O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, voltou a negar uma acusação atribuída ao presidente da Argentina, Javier Milei, sobre as eleições presidenciais de 2023. Em entrevista concedida nesta quarta-feira (5) ao canal argentino +Perfil, o chanceler afirmou que é “absolutamente falso” que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenha destinado US$ 1 bilhão para financiar a campanha de Sergio Massa, que disputou a Presidência argentina contra Milei.
Vieira rejeitou a existência de qualquer repasse dessa magnitude e classificou a acusação como sem fundamento. Ao comentar o valor mencionado, o ministro ressaltou que US$ 1 bilhão representa uma quantia de grande proporção, capaz de financiar projetos de grande porte.
Segundo o chanceler, o governo brasileiro jamais teria empregado uma soma desse tamanho para interferir em campanhas eleitorais, tanto no Brasil quanto em processos políticos realizados em outros países.
“Basta ver a quantia mencionada. Não precisa ser economista para saber que US$ 1 bilhão é uma quantia enorme, gigantesca, que financia não só muitas campanhas eleitorais, mas muitos projetos importantes e que o governo brasileiro está decidido a executar no Brasil”, declarou.
Vieira também negou que Brasília tenha adotado qualquer estratégia de interferência em eleições ou governos estrangeiros.
“Nós jamais interferimos em qualquer campanha ou qualquer ação em governos estrangeiros”, afirmou.
Chanceler explica crise diplomática com Argentina
A entrevista também abordou o recente agravamento das relações entre Brasil e Argentina. Vieira explicou a decisão brasileira de reduzir o nível da representação diplomática entre os dois países, medida anunciada na terça-feira (3).
Na avaliação do ministro, a decisão ocorreu após uma sequência de declarações públicas de Javier Milei contra Lula e instituições brasileiras. Vieira afirmou que quatro episódios registrados em aproximadamente uma semana contribuíram para o agravamento da situação.
“Foram quatro manifestações consecutivas, no espaço de uma semana, em que o presidente da Argentina, de uma forma muito grosseira, direta e agressiva criticou de uma forma inaudita, que nunca havia se visto, as instituições e a pessoa do presidente da República”, disse.
O rebaixamento das relações diplomáticas foi confirmado nesta semana, com o Brasil passando a administrar sua representação na Argentina em nível de encarregado de negócios. O embaixador brasileiro também não retornará a Buenos Aires enquanto o governo brasileiro não considerar satisfatórias as explicações sobre os episódios recentes.
Mauro Vieira diferencia críticas anteriores de Milei
Durante a entrevista, o chanceler também foi questionado sobre declarações feitas anteriormente por Javier Milei durante sua passagem pelo Brasil.
Vieira citou como exemplo a participação do presidente argentino em um evento da CPAC em Balneário Camboriú, Santa Catarina. Na avaliação do ministro, naquela ocasião Milei apresentou suas posições políticas e defendeu ideias que Vieira classificou como de “extrema-direita”, mas não teria direcionado os mesmos ataques às instituições brasileiras ou ao presidente da República.
Para o chanceler, a diferença está no teor e no alvo das declarações mais recentes, que, segundo ele, passaram a atingir diretamente o governo brasileiro e instituições do país.
Declarações ocorreram durante evento com Flávio Bolsonaro
Mauro Vieira também mencionou o contexto político em que algumas das manifestações recentes de Milei ocorreram. O ministro citou a presença do presidente argentino em um evento relacionado ao lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República.
Ao comentar o grupo que acompanhava Milei durante a ocasião, Vieira fez referência a setores ligados ao bolsonarismo e os associou às investigações e condenações relacionadas à tentativa de golpe de Estado no Brasil.
“É bom lembrar que as pessoas que os acompanhavam nesse momento no lançamento dos brasileiros, dessa candidatura, são pessoas ligadas ao grupo que promoveu a tentativa de golpe de Estado no Brasil”, afirmou.
Brasil e Argentina têm histórico de aproximação
Apesar do atual conflito entre os governos, Mauro Vieira destacou que a relação entre Brasil e Argentina possui uma trajetória construída ao longo de décadas e que não começou com os atuais presidentes.
O ministro apontou 1985 como um período importante para a aproximação bilateral, quando os então presidentes José Sarney, do Brasil, e Raúl Alfonsín, da Argentina, iniciaram um processo que contribuiu para uma nova etapa de integração entre os dois países.
A aproximação iniciada naquele período ajudou a consolidar mecanismos de cooperação e integração regional. A relação entre os dois países também se tornou estratégica em diferentes áreas, incluindo comércio, política e integração regional.
Vieira classificou os laços entre Brasil e Argentina como “muito especiais e exemplares” e lamentou o atual processo de deterioração das relações diplomáticas.
Para o ministro, as divergências entre os governos de Lula e Milei não anulam a importância dos vínculos históricos construídos entre os dois países. O cenário atual, entretanto, levou o governo brasileiro a adotar medidas diplomáticas diante da escalada de declarações públicas.
A crise ocorre em um momento de forte tensão política entre Brasília e Buenos Aires. Enquanto o governo brasileiro rejeita as acusações feitas por Milei e cobra respeito institucional, a Argentina mantém sua posição diante das divergências entre os dois governos.
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