Vivemos tempos de transição, entre um governo que patinou na pandemia (Jair Bolsonaro) e, mesmo assim, foi muito bem votado dia 30 último. E outro, também com votação popular intensa e apoio da maioria da classe artística, intelectuais e do chamado centro-democrático, mas agora responsável pelos destinos da Nação (dividida) pelos próximos quatro anos.
A primeira tarefa para o vencedor, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), será encarar o risco de vulnerabilidade externa. Afinal, sabemos todos que as turbulências cambiais nos países de moeda não conversível, como o Brasil, geram sempre graves consequências fiscais e monetárias domésticas, face à assimetria fundamental do sistema monetário-financeiro global e a função de reserva do dólar (perigoso agente de fuga para a liquidez) submetendo a moeda nacional aos ditames da política monetária americana.
Também a recessão internacional deprecia o preço das commodities e reduz ganhos de exportação dos alimentos, petróleo e minério de ferro.
Outra tarefa, não menos importante, é a questão da consolidação fiscal, incluindo já no orçamento de 2023, a promessa de campanha de reajustar a tabela do Imposto de Renda, garantir o Auxílio Brasil integral e o reajuste real do salário mínimo e das aposentadorias e pensões da seguridade social atingindo um contingente, na casa de 100 milhões de brasileiros, tanto nas camadas populares, quanto em parte da classe média brasileira.
Este caminho seria o passo inicial do fortalecimento do mercado interno de consumo baseado nos salários e demais rendas do trabalho e no investimento público lastreado no crédito público (BNDES, BB, CEF), como motor da recuperação econômica.
No outro extremo estão os rentistas da Avenida Faria Lima que advogam ajuste fiscal, mediante redução do Estado social, privatizações, isenção de Imposto de Renda sobre dividendos e manutenção dos fartos incentivos e renúncias fiscais que fragilizam as finanças públicas federais, estaduais e municipais.
Basta lembrar, que nos últimos doze meses, os juros da dívida interna renderam para os detentores do capital fictício, a bagatela de 598 bilhões de reais na forma de juros da volumosa Dívida Pública interna.
No meio disso tudo temos manifestações populares (algumas de caráter claramente antidemocrático) que pipocam nas ruas gerando acirramento das tensões, e ainda, um adensamento das bancadas ultraconservadoras no Congresso Nacional.
Neste contexto, o grupo vencedor precisa evitar a formação de uma conjuntura conhecida como “tempestade perfeita”, que vai cobrar das classes populares a conta salgada de um desarranjo político insolúvel, com implicações econômicas, políticas e sociais muito negativas. Oxalá o bom senso e a defesa da brasilidade predominem!
*Ranulfo Vidigal é economista, consultor e doutorando pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele é colunista permanente do Diário da Guanabara.












