*Por Ranulfo Vidigal
Depois de vencido o regime militar e negociada/aprovada a Constituição de 1988, que prometia nos aproximar do Estado do Bem Estar nórdico em algumas décadas, a grande maioria da população foi convencida de que teria, mais a frente, serviços públicos “padrão FIFA” e mais oportunidades produtivas para todos. Mas as manifestações populares de 2013 jogaram por terra essas ilusões.
Pior ainda é que, de lá para cá, o nível de produção de riqueza por habitante estagnou-se, o desemprego ganhou dimensões enormes, o poder público perdeu capacidade de planejar e a crise política e social se arrastam até hoje.
Olhando com calma o desenho político presente nas candidaturas populares com maior aceitação eleitoral, podemos esperar a construção de um futuro pacto social-liberal movido pela colaboração de classes, com clara intenção de poupar o andar de cima, hoje encastelado na ‘gestão’ dívida pública interna, na “independência” do Banco Central e na mobilidade plena de capitais.
Mediante uma vertente elitista da realidade, este grupo preocupa-se tão somente com o destino dos R$ 5,7 trilhões alocados em Fundos de Investimentos Financeiros. Essa sinalização que acalma a malta endinheirada, tem por meta tentar colocar o “pobre no orçamento” e suas políticas públicas assistenciais aprovadas pelo Banco Mundial, sem qualquer mudança estrutural mais profunda.
Parece que isso é o máximo que a correlação de forças políticas permite hoje, pois a cada revisão das metas programáticas, as propostas ficam mais palatáveis aos donos do poder real.
A financeirização retira o estado provedor de políticas públicas progressistas, mediante redução drástica do salário social – aquela direcionada para a parcela mais carente da sociedade.
O resultado é um ciclo eleitoral de esperança, euforia, desilusão, ressentimento e apatia. Isso pode se repetir já nos primeiros anos da futura administração, pois fica difícil “comprar tempo” e empurrar a crise social/ambiental com a barriga.
Essa estratégia tem ainda o risco de deixar o ônus do ajuste sobre os ombros do trabalho não precarizado, dos profissionais assalariados e detentores de pequenos negócios. Isolar os estamentos médios, ou a classe média tradicional, que luta contra a queda de rendimentos e a escassez de ocupações compatíveis com sua escolaridade, traz à tona o risco de forte desconfiança na via política/eleitoral, como solução negociada da resolução desta crise nacional e internacional que atinge a maioria dos países da periferia capitalista.
Guerras e revoluções sempre caminham juntas. Neste contexto, a massa popular está preocupada em resolver seus problemas cotidianos concretos. Assim, culpar o povo pela passividade vigente é um argumento fantasioso.
A história social nos comprova com diversos exemplos (Moisés no Egito, as Revoluções Francesa, Russa e Chinesa, ou o ativismo de Luther King nos EUA), que a ação social espontânea sem vanguardas políticas – lideranças que guiam de forma pedagógica e democrática – dá sempre em grandes frustrações. Ou seja, as esferas parlamentar e institucional, sem organização e mobilização, geram derrota certa.
A esperança equilibrista nos obriga a pensar que amanhã será um novo dia, enfim, como os países vizinhos comprovam!












