*Por Deneval Siqueira
O conceito de ruína é de extrema valia para se compreender os tópicos do tema aqui analisado. Em Terra em transe, de Glauber Rocha (1967), Paulo Martins, o jornalista que assume a narração e o tom de letargia impresso ao roteiro, é a personagem de maior destaque do longa. É por meio dele que vemos os lados opostos da moeda, o conservadorismo de Diaz, o populismo ineficiente de Vieira e as consequentes ruínas usadas na peça fílmica.
Com o sonho de ser poeta e falar sobre temas políticos, Martins é, na verdade, um observador desgraçado dos fatos sobre os quais ele julgava ter algum controle. Seu ego e talvez sua fé extrema nas mudanças sociais o fizeram apoiar e trair, difamar e promover campanhas políticas e representantes que um dia já houvera desprezado. Nada tão atual na vida política brasileira! O jogo político social do Estado.
A metáfora do “transe” se impõe na arte como elemento de uma estética muito particular: Glauber Rocha, que aqui está sendo relido e recuperado na sua história da arte brasileira, visa a intensificar a sensação de transe no próprio público, que observa entre tiros de metralhadora, música e Villa Lobos, valsas famosas, óperas maiores e jazz, a entrega de simpatizantes governistas à farra e aos comícios, tudo absolutamente filmado de uma perspectiva que faz com que todos os atos em cena pareçam novidades, quando, na verdade, são a repetição de algo ou a revelação de uma situação que ocorria às escondidas há bastante tempo.
Toda a esfera pública é posta no jogo de quem é que fabrica a notícia; do empresário ao grevista; do sindicalista aos arquétipos femininos que surgem nessa dança pseudodemocrática: a santa revolucionária e a puta alienada.
Os labirintos político-sociais nos mostram que todo o contexto é ampliado para situações que beiram o constrangimento, porque mostram a facilidade de qualquer um obter apoio popular (tão atual e contemporâneo!!!), independente do discurso que faça e das situações que se forjem nos bastidores do poder.
A preocupação do povo com o estômago fala mais alto; o apreço a uma terra familiar de muitas décadas ganha mais importância do que o pensamento e a ação política.
Em Terra em transe, o povo é o ajudante direto, mesmo sem saber, da roda social que o massacra e o faz protestar em vão ou se deixar levar facilmente por qualquer promessa. Nada tão atual em nosso país! Dentro da atual conjuntura pré-segundo turno das eleições presidenciais. Mais um transe jogado pela força política a ser digerido pelo povo brasileiro. E com surpresas certamente! E continuam os problemas mais imediatos: a falta da terra, a falta de emprego e a falta de comida.
*Deneval Siqueira de Azevedo Filho é pós-Doutor e professor Titular de Teoria e História Literária Centro de Ciências Humanas e Naturais, do Programa de Pós-graduação em Letras – Doutorado e Mestrado em Estudos Literários da UFES. O artigo foi originalmente publicado no Portal VIU!.
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