O ex-diplomata norte-americano, Henry Kissinger, personifica o ditado popular que vaticina: “O hábito do cachimbo deixa a boca torta”. Por isso, o que ele vislumbra como um possível acordo para encerrar a guerra na Ucrânia parte do conceito American Fist, uma quimera tratando-se que do outro lado da mesa de negociação tem a Rússia sob o comando do estrategista Vladimir Putin.
Em ensaio publicado na sexta-feira (16), o ex-secretário de Estado dos EUA, de 99 anos, enfatiza a urgência de pôr fim às hostilidades na Ucrânia para evitar os riscos de outra guerra mundial.
Contudo, o “processo de paz” que propõe “ligaria a Ucrânia à OTAN, por mais expressado que fosse”, pois ele acredita que a neutralidade para Kiev não é mais uma opção. Exige que a Rússia se retire para as linhas antes de 24 de fevereiro, enquanto os outros territórios que a Ucrânia reivindica – Donetsk, Lugansk e Crimeia – “poderiam ser objeto de uma negociação após um cessar-fogo”.
Kissinger observa que em 1916, o governo dos EUA teve a chance de acabar com a Primeira Guerra Mundial através da diplomacia, mas a perdeu por razões de política interna.
O caminho na Ucrânia realmente seria a diplomacia, mas o problema são as cartas que os países ocidentais (todos devastados por crise energética, social e alimentar) querem impor sobre a mesa. Até o momento, quem mais perde com o conflito é o Ocidente. Dito isto, é preciso salientar que a proposta do ancião da diplomacia precisa combinar com os russos.
Kissinger expôs seu raciocínio na edição de 17 de dezembro do The Spectator, quando descreveu o conflito atual como uma “guerra em que duas potências nucleares contestam um país convencionalmente armado”, uma clara referência ao fato da Ucrânia ser palco de uma guerra por procuração entre os EUA e a Rússia.
Sem sua avaliação, além de “confirmar a liberdade da Ucrânia”, o acordo se esforçaria para “definir uma nova estrutura internacional, especialmente para a Europa Central e Oriental”, na qual a Rússia deveria “eventualmente” encontrar um lugar.
Enquanto alguns prefeririam “uma Rússia tornada impotente pela guerra”, Kissinger discorda, argumentando que o “papel histórico de Moscou não deve ser degradado”.
O desmantelamento da Rússia poderia transformar seu vasto território em um “vácuo contestado”, onde “sociedades concorrentes poderiam decidir resolver suas disputas pela violência” e os vizinhos poderiam tentar reivindicar território pela força, tudo na presença de “milhares de armas nucleares”.
Em essência, esta é a mesma proposta que Kissinger havia apresentado pela primeira vez em maio, pela qual ele foi rotulado como inimigo da Ucrânia e adicionado à notória lista de assassinatos do “Pacificador”.
Em uma entrevista no início deste mês, o presidente ucraniano, Vladimir Zelensky, rejeitou categoricamente qualquer tipo de cessar-fogo que não tomasse as fronteiras reivindicadas por Kiev em 1991 como ponto de partida.
Também não ficou claro se Moscou aceitaria qualquer cessar-fogo mediado pelo Ocidente, após a admissão da ex-chanceler alemã Angela Merkel de que o armistício de Minsk de 2014 pretendia “dar tempo à Ucrânia” para se preparar para a guerra.
O que há de novo no ensaio de Kissinger no Spectator é seu raciocínio. Ele aponta para agosto de 1916, no auge da Primeira Guerra Mundial, quando as potências beligerantes buscaram a mediação dos EUA para acabar com o derramamento de sangue sem precedentes. Embora “uma paz baseada no status quo ante modificado estivesse ao alcance”, o presidente Woodrow Wilson adiou as negociações até que ele pudesse ser reeleito em novembro. Àquela altura, já era tarde demais, e a guerra continuaria por mais dois anos, “prejudicando irremediavelmente o equilíbrio estabelecido da Europa”.
Questionado sobre a proposta de Kissinger, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que o presidente russo, Vladimir Putin, estava “ansioso para dar ao artigo uma leitura completa”, mas “ainda não teve a chance de fazê-lo, infelizmente”.
Henry Kissinger é uma figura da diplomacia dos EUA notória e conhecida no continente latino-americano, por sua atuação solidária junto às ditaduras do continente. No Brasil, por exemplo, circulou com destreza no governo Garrastazu Médici, um dos períodos mais truculentos da ditadura militar.
Circulou também no Chile, durante a ditadura do carniceiro Augusto Pinochet, assim como entre os ditadores argentinos.
A Rússia enviou tropas para a Ucrânia em 24 de fevereiro, citando o fracasso de Kiev em implementar os acordos de Minsk, projetados para dar às regiões de Donetsk e Lugansk status especial dentro do estado ucraniano. O Kremlin exigiu que a Ucrânia se declarasse oficialmente um país neutro que nunca se juntaria a nenhum bloco militar ocidental. Kiev insiste que a ofensiva russa não foi completamente provocada.
Os países da OTAN atuam na guerra com financiamento financeiro, fornecimento de armas e tecnologia para a Ucrânia. Ainda assim, a Ucrânia sofre pesadas baixas, convocando atualmente jovens de 16 anos, mulheres e idosos para lutar na linha de frente contra as forças militares da Rússia.
*Com informações da RT e edição da agência Fonte Exclusiva. Compartilhe esta reportagem do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Rio de Janeiro.











