Apesar da derrota do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na sucessão de 2022, o eleitorado associado à direita está consolidado no Brasil e mais politizado, ou entrando no ciclo de enfraquecimento?
Pesquisa realizada pelo DataSenado destaca que 31% dos eleitores no Brasil se identificam com este campo ideológico, enquanto que 38% se diz neutro e 17% se define no campo de esquerda.
O eleitor com perfil de neutralidade na pesquisa realizada em 2021, ou seja, que não se definia de esquerda ou de direita, caiu de 55% para o patamar de 38% em 2022.
Esses dados alimentam o sonho da direita brasileira, que já considera que os episódios de 8 de janeiro não representam um golpe fatal no movimento e que Jair Bolsonaro, atualmente nos EUA, pode retornar ao país para manter seu eleitorado mobilizado.
Dois especialistas ouvidos pela agência de notícias Sputnik analisam este fluxo e refluxo: os pesquisadores Fábio Gentile, da Universidade Federal do Ceará (UFC) e Mayra Goulart, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Eles expressam visões diferentes sobre o tema.
Gentile analisa que a direita ainda pulsa com força, enquanto que Mayra Goulart avalia que o futuro é de radicalização e redução de tamanho.
Bolsonaristas arrancam policial do cavalo, dão socos e pontapés. pic.twitter.com/2pIyz0rGSW
— Diário da Guanabara (@diarioguanabara) January 10, 2023
Tradição autoritária
O pesquisador lembra que a capilaridade do pensamento associado à direita no Brasil não é uma novidade, levando em conta que o país tem tradição autoritária.
“O Brasil é um país com tradição autoritária, que enfrentou fases de autoritarismo, tanto na era Vargas quanto na ditadura militar, e enfrenta a permanência de elementos autoritários durante a sua redemocratização”, disse.
Além de professor da UFC, Fábio Gentile é pesquisador associado do Observatório da Extrema Direita.
A eleição de 2022 foi uma das mais disputadas na história do país e mesmo diante de um intenso cerco midiático e o desastre na gestão do país durante a pandemia, Bolsonaro contabilizou um bom resultado eleitoral, garantindo ampla representação de apoiadores no Congresso.
Seus candidatos aos governos nos Estados, venceram, em pelo menos, três principais colégios eleitorais do país: São Paulo (governador Tarcísio Freitas), Rio de Janeiro (governador Cláudio Castro, reeleito no primeiro turno) e Minas Gerais (governador Romeu Zema).
“Bolsonaro teve uma votação muito expressiva. São 59 milhões de pessoas que votaram nele, o que não é casual e não pode ser explicado somente como uma rejeição ao Lula e ao PT, ainda que isso seja um fenômeno importante. Bolsonaro ganhou um consenso de massa”, explicou Gentile.
“Radicalismo provocou enfraquecimento”
A professora Mayra Goulart avalia que apesar do resultado expressivo de Bolsonaro nas urnas, o bolsonarismo enfrenta um processo de enfraquecimento, que teve início, segundo ela, ainda na gestão do ex-presidente.
“Ao longo do governo Bolsonaro, parcelas desse movimento político […] passaram a discordar do radicalismo do presidente e de medidas que ele adotou na seara econômica e sanitária”, analisou.
“Isso gerou uma fragmentação da maioria eleitoral formada em torno de Jair Bolsonaro, o que possibilitou a sua derrota eleitoral, uma vez que algumas franjas do bolsonarismo já haviam se descolado”, disse.
A pesquisadora acredita que as divisões internas do movimento bolsonarista devem se acentuar durante o governo Lula, já que os núcleos fisiológicos que precisam de proximidade com o poder tendem a se afastar e caminhar em direção ao centro ou até mesmo em direção ao PT.
Esse pragmatismo estaria atualmente no centro das divergências entre Bolsonaro e a deputada Carla Zambelli, que já propôs mudanças nas estratégias da extrema direita.
“A direita e extrema direita que está hoje representada de forma expressiva no Congresso tem um dilema: ou se institucionaliza, ou se radicaliza”, diz Gentile.
Mayra Goulart considera que o grupo bolsonarista já está em pleno processo de radicalização, apesar de reduzido numericamente.
“Os atos de 8 de janeiro […] não foram acompanhados por parte da população e geraram […] enfraquecimento do bolsonarismo, acompanhado por uma radicalização daqueles que se mantêm no movimento. Ou seja, o bolsonarismo vai se tornando cada vez menor e mais radical”, afirmou.
Impactos do 8 de janeiro
Há uma convergência dos dois especialistas quanto a questão do enfraquecimento da extrema direita após os atos de destruição no prédio do Palácio do Planalto, Câmara Federal e STF (Supremo Tribunal Federal) em 8 de janeiro. Contudo, Gentile avalia que nem todos os segmentos foram afetados da mesma forma. Neste caso ele cita a direita com apelo religioso.
“Alguns segmentos de extrema direita saíram mais enfraquecidos do que outros do 8 de janeiro. A direita religiosa pode ter saído desses evento sem grandes problemas, até porque sua agenda de valores é transversal, mais resiliente a mudanças”, explicou Gentile.
A camada evangélica, na avaliação do pesquisador, terá um papel relevante na formação da extrema direita pós-Bolsonaro, focando na pauta de valores da família clássica e segurança pública. São pautas que tem o poder de aglutinar o movimento de direita em nível mundial.
No Brasil o movimento deverá marcar posição na pauta dos direitos civis, o que seria uma reação ao processo de inclusão social e cultura de minorias, como os LGBTQIA+.
No ambiente econômico, a agenda neoliberal do governo Bolsonaro, empreendida por seu ministro da Fazenda, o banqueiro Paulo Guedes, poderá ser relegada ao segundo plano.
“A política neoliberal de Guedes foi um fracasso total. Então, acredito que as próximas lideranças vão manter uma postura mais moderada nesse sentido”, acredita Gentile.
O bolsonarismo sem Bolsonaro é um dilema. O ex-presidente continua nos EUA e uma ausência prolongada deixa um vácuo de liderança. O movimento tem capilaridade para sobreviver sem ele, ainda que sua figura seja relevante.
O retorno ao Brasil não será fácil, em função de processos judiciais que o ex-presidente deverá enfrentar e alguns poderão torná-lo inelegível. No Congresso, políticos como os senadores Hamilton Mourão (Republicanos-RS) e Sérgio Moro (UB-PR) sonham herdar a bandeira.
Mas o indicador do destino bolsonarista será o pleito municipal de 2024. O resultado da eleição de prefeitos e vereadores demonstrará o real impacto do 8 de janeiro, além de saber até que ponto Lula conseguirá penetrar nos segmentos seduzidos pelo bolsonarismo.
Enquanto isso, Bolsonaro segue nos EUA se preparando para um encontro com o ex-presidente Donald Trump na Conferência Anual de Ação Política Conservadora (CPAC), que acontecerá entre os dias 1º e 4 de março, em Washington.
Sobre a pesquisa: O Instituto DataSenado divulgou na segunda-feira (20), o resultado da pesquisa que aponta a consolidação do eleitorado de direita no país. Os dados ainda revelam o aumento da politização do eleitorado brasileiro, com índices cada vez menores de eleitores que não se posicionam politicamente.
Da Sputnik com edição de Fonte Exclusiva. Compartilhe esta notícia do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Rio de Janeiro.











