Durante décadas, o Rio de Janeiro foi sinônimo de Brasil para o mundo: o Cristo Redentor, as praias de Copacabana, o samba, o futebol e a alegria. Hoje, no entanto, esse mesmo estado se tornou um triste retrato da falência de políticas públicas, da violência institucionalizada e do abandono social.
O Rio não está somente em crise — ele parece perdido. E essa perda tem consequências para todo o país.
É impossível ignorar os números: comunidades inteiras, como Complexo do Alemão, Vila Cruzeiro, Jacarezinho, Rocinha e outras, vivem sob o domínio armado — seja do tráfico ou das milícias. Em algumas dessas regiões, o Estado só entra com tanques e helicópteros. E, mesmo assim, entra para matar, não para servir.
A ideia de “cidade partida”, descrita por Zuenir Ventura ainda nos anos 90, nunca foi tão real. De um lado, a Zona Sul, que ainda se agarra ao encanto turístico. Do outro, uma população esquecida, cercada pelo medo, pela pobreza e pela ausência do Estado.
Corrupção institucionalizada
O problema não é só a criminalidade armada. O Rio de Janeiro também se afunda em corrupção política crônica. Não é coincidência que vários ex-governadores estejam ou estiveram presos. O desvio de verbas públicas, a falta de transparência e o conchavo com organizações criminosas tornaram o poder público parte do problema.
Quando o Estado se torna refém dos próprios esquemas de poder, o cidadão comum fica sem amparo.
A influência direta na violência da Bahia
Um dos exemplos mais alarmantes da exportação da violência carioca é o que está acontecendo na Bahia. Nos últimos anos, o estado baiano enfrenta uma escalada brutal na criminalidade, especialmente em Salvador e nas regiões metropolitanas. Facções como o Comando Vermelho, originado no Rio de Janeiro, ampliaram seu território e influência, travando guerras sangrentas com grupos locais, como o BDM (Bonde do Maluco).
A rota do tráfico de drogas, armas e o domínio de territórios em áreas periféricas passou a seguir estratégias idênticas às aplicadas nas comunidades cariocas: ocupação armada, intimidação de moradores, extorsão de comerciantes e confronto direto com as forças policiais.
O que começou nas favelas cariocas já atinge o coração do Nordeste.
E o povo?
O mais grave de tudo é que, no meio desse caos, estão milhões de pessoas comuns tentando sobreviver. Gente que acorda cedo, pega transporte lotado, cria filhos com medo de bala perdida e ainda tenta sonhar. Essas pessoas são as maiores vítimas da guerra não declarada que assola o estado.
Está perdido… ou está sendo deixado para perder?
Dizer que o Rio de Janeiro está perdido é, ao mesmo tempo, um diagnóstico e um alerta. Perdido está o poder público, que abandonou sua missão básica. Perdida está a classe política, que prioriza interesses pessoais. Perdida está a esperança de muitos jovens que crescem sem perspectiva.
Mas ainda há saída. O Rio precisa de um plano de reconstrução real — não militarizado, mas humanizado. Ações integradas de segurança, educação, urbanização, cultura, emprego e escuta da comunidade. Uma intervenção de verdade, não só para conter, mas para transformar.
O exemplo de El Salvador: de país mais violento à referência em segurança
A recuperação de El Salvador mostra que, mesmo os cenários mais desesperadores, podem ser revertidos com ação coordenada, firmeza e estratégia de longo prazo. Há poucos anos, o país da América Central era conhecido por ter a maior taxa de homicídios do mundo, dominado por facções como a MS-13 e a Barrio 18.
Sob o governo de Nayib Bukele, o país adotou medidas duras: Estado de Exceção, reforma no sistema prisional, operações contra o crime organizado e reocupação de territórios. Mas não ficou somente na repressão — El Salvador também investiu em turismo, infraestrutura urbana, educação e comunicação social.
Como resultado, as taxas de violência despencaram, regiões antes dominadas pelo medo foram recuperadas e o país começou a atrair investimentos e visitantes. Projetos como o Surf City mostraram que segurança e desenvolvimento precisam andar de mãos dadas.
O Rio de Janeiro pode estar à beira do abismo, mas ele ainda é Brasil. Ignorar o que acontece ali é deixar que o mesmo destino alcance outros estados — como já está acontecendo com a Bahia.
El Salvador provou que não existe território irrecuperável. Existe ausência de vontade política. Existe negligência. E existe a possibilidade de mudança — se houver coragem para agir.












