Em Macaé (RJ), a política parece ter descoberto que nem toda articulação precisa acontecer em gabinete, reunião partidária ou mesa de restaurante. Enfermaria de hospital, missa, batizado e qualquer ambiente que permita uma boa conversa — e, de preferência, uma fotografia — podem virar cenário para movimentos que só serão compreendidos completamente quando as urnas entrarem em cena.
Foi assim no Hospital da Unimed.
Internado após uma intercorrência intestinal, o deputado estadual Chico Machado (PL-RJ) recebeu a visita de dois médicos bastante conhecidos da política macaense: o ex-prefeito Dr. Aluízio e Flávio Antunes.
À primeira vista, solidariedade entre amigos. Na política, entretanto, fotografia raramente é apenas fotografia.
Os três posaram juntos, sorriram para a câmera e a imagem ganhou as redes sociais. Bastou para começar outra leitura nos bastidores: o encontro pode ter revelado mais do que uma visita de cortesia.
Uma dobrada começando a ganhar forma
Dr. Aluízio prepara-se para disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados, enquanto Chico Machado busca renovar seu mandato na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
A possibilidade de uma dobrada eleitoral entre os dois já circula no meio político macaense.
A equação é relativamente simples: Aluízio busca votos para Brasília; Chico precisa consolidar sua base para permanecer na Alerj. Juntos, podem tentar recompor uma faixa relevante do eleitorado local que não está necessariamente alinhada ao atual núcleo de poder do município.
E nessa fotografia aparece também Flávio Antunes.
Na eleição de 2022, ele disputou uma vaga de deputado federal e recebeu mais de 26 mil votos. Segundo os números oficias contabilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 62,64% dessa votação veio de Macaé.
Não é exatamente um detalhe desprezível. Flávio possui capital eleitoral próprio e, principalmente, presença em segmentos da cidade capazes de fazer diferença em uma disputa municipal.
Por isso, nos bastidores, há quem enxergue naquela foto um desenho muito maior.
2026 pode ser apenas o primeiro ensaio
A leitura mais apimentada é que Dr. Aluízio, Chico Machado e Flávio Antunes poderiam estar construindo uma espécie de frente política com horizonte para 2028.
É cedo? Evidentemente.
Mas política municipal começa cedo — às vezes cedo demais.
Uma eleição estadual costuma servir também como laboratório para a eleição seguinte. Votos são contados bairro por bairro, lideranças são testadas, cabos eleitorais reorganizados e alianças passam pelo teste das urnas.
Nesse aspecto, outubro de 2026 poderá dizer muito mais sobre Macaé do que apenas quem será deputado estadual ou federal.
Poderá revelar quem efetivamente mantém musculatura eleitoral para entrar no jogo sucessório dois anos depois.
E é justamente por isso que a fotografia no hospital chama atenção. Pode ter sido somente uma visita. Mas pode ter sido também o primeiro retrato de uma composição.
Governistas também fazem as contas
Do outro lado do tabuleiro, ninguém está dormindo. No grupo do prefeito Welberth Rezende, as movimentações igualmente começam a mirar não apenas 2026, mas o que acontecerá depois.
O presidente da Câmara Municipal, Alan Mansur (PSD), disputa uma cadeira de deputado estadual e aparece naturalmente entre os nomes com potencial para ganhar protagonismo dentro do grupo governista.
Uma boa votação em 2026 pode representar muito mais do que uma passagem para a Alerj. Pode transformá-lo em personagem ainda mais relevante na discussão sobre a sucessão municipal.
É aí que uma eleição passa a conversar diretamente com a outra. Quem pretende disputar a Prefeitura de Macaé em 2028 terá interesse especial no resultado das urnas de 2026. Não apenas nos eleitos, mas também nos votos.
E tem Riverton Mussi
Outro personagem que permanece no radar é o ex-prefeito Riverton Mussi. Sem impedimento jurídico atualmente apontado para uma eventual candidatura, Riverton continua sendo um nome conhecido do eleitorado e integra o universo político que orbita o atual governo municipal.
Se estará ou não na linha de largada em 2028, porém, é outra conversa. Porque no grupo governista há um personagem com vantagem considerável na condução dessa prosa: Welberth Rezende.
O prefeito não poderá tratar sua própria sucessão como espectador.
Ao contrário.
É ele quem administra hoje a máquina municipal, mantém relação com vereadores e lideranças, conversa com partidos e terá enorme influência sobre a montagem do projeto que tentará conservar o grupo no comando da Prefeitura.
Em linguagem de bastidor: o bastão está com Welberth.
E candidatos a recebê-lo certamente não faltarão.
A eleição dentro da eleição
Macaé poderá viver em 2026 uma eleição com duas camadas. Na superfície estarão as disputas pela Assembleia Legislativa e pela Câmara Federal.
Por baixo delas estará outra competição: quem chega mais forte em 2028?
Dr. Aluízio precisa provar novamente sua capacidade de mobilização eleitoral. Chico Machado tentará renovar o mandato.
Flávio Antunes carrega o ativo dos votos conquistados em 2022. Alan Mansur tentará transformar sua presença no Legislativo municipal em projeção estadual.
Riverton continua no tabuleiro.
E Welberth observa tudo de uma posição privilegiada.
É bastante gente para poucas cadeiras. Por isso, até uma visita hospitalar acaba entrando no radar.
Na política, especialmente quando o calendário eleitoral começa a apertar, existe fotografia de cortesia.
Mas também existe fotografia que, algum tempo depois, vira documento histórico de uma aliança que começou quando quase ninguém estava prestando atenção.
Em Macaé, pelo visto, 2028 já começou.
*Compartilhe este artigo do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Rio de Janeiro.











