Há 70 anos, Tenório Cavalcanti empunhava sua metralhadora “Lurdinha” e comandava, sob a capa preta que se tornou lendária, um império político em Duque de Caxias que faria qualquer oligarquia atual corar de inveja.
O “Homem da Capa Preta” foi apenas o primeiro capítulo de uma narrativa que se repete ciclicamente na Baixada Fluminense: a disputa por território, influência e poder entre clãs familiares que transformaram a política regional num tabuleiro de xadrez onde cada movimento ressoa por toda a geografia eleitoral do Rio de Janeiro.
Nesta quinta-feira (19), Eduardo Paes oficializou o que vinha sendo ventilado nos bastidores há semanas: a advogada Jane Reis, irmã do ex-prefeito de Duque de Caxias Washington Reis e figura emblemática da dinastia política mais poderosa do MDB fluminense, será sua vice na corrida ao governo do estado.
O anúncio, feito na presença de Baleia Rossi, presidente nacional do partido, sela uma aliança que, na superfície, parece engenhosa. Na prática, pode ter acendido um rastilho imprevisível.
Quando uma aliança cria um inimigo
A escolha de Jane Reis não é apenas simbólica — é geográfica e estratégica. A família Reis, com Washington como padrinho político, controla Duque de Caxias, município de 920 mil habitantes e terceiro maior colégio eleitoral do estado.
É a espinha dorsal do MDB na Baixada, região que concentra cerca de 30% do eleitorado fluminense e que pode funcionar como verdadeiro “fiel da balança” em eleições estaduais.
Mas toda jogada política tem seus custos. E o preço desta veio imediatamente: o afastamento da família Cozzolino, que comanda Magé e preside o Democracia Cristã (DC) no Rio de Janeiro.
Os Cozzolino e os Reis não são apenas rivais — são, por décadas, antagonistas numa guerra política que define alianças e rupturas em todo o território da Baixada.
Renato Cozzolino, prefeito de Magé com índices de aprovação superiores a 80%, chegou a anunciar sua saída da prefeitura para disputar o governo pelo DC. Seu primo, Mauro Cozzolino, assumiu recentemente a presidência estadual do partido justamente para viabilizar essa candidatura.
Com o movimento de Paes em direção aos Reis, o clã Cozzolino não teve dúvidas: passou a flertar abertamente com Anthony Garotinho, o político mais imprevisível e, talvez, mais perigoso para os planos do atual prefeito do Rio. Magé não tem o tamanho de Duque de Caxias, mas entraria no jogo com uma cartada de peso.
O retorno do franco-atirador
Anthony Garotinho não é novato neste tipo de empreitada. Ex-governador, ex-prefeito de Campos, candidato a presidente em 2002 e uma das figuras mais controversas da política fluminense, Garotinho possui algo raro: recall eleitoral próprio. Pesquisas recentes apontam que ele poderia atingir, sozinho, cerca de 15% das intenções de voto — o suficiente para fragmentar o primeiro turno e, quem sabe, garantir uma vaga no segundo.
Nas redes sociais, Garotinho tem sido claro: não seguirá Washington Reis ao palanque de Eduardo Paes. O motivo é simples e visceral. Durante anos, o ex-governador denunciou o grupo que comandou o estado — Eduardo Paes incluído —, acusando-os de corrupção e má gestão. Apoiar essa chapa seria, para ele, negar tudo o que construiu politicamente nos últimos anos.
A desistência de Washington Reis em ser candidato a governador — movimento costurado pela cúpula nacional do MDB, com Baleia Rossi e Michel Temer à frente — liberou Garotinho para definir seu próprio caminho. E a conversa com a família Cozzolino avança “a todo vapor”, segundo fontes próximas.
Witzel, o fantasma que insiste em voltar
Se Garotinho é o franco-atirador, Wilson Witzel é o fantasma político que se recusa a desaparecer. Cassado em 2021 após impeachment, o ex-governador anunciou em fevereiro sua intenção de se filiar ao Democracia Cristã no dia 6 de março, com vistas a disputar novamente o Palácio Guanabara.
