro “O pensamento de Plinio Corrêa de Oliveira e a atuação transnacional da TFP,” Gizele Zanotto explica que, após o fim do regime militar, a organização se reestruturou.
“Embora hoje a TFP ainda exista no país, desde a morte do fundador nos anos 1990, outro grupo a controla e as antigas bandeiras de luta foram então assumidas pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira (IPCO)”, salienta.
O grupo alinhado ao movimento chamado integrismo católico, segundo ela, foca suas atividades na “formação de elites e de mobilização dessas para atuação no campo político-partidário e social”.
Zanotto explica que a organização tradicionalmente prefere atuar fora dos holofotes, evitando alianças explícitas com formações partidárias.
“Os membros em si não operam diretamente no âmbito político, exceto com ações de pressão e lobby, sobretudo quanto ao aborto, defesa do armamentismo, defesa do agronegócio, contrariedade a movimentos sociais com destaque aos sem-teto e sem-terra, enfim, pautas conservadoras relidas com a base doutrinária católica”, disse a especialista.
O movimento ultraconservador brasileiro vive o melhor momento nas últimas três décadas. Se fortaleceu com a guinada do país à direita, a partir da eleição do presidente Jair Bolsonaro. O movimento voltou para ficar. O terreno está fértil para um partido de direita popular. pic.twitter.com/xLy7RXVnWA
— Roberto Barbosa (@rgbarbosa) August 10, 2022
O grupo investe na realização de eventos para promover as suas pautas, sem focar necessariamente no aumento do número de seus membros diretos.
“É um grupo restrito em relação ao número de filiados, que não tem necessariamente a intenção de crescer”, disse Alencar Júnior.
Zanotto nota que “não é fácil encontrar uma lista pública com a nominata e cargos dos membros, então qualquer lista é parcial, construída com vestígios de informações que nos são possíveis de acessar via Internet”.
A pesquisadora, no entanto, lista alguns nomes da cúpula da organização, como Mario Navarro da Costa, Léo Danielli, Luiz Moreira Duncan, Paulo Brito, Luiz Gonzada, Sérgio Brotero e Antonio Marcelino Pereira de Almeida.
A reportagem do Diário da Guanabara cita outros personagens cruciais para o movimento, como o príncipe dom Bertrand de Orleans e Bragança, tataraneto de Dom Pedro II, que atualmente é a figura central do movimento monarquista brasileiro.
Apesar da organização continuar enxuta, as pautas defendidas pela antiga TFP, atual IPCO, voltaram com força ao debate público brasileiro.
“As ideias da TFP estão mais difundidas, sim”, disse Alencar Júnior. “Agendas [da organização] que há alguns anos eram consideradas marginais foram normalizadas com a chegada de Bolsonaro ao poder.”
As fontes de financiamento do não são conhecidas. Porém, através dos anos a organização demonstra que se encontrou formas heterodoxas de manter o seu fluxo de caixa.
“Desde os tempos da TFP antiga, o financiamento se dá por diferentes meios como doações de membros e simpatizantes, venda de materiais doutrinários (livros, revistas, objetos votivos), repasses de entidades afins do exterior, arrecadações para campanhas fatimistas, entre outras ações”, disse Zanotto.
A pesquisadora enfatiza as campanhas vinculadas à divulgação da Mensagem de Nossa Senhora de Fátima, que financiaram o grupo por muitos anos.
Segundo Alencar Júnior, “promoção de eventos, campanhas, venda de terços, calendários e livros” relacionados à Nossa Senhora de Fátima “angariavam um bom capital em um país com forte presença católica como Brasil”.
Mas as fontes de financiamento se expandiram, e atualmente a organização também conta com o apoio de grupos alinhados às suas pautas.
“A partir da Constituinte, a TFP passa a defender agendas afeitas a fazendeiros mais conservadores, como o direito à posse de armas no campo e o combate contundente ao Movimento Sem-Terra (MST)”, disse Alencar Júnior.
Se no Brasil a disputa interna adormeceu a antiga entidade, no exterior a TFP continua existindo com seu nome original em dezenas de países.
