A economia e a cotação das moedas são excelentes termômetros para analisar os rumos da geopolítica e o posicionamento das grandes potências em termos de dominação. Neste momento, os sinais apontam para o declínio da Pax Americana e o retorno a um mundo multipolar. É o que se pode avaliar, por exemplo, diante da queda da participação do dólar nas reservas dos bancos centrais e como moeda de reserva global.
De acordo com um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI), a participação do dólar americano nas reservas cambiais globais caiu para 56,3% no segundo trimestre de 2025, o menor nível em três décadas. Embora parte dessa queda seja atribuída a flutuações cambiais, e não a uma venda ativa por parte dos bancos centrais, a tendência é inegável e reflete um movimento mais amplo de diversificação e busca por alternativas ao dólar.
“Os efeitos da taxa de câmbio levaram a quase todo o declínio na participação da moeda americana nas reservas cambiais”, escreveram os pesquisadores do FMI Glen Kwende, Erin Nephew e Carlos Sanchez-Munoz. Eles estimaram que cerca de 92% da queda foi devido a mudanças de avaliação.
A Rússia, por exemplo, acelerou seus esforços para se afastar do dólar e do euro, especialmente após as sanções financeiras impostas em 2022. O país tem aumentado o comércio com parceiros internacionais utilizando suas moedas nacionais, uma tendência que vem sendo cada vez mais apoiada pelos membros do BRICS.
As principais economias do bloco já começaram a reduzir a dependência do dólar, impulsionadas pelo uso da moeda americana como arma política por meio de sanções.
Este cenário de desdolarização e fortalecimento de novos blocos econômicos levanta questões sobre a sustentabilidade da dívida americana e o futuro da economia global. Uma percepção de que a taxa neutra de juros nos EUA se elevou permanentemente pode ser o estopim de uma crise fiscal aguda, forçando o mercado a buscar uma solução para o desequilíbrio fiscal americano.
Há um paralelo histórico interessante entre o momento atual e o ano de 1914, que marcou o fim da Pax Britânica. O que estamos testemunhando pode ser o início do fim da Pax Americana. As três décadas que se seguiram a 1914 foram trágicas, e a esperança é que a história não se repita.
No entanto, a desorganização e a perda de eficiência microeconômica com o fechamento das economias cobrarão seu preço nas próximas décadas, com uma provável desaceleração importante do crescimento da economia mundial.
O mundo está em transição. A hegemonia do dólar, que por tanto tempo sustentou a ordem econômica e política global, está sendo desafiada. A ascensão de um mundo multipolar, com novos centros de poder e influência, é uma realidade que se impõe. Resta saber como as nações se adaptarão a essa nova configuração e quais serão as consequências para a estabilidade e a prosperidade globais.
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