Em política, as grandes mudanças raramente começam com anúncio oficial, palanque montado e fotografia de mãos erguidas. Muitas vezes, elas surgem no silêncio dos bastidores, em conversas repetidas, em encontros aparentemente casuais e em gestos que, vistos isoladamente, parecem pequenos. Em Macaé, no Norte Fluminense, esses sinais já começaram a ser lidos com atenção por quem acompanha de perto a movimentação eleitoral da cidade.
Ex-adversários diretos na eleição municipal de 2016, quando disputaram a Prefeitura em campos opostos, o ex-prefeito Dr. Aluízio Jr. e o deputado estadual Chico Machado agora dividem uma proximidade que vai além da geografia.
Vizinhos de prédio no bairro Valentina Miranda, os dois têm conversado com frequência. Por enquanto, nada foi formalizado. Mas, em política, antes da aliança viram os ruídos. E os ruídos, desta vez, têm endereço certo.
Dr. Aluízio disputou a reeleição em 2016 e venceu Chico Machado, então candidato pelo PDT. Uma década depois, o cenário é outro. Chico, hoje deputado estadual e filiado ao PL, trabalha para renovar o mandato na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Dr. Aluízio, ex-prefeito de Macaé e ex-deputado federal, voltou ao PSDB e se movimenta para disputar uma vaga na Câmara Federal.
O peso da aproximação
A eventual aproximação entre os dois tem peso porque mexe em três calendários ao mesmo tempo. O primeiro é o de 2026, quando a disputa por votos em Macaé e no Norte Fluminense deve ser uma das mais concorridas dos últimos anos.
O segundo é o rearranjo interno das forças locais, pressionadas pela entrada de Márcio Rezende, irmão do prefeito Welberth Rezende, no tabuleiro federal pelo PSD. O terceiro, mais distante, mas já observado por operadores políticos, é 2028, quando Welberth não poderá disputar novamente a Prefeitura.
À reportagem, Dr. Aluízio confirmou por telefone que há diálogo com Chico Machado. A confirmação não significa, por ora, o anúncio de uma dobradinha. Mas também não autoriza tratar a movimentação como mera coincidência de vizinhança. O fato político existe. A pergunta agora é até onde ele pode ir.
Na matemática eleitoral, Aluízio e Chico podem se complementar. O ex-prefeito ainda carrega uma marca reconhecida no eleitorado macaense, construiu trajetória como médico, gestor e parlamentar, e tenta reposicionar seu nome depois da disputa municipal de 2024.
Chico, por sua vez, tem mandato, estrutura estadual, presença regional e articulação partidária em uma legenda que terá protagonismo no campo conservador em 2026.
Se a equação avançar, Aluízio poderia ajudar Chico a ampliar sua base em Macaé, enquanto Chico poderia oferecer musculatura política e capilaridade em áreas fora do núcleo mais tradicional do ex-prefeito. A operação, vista por aliados como possível convergência de interesses, também funcionaria como contraponto à candidatura de Márcio Rezende, que entra na disputa com o peso da máquina política construída em torno do prefeito Welberth Rezende.
Disputas proporcionais e alianças locais
O desenho é delicado. Macaé saiu da eleição de 2024 com Welberth fortalecido nas urnas. Esse dado impõe um desafio a qualquer movimentação fora do eixo do governo municipal. Ao mesmo tempo, disputas proporcionais têm lógica própria. Para deputado federal e estadual, alianças locais podem atravessar fronteiras partidárias, ajustar antigas rivalidades e produzir composições improváveis.
É nesse ponto que a aproximação entre Dr. Aluízio e Chico Machado ganha temperatura. Não se trata apenas de dois políticos conversando. Trata-se de dois personagens que já estiveram em lados opostos de uma disputa majoritária e que agora podem enxergar vantagem mútua em uma composição pragmática. Em uma cidade onde o petróleo, os royalties, a saúde, a infraestrutura, o funcionalismo e os bairros em expansão sempre influenciaram o humor político, nenhum gesto de liderança passa despercebido.
Há também um simbolismo curioso. Nos últimos tempos, Dr. Aluízio tornou-se praticante de pedaladas nas primeiras horas da madrugada, antes da rotina no consultório como neurocirurgião. Chico Machado, depois de passar por uma cirurgia bariátrica, também adotou a bicicleta como parte de uma nova rotina. A imagem dos dois, cada um a seu modo, em fase de treino, cabe bem ao momento político. O jogo ainda não começou. Mas há preparação, cálculo e observação de terreno.
Nos bastidores, aliados avaliam que a conversa pode produzir mais do que uma dobradinha para 2026. A sucessão de 2028 já aparece no horizonte de alguns grupos como uma espécie de campeonato seguinte. Ainda é cedo para cravar nomes, alianças ou campos definitivos. Mas não é cedo para perceber que as peças começaram a se mover.
Macaé, chamada de Princesinha do Atlântico e capital de uma economia estratégica para o Estado do Rio, voltará a ser observada como praça decisiva no Norte Fluminense. O peso eleitoral do município, somado à influência regional de suas lideranças, transforma qualquer rearranjo local em movimento com reflexos para além da cidade.
Por enquanto, não há pacto anunciado, fotografia oficial ou discurso conjunto. Há conversas. Há sinais. Há interesses que podem convergir. E há, sobretudo, um calendário eleitoral que costuma fazer na política o que o tempo faz com os muros: desgasta, racha e, quando menos se espera, derruba.
Em 2016, Dr. Aluízio e Chico Machado estavam em lados opostos. Em 2026, podem estar na mesma pista. Se isso vai virar aliança, dobradinha ou apenas exercício de aquecimento, ainda depende das próximas curvas. Mas uma coisa já parece clara: depois da Copa, quando o país voltar os olhos para a eleição, o caldeirão de Macaé promete ferver.
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