A morte de Jô Soares aos 84 anos, na madrugada desta sexta-feira (5), me faz recordar um momento épico na carreira deste brilhante humorista e apresentador de talk show.
Foi em 1987, ao receber o troféu imprensa das mãos do empresário Silvio Santos, quando pediu para ler um artigo que publicara no Jornal do Brasil, no que foi prontamente atendido. Ele era contemplado, na ocasião, como melhor humorista referente ao ano de 1986.
Jô deixava a Globo, até então uma emissora que detinha quase um monopólio da audiência no país, para iniciar um bem sucedido programa de entrevistas no SBT. Algo imperdoável ante a soberba de uma emissora habituada a destruir reputações ou relegar profissionais ao ostracismo.
Eram os velhos tempos de uma emissora que ostentava a fama de eleger ou destituir presidentes, por meio de manipulação da informação, é claro. Um hábito, assim como aquele do cachimbo, que deixa a boca torta.
Diante das câmeras e com um classe peculiar, Jô Soares revelou que o seu último encontro com o então todo poderoso José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, na época o principal executivo da emissora, foi repleto de retaliações e ameaças, como é narrada pelo próprio Jô no vídeo reproduzido acima. Retaliações torpes, que visavam, sobretudo, a asfixia financeira dos profissionais em qualquer atividade fora da bolha.
Boni falava com todas as letras que a partir daquele momento o interlocutor ingressava na longa “lista negra” em que figuravam artistas, políticos e personalidades com opiniões fora do eixo. O ex-funcionário não se curvou. Se manteve de pé e partiu para cima revelando o conteúdo de sua conversa e afirmando que tinha outros meios de de divulgar seus espetáculos que a partir dali estariam banidos de citações na programação.
A perseguição seria tão implacável, que até mesmo tentar proibir o uso do nome “Gordo”, estudava-se como mecanismo de retaliação.
O humorista criticava a política da Rede Globo de Televisão de vetar os comerciais feitos por artistas de outras emissoras de seus intervalos e também protestava contra o que considerava ingratidão e rancor da emissora, especialmente de seu superintendente à época, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni.
Jô Soares, no ato de pragmatismo, depois retornaria à Globo, ainda que seu programa no SBT, o “Jô Onze e Maia”, fosse um sucesso. Mas naquele momento de entrada em outra emissora concorrente da anterior, o humoristas falou verdades que muitos profissionais e vítimas das condutas inapropriadas da TV dos Marinhos, seja em seu jornalismo ou até mesmo no ambiente profissional, gostariam de falar.











