Todo mundo fala em modernização, digitalização, acesso facilitado. Tudo agora é feito pela internet — ou, ao menos, deveria ser. Consulta no SUS, benefício do INSS, acesso à Receita Federal, matrícula escolar, movimentações bancárias, emissão de documentos, cadastro no Gov.br. A tecnologia virou pré-requisito para existir no mundo. Mas tem uma pergunta que quase ninguém faz: e quem está fora disso tudo?
Mais de 20 milhões de brasileiros vivem em domicílios sem acesso à internet, segundo a PNAD Contínua, do IBGE (2024). Isso representa cerca de 10,6% da população do país. Ou seja, enquanto avançamos com aplicativos, autenticações digitais e plataformas públicas online, uma parte expressiva da população simplesmente não tem como acompanhar esse ritmo.

E não estamos falando de algo supérfluo. A digitalização do acesso a serviços públicos e privados cria uma barreira real para quem está fora da internet. Sem um celular com plano de dados, sem rede estável, sem familiaridade com os aplicativos, essas pessoas não conseguem sequer agendar uma consulta, resolver um problema bancário ou garantir o próprio sustento.
Além disso, mesmo entre os que estão tecnicamente “conectados”, a exclusão continua presente. De acordo com estudo da Aliança para a Internet Acessível (A4AI), 57% dos brasileiros conectados não possuem acesso pleno à internet — ou seja, lidam com conexões instáveis, falta de dispositivos adequados e baixa alfabetização digital. É o que se chama de conectividade significativa: estar online não é o bastante, é preciso conseguir usar a internet de forma segura, constante e funcional.
Vivemos uma contradição: criou-se a ideia de que todo mundo tem acesso, que basta querer. Há até quem repita, com certo deboche, que “as pessoas não têm casa, mas têm telefone”. Mas será que isso basta? Ter um aparelho antigo, com acesso limitado, sem pacote de dados, sem conhecimento técnico e sem suporte — isso é inclusão?
A verdade é que estamos cada vez mais presos em bolhas digitais, absorvendo apenas as realidades que nos confortam. É mais fácil acreditar que a inclusão digital já aconteceu do que enxergar que, para milhões, ela sequer começou. Essa ilusão alimenta a negligência. Enquanto enxergamos a exceção como regra, ignoramos a estrutura que sustenta a desigualdade.
Essa exclusão compromete dimensões emocionais, cognitivas e sociais. Estar desconectado hoje não é apenas uma limitação técnica — é também uma forma de isolamento que gera sofrimento real. Sem acesso a serviços, sem possibilidade de estudar ou concorrer a vagas de emprego, muitas pessoas vivem um ciclo de frustração, desemprego e desamparo. A exclusão digital agrava quadros de ansiedade, contribui para sintomas de depressão e impede a construção de autonomia, especialmente entre jovens, idosos e populações vulneráveis. Quando o mundo exige habilidades que não foram ensinadas, o resultado é um sentimento constante de inadequação e impotência.
A tecnologia só é sinônimo de progresso quando inclui. Caso contrário, ela se transforma em mais um instrumento de desigualdade — sofisticado, silencioso e cruel.
Karoline Barbosa
Psicóloga | Colunista sobre comportamento, saúde mental e cultura digital | Produção de conteúdo com base em Psicologia Social, me siga no Linkedin.












