A contratação de uma empresa norte-americana de cibersegurança pela campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) passou a ser alvo de questionamentos após uma reportagem do The Intercept Brasil, publicada nesta sexta-feira (16), apontar pagamentos à Elytron. Segundo a publicação, a companhia teria apresentado nos Estados Unidos um sistema de inteligência artificial voltado à manipulação política clandestina.
Documentos obtidos pelo veículo indicariam que a tecnologia poderia ser utilizada para identificar perfis de eleitores, segmentar públicos e disseminar rumores e desinformação. Entre os recursos descritos estariam a criação de contas falsas e o uso de técnicas de guerra psicológica para enfraquecer adversários políticos.
A reportagem, porém, ressalta que não há evidências de que o sistema denunciado tenha sido utilizado pela campanha de Flávio Bolsonaro ou pelo Partido Liberal (PL) nas eleições de 2026.
Ex-consultor afirma ter denunciado a empresa
As informações foram fornecidas ao The Intercept Brasil por Vincent Edward Reed, empreendedor que atuou como consultor da Elytron entre 2024 e 2025. Ele afirmou ter rompido com a empresa após conhecer o sistema e considerar preocupantes suas possíveis aplicações.
Reed também declarou ter levado as denúncias ao FBI, a polícia federal dos Estados Unidos, e ao Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes do país. Segundo ele, as iniciativas não resultaram em avanços nas apurações.
Tecnologia poderia segmentar eleitores e produzir deepfakes
De acordo com a reportagem, materiais comerciais da Elytron descreviam ferramentas capazes de cruzar informações sociais, políticas e econômicas para identificar grupos de eleitores e direcionar conteúdos conforme suas características.
Entre as funcionalidades mencionadas estariam a produção de imagens, vídeos e deepfakes — conteúdos sintéticos que podem imitar pessoas reais —, a infiltração em redes de opositores e a distribuição coordenada de mensagens para influenciar a opinião pública.
O uso clandestino dessas ferramentas poderia levantar questionamentos sobre a integridade das eleições. Entretanto, a existência de apresentações comerciais ou de denúncias sobre uma tecnologia não comprova, por si só, que as práticas tenham sido executadas em uma campanha específica.
Despesas eleitorais entram no debate
Segundo o The Intercept Brasil, registros da Justiça Eleitoral indicam que a campanha de Flávio declarou despesas com a Elytron. Os pagamentos foram descritos como serviços de consultoria em tecnologia da informação, incluindo referências a apoio forense, investigação de tentativas de phishing, testes de segurança e monitoramento de infraestrutura.
A reportagem menciona valores diferentes nos registros financeiros: R$ 600 mil em pagamentos identificados e R$ 1 milhão em despesas informadas na prestação de contas parcial. O PL também teria registrado um pagamento de R$ 131,9 mil à empresa.
Os valores e as descrições dos serviços, isoladamente, não demonstram que a campanha tenha contratado ou utilizado ferramentas de manipulação política. Serviços de cibersegurança também podem ser empregados legitimamente para proteger sistemas, dados e canais de comunicação contra ataques.
Campanha e empresa negam irregularidades
Procurada pelo The Intercept Brasil, a campanha de Flávio Bolsonaro afirmou que não contrata serviços que violem a legislação eleitoral. A equipe considerou indevida a associação entre a contratação de segurança da informação e práticas de manipulação política, alegando que o objetivo era proteger os sistemas de comunicação contra ataques cibernéticos.
Após a publicação da reportagem, a Elytron também rejeitou as acusações. A empresa declarou atuar exclusivamente com segurança cibernética defensiva e negou oferecer serviços de manipulação política, disseminação de informações falsas ou produção de deepfakes para clientes.
A companhia acrescentou que os serviços prestados à campanha e ao partido tinham finalidade técnica e preventiva. Também afirmou que investigará possíveis responsabilidades pelo uso indevido de seu nome.
O caso amplia o debate sobre a contratação de empresas de tecnologia por campanhas eleitorais e a necessidade de distinguir serviços legítimos de proteção digital de ferramentas eventualmente destinadas à manipulação da opinião pública.
Até o momento, as informações divulgadas permanecem no campo das denúncias e alegações atribuídas à reportagem. Não há comprovação apresentada de que o sistema descrito tenha sido utilizado pela campanha de Flávio Bolsonaro.
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