Com o movimento de Garotinho com a família Cozzolino, Witzel agora estaria flertando com o Democrata, antigo PMB (Partido da Mulher Brasileira).
Witzel, que surpreendeu a todos ao vencer Eduardo Paes no segundo turno de 2018, embarcando na onda bolsonarista daquele pleito, sustenta que foi perseguido politicamente e pede “uma nova chance”.
Seu discurso de vítima encontra eco em parcelas do eleitorado que se sentem desencantadas com a política tradicional — exatamente o nicho que o ex-governador tentará explorar.
O problema é que Witzel carrega uma rejeição altíssima e sua ficha suja o torna inelegível por enquanto. Mas, na política brasileira, interdições judiciais são temporárias e recursos judiciais, infinitos.
Violência, poder e genealogias políticas: a Baixada como termômetro:
A Baixada Fluminense não é apenas um pedaço de terra com 13 municípios e quase 4 milhões de habitantes. É um microcosmo onde a política se faz com extrema violência, tanto simbólica quanto literal.
Desde 1988, a região registrou 89 assassinatos ou tentativas de homicídio contra políticos, cabos eleitorais e gestores públicos. Magé, reduto dos Cozzolino, é a cidade campeã, com nove assassinatos desde 1997.
Neste contexto, as famílias políticas não são apenas organizações partidárias — são estruturas de poder quase dinásticas. Os Cozzolino dominam Magé há mais de quatro décadas. Os Reis controlam Duque de Caxias. Cada movimento de um desses clãs provoca ondas que se espalham por toda a região e, inevitavelmente, pelo estado.
Eduardo Paes, ao optar por Jane Reis, fez uma aposta clara: preferiu a estrutura do MDB e a força eleitoral de Caxias ao custo de indispor-se com Magé e o DC. É uma escolha pragmática, mas que carrega riscos.
Fragmentação e o segundo turno improvável
O cenário ideal para Eduardo Paes seria uma vitória confortável no primeiro turno, consolidando uma coalizão que vai do PT de Lula ao MDB, passando por setores da centro-direita. As pesquisas eleitorais mais recentes, como a do Instituto 100% Cidades, divulgada em fevereiro, apontam Paes com 42,5% das intenções de voto, liderando com folga.
Mas o eleitorado fluminense é volátil, e quase 60% dos eleitores ainda não sabe em quem votar. Com Garotinho disputando (provavelmente pelo Republicanos ou o DC, um candidato bolsonarista no páreo e até mesmo Witzel tentando viabilizar sua volta, a eleição pode se tornar imprevisível.
Garotinho não precisa vencer para atrapalhar os planos de Paes — basta que leve a disputa para o segundo turno. E, numa eventual segunda etapa, tudo pode acontecer. A polarização nacional, o desgaste natural de quem governa e o fator surpresa da Baixada são variáveis que ninguém pode ignorar.
A velha política e a nova Baixada
Desde Tenório Cavalcanti, a Baixada Fluminense funciona como laboratório político onde se testam os limites entre poder, violência, carisma e território. Eduardo Paes tentou, com sua aliança ao MDB, trazer para si a força dessa região. Mas esqueceu-se de uma lição fundamental: na Baixada, cada aliança cria um inimigo, e cada movimento no tabuleiro pode virar o jogo.
Se Garotinho entrar com força, se Witzel conseguir escapar das amarras judiciais, se Renato Cozzolino conseguir canalizar o descontentamento local para um aliado, a eleição de 2026 para o governo do Rio pode não ser a caminhada tranquila que Eduardo Paes imaginava ao deixar a prefeitura da capital.
A Baixada, como sempre, terá a última palavra. E, como nos tempos de Tenório, quem ignora sua força política paga o preço nas urnas.
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