A pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira (29) oferece um retrato incômodo, mas bastante revelador, da sucessão presidencial de 2026. À primeira vista, os números parecem apontar para uma vantagem relativamente confortável de Lula. Ele lidera no voto espontâneo, no voto estimulado e em todos os cenários de segundo turno testados. Mas a política brasileira raramente se deixa explicar apenas pela aritmética das intenções de voto.
O que o levantamento mostra, com mais força, é um país que continua preso ao eixo da polarização, ainda que uma parte expressiva do eleitorado demonstre cansaço com ela. Lula aparece com 38% no voto espontâneo, enquanto Flávio Bolsonaro registra cerca de 26% a 27%. No cenário estimulado principal, o presidente chega a 42%, contra 34% do senador. A diferença existe, é consistente e não pode ser ignorada. Mas também não autoriza triunfalismo.
O dado mais importante talvez esteja fora da disputa direta entre os dois nomes mais conhecidos. Brancos, nulos, indecisos e candidatos alternativos somam uma fatia relevante do eleitorado. No cenário estimulado, a chamada terceira via chega a 16%, enquanto nulos, brancos e não respondentes somam outros 8%. Ou seja: quase um quarto dos eleitores ainda não está completamente acomodado na lógica Lula contra Bolsonaro.
Esse espaço, no entanto, não se converte automaticamente em viabilidade eleitoral. Ronaldo Caiado, Renan Santos, Romeu Zema e outros nomes aparecem com percentuais modestos. O problema da terceira via continua sendo o mesmo: há demanda por alternativa, mas não há, até aqui, um nome capaz de transformar essa demanda em movimento nacional. Menor rejeição não basta quando falta conhecimento, estrutura e narrativa.
Lula, por sua vez, se beneficia de dois fatores centrais. O primeiro é a memória eleitoral consolidada. O segundo é a capacidade de vencer adversários diferentes em segundo turno. Contra Flávio Bolsonaro, o placar é apertado: 47% a 44%.
Contra Zema, Caiado e Renan Santos, a vantagem aumenta. Isso sugere que Lula segue sendo o polo mais forte da disputa, mas também mostra que sua vantagem sobre o bolsonarismo é menor do que sua vantagem sobre a direita não bolsonarista.
É nesse ponto que a rejeição se torna o verdadeiro personagem da eleição. Lula tem 49% de rejeição. Flávio Bolsonaro, 51%. São números altos, quase simétricos, que indicam um eleitorado mais mobilizado pelo medo da vitória do outro lado do que pelo entusiasmo com seu próprio candidato, conforme analisei em vídeo no Canal VIU!, no Youtube, em relação a pesquisa Genial/Quaest realizada no início do mês.
A eleição, se seguir nesse rumo, não será apenas uma disputa de projetos. Será uma disputa de bloqueios.
O bolsonarismo tem uma base fiel, numerosa e resistente. Flávio Bolsonaro herda parte desse capital político, mas também carrega o peso do sobrenome. Sua estabilidade no voto espontâneo indica força de campo. Sua queda leve no estimulado, porém, sugere dificuldade de expansão. O senador fala bem para quem já está dentro da trincheira, mas ainda não demonstra força suficiente para atravessar o muro da rejeição.
O governo Lula também enfrenta limites claros. A aprovação agregada está em 38%, enquanto a reprovação chega a 42%. É uma situação de equilíbrio desfavorável: o governo conserva uma base relevante, mas governa sob contestação permanente.
A pesquisa mostra uma correlação direta entre avaliação do governo e voto. Quem aprova tende a votar em Lula. Quem reprova tende a migrar para Flávio Bolsonaro. Isso reduz o espaço para persuasão e aumenta o peso dos acontecimentos econômicos e sociais até 2026.
A economia é o campo mais delicado para o Planalto. A avaliação da economia do país é majoritariamente negativa: 51% a consideram ruim ou péssima. Apenas 17% a veem como ótima ou boa. O paradoxo aparece quando o eleitor fala da própria vida: 34% avaliam sua situação financeira pessoal como positiva e 45% dizem que ela está melhor em comparação com o governo anterior. Há, portanto, uma diferença entre a percepção do país e a percepção da casa.
Essa diferença pode favorecer Lula se a melhora pessoal se consolidar. Mas pode prejudicá-lo se a sensação geral de crise continuar dominando a conversa pública. Em eleições, a economia não é apenas índice. É humor. É preço no mercado. É dívida. É emprego. É medo de perder o que se conquistou. É expectativa sobre o mês seguinte.
A pesquisa também aponta os temas que devem estruturar a campanha: segurança pública, saúde e corrupção. Segurança lidera com 29%, seguida por saúde pública e corrupção, ambas com 26%. Não por acaso, são áreas que atravessam classes sociais, regiões e preferências políticas. A violência mobiliza medo. A saúde mobiliza urgência. A corrupção mobiliza indignação.
Lula precisará responder à segurança sem parecer refém da linguagem da direita. Flávio Bolsonaro tentará transformar corrupção em eixo moral da campanha. Os candidatos alternativos buscarão vender gestão, eficiência e moderação. Mas, por enquanto, nenhum deles conseguiu escapar da sombra dos dois polos principais.
O levantamento, portanto, não mostra uma eleição decidida. Mostra uma eleição inclinada. Lula começa melhor, tem vantagem nos cenários testados e demonstra maior capacidade de agregação no segundo turno. Mas a margem contra Flávio Bolsonaro é curta demais para permitir conforto. A rejeição elevada dos dois candidatos e o peso dos indecisos mantêm a disputa aberta.
O Brasil de 2026, segundo a fotografia da BTG/Nexus, não parece caminhar para uma eleição de esperança. Parece caminhar para uma eleição de contenção. Parte do país votará para continuar. Outra parte votará para impedir. E uma terceira parte, ainda sem endereço político claro, poderá decidir se a polarização será apenas repetida ou se ganhará novas fissuras.
Até aqui, Lula lidera. Mas liderar não é vencer. E, numa eleição marcada por rejeição, economia ambígua e medo social, a dianteira é menos uma chegada antecipada do que uma posição frágil na largada.
*Sobre a pesquisa: O levantamento foi realizado pela Nexus por telefone (via CATI) entre os dias 26 e 28 de junho de 2026, entrevistando 2.009 eleitores em todo o território nacional. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, com um intervalo de confiança de 95%.
A amostra foi controlada por cotas de sexo, idade, escolaridade, tipo de telefonia e DDD, utilizando dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADc) de 2024 como referência. O levantamento está registrado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sob o número BR-07875/2026.
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