Mais recentemente, a associação nutre laços com grupos que promovem a agenda armamentista, inclusive com militares ligados ao governo Bolsonaro.
“Antes mesmo de Bolsonaro se eleger, a TFP promovia eventos com a participação dos filhos do presidente, principalmente para defender pautas como a do armamentismo e contra as causas LGBTQI+”, revelou o especialista.
As pautas ultraconservadoras defendidas pelo grupo, como o armamento de civis, combate ao ambientalismo, à ideologia de gênero e ao aborto, são muitas vezes associadas às de grupos bolsonaristas.
“Não tem figura mais convergente com a TFP do que Bolsonaro, que concorda com a organização em questões que vão desde o tratamento conferido a indígenas e quilombolas até a agenda armamentista”, argumentou Alencar Júnior.
Apesar da convergência com pautas bolsonaristas, Zanotto nota que “a entidade em si não se manifesta publicamente em prol de algum candidato, prefere fazer análises panorâmicas da situação apontando quem são os ‘perigos’ para sua concepção de país”.
Segundo ela, evitar alianças político-partidárias claras “se traduz numa eficiente estratégia de proteção da antes TFP, hoje IPCO, de vinculações que podem trazer mais prejuízos do que ganhos à causa político-cultural que defendem”.
“O IPCO atua independente de partidos e coligações partidárias, e se aproxima de quem defende bandeiras comuns às suas propostas e campanhas. São afinidades pontuais e não formalizadas como aliança”, disse Zanotto. “Neste sentido, é precipitado pensar que o IPCO se alinha com o governo.”
A especialista alerta que, como a associação não atua de forma direta nas estruturas partidárias, não é possível identificar uma suposta “bancada tefepista” no Congresso Nacional.
Alcance internacional
A TFP aposta na sua projeção internacional desde a sua origem, na década de 60. Após apoiar ativamente o golpe militar de 1964, a instituição exportou sua agenda e experiência para países sul-americanos.
“A organização não se restringiu ao apoio à ditadura militar brasileira, mas também apoiou movimentos similares em países como a Argentina, o Chile e Uruguai”, disse Alencar Júnior. “A organização começa a criar raízes e associações coirmãs, que não necessariamente levavam o mesmo nome, mas defendiam a agenda tefepista.”
No Chile, a organização combateu lideranças católicas que questionavam a ditadura de Pinochet, como o cardeal Raúl Henríquez. Na Argentina, a TFP atuou para marginalizar membros da Igreja Católica que considerava ligados à esquerda.
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— Instituto Plinio Corrêa de Oliveira – IPCO (@InstitutoPCO) August 9, 2022
A organização também possui forte presença na Europa, considerada um bastião para a promoção da agenda monárquica. Um dos principais líderes da organização é Dom Bertrand de Orleans e Bragança, que se considera o herdeiro legítimo da Casa Imperial brasileira.
“A TFP é uma das principais mantenedoras do movimento monarquista brasileiro e o elo com a Europa é considerado fundamental para essa bandeira”, explicou Alencar Júnior.
Atualmente, a agenda da TFP e organizações coirmãs no velho continente abarca não só a defesa da monarquia, mas também a promoção do liberalismo econômico e conservadorismo nos costumes.
No dia 30 de julho, o jornal polonês Gazeta Wyborcza expôs as ligações entre a TFP brasileira e a organização ultraconservadora local Ordo Iuris. Segundo a reportagem, a Ordo Iuris “deriva diretamente de uma organização brasileira de extrema direita […] chamada TFP”.
A organização Tradição, Família e Propriedade (TFP) foi criada em 1960 no Brasil pelo professor e militante católico Plínio Corrêa de Oliveira. Após a sua morte, em 1995, a organização se reestruturou, dividindo-se em diversos grupos, entre eles o Arauto do Evangelho e o Instituto Plínio Corrêa de Oliveira (IPCO), fundado em 2006.
*Da Sputnik editada pela agência VIU!.











