Um drama familiar que nos comove. O romance Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, completa neste mês de dezembro cinquenta anos de seu lançamento, sendo reconhecido de imediato como uma obra fundamental da literatura brasileira. Em comemoração a esse jubileu, decidi reler a obra, e um aspecto que mais me chamou a atenção foi a forma como a família de André, a despeito de sua rigidez moral, não possuía recursos subjetivos suficientes para sobreviver aos seus próprios excessos.
A configuração familiar de André, assentada no modelo patriarcal, estruturava-se, segundo o universo ficcional, na tradição e nos bons costumes.
O pai, Iohna, era uma figura autoritária, colocando-se provedor e líder moral e espiritual. Essa estrutura é ilustrada de forma quase geométrica no curtíssimo capítulo 24, que mostra como o corpo familiar se organizava à mesa: o pai sentava-se à cabeceira; a mãe, afetuosa, ficava à esquerda com os filhos mais novos, e os mais velhos, à direita. Além da comida, ali Iohna nutria a moral da família com seus sermões.
Tudo seria perfeito, não fossem os excessos que, como revela a Psicanálise, são constitutivos da humanidade do ser humano.
Lavoura Arcaica e o excesso
André, o filho pródigo que retorna à casa paterna, é uma personagem emblemática quanto aos excessos: além do uso desregrado do álcool, ele pratica a masturbação, a bestialidade e cultiva um amor incestuoso pela sua irmã Ana. Ela, por sua vez, oscila entre a beatitude e a sensualidade, e cuja expressão de sua força feminina não será perdoada por seu irmão mais velho e por seu pai.
Pedro, o primogênito, é construído como o esteio da virtude e da sensatez na família. Contudo, é ele quem se rende à fúria destrutiva de suas pulsões ao revelar ao pai a relação incestuosa entre André e Ana.
Iohana, o patriarca, sob o impacto da revelação, é tomado por uma raiva mortífera e fulmina Ana com um alfange — uma espécie de foice. O trágico desfecho ocorre em meio a uma festa oferecida pelo pai para celebrar o retorno de André, com bebidas, comidas, músicas e danças.
Pedro não está feliz: será que se queima de ciúmes? Inesperadamente, Ana ocupa o centro da cena, toda enfeitada e sensual como uma dançarina oriental. Teria ela atiçado também o desejo de Pedro, que, em desvario, desencadeia o final dramático da vida de Ana?
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A sexualidade é, por natureza, excessiva
A Psicanálise, desde sua criação, nos mostra que a família é o primeiro espaço de humanização de uma pessoa — ou qualquer outra instituição que se ocupe dessa função. Um aspecto dessa humanidade é a sexualidade, fundada, segundo Sigmund Freud, na interação da criança, desde seu nascimento, com seus cuidadores imediatos e com aqueles que a rodeiam.
Nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de 1905, Freud explica que a sexualidade infantil é perversa e polimorfa, ou seja, que ela não tem objeto fixo e definido, voltando-se para o próprio corpo da criança e daqueles ao seu redor.
Paulatinamente, por meio da educação, ela vai cedendo e aprendendo a se comportar de acordo com a moral vigente. Esse é um processo, porém, lento e conflituoso, que nunca elimina por completo da sexualidade os seus excessos.
Freud foi acusado de obsceno e pornográfico, explica Elisabeth Roudenesco em sua biografia Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo, e muita gente, até hoje, tem dificuldade em aceitar que nossa humanidade, conforme trabalhada em Lavoura Arcaica, também é feita de excessos.
Então tudo pode se a alma não é pequena?
Isso significa dizer que todos os excessos devem ser vividos plenamente, ou seja, que a família de André deveria aceitar sua relação incestuosa com Ana? Uma das dimensões mais comoventes de Lavoura Arcaica é sua leitura dessa dimensão trágica da existência Humana.
Freud, em seu clássico O mal-estar na civilização, de 1930, mostra que, para o ser humano entrar na civilização, ou seja, viver em sociedade, precisa pagar um imposto, que se traduz em abrir mão de parcela de seus excessos. Nunca é possível se ter tudo.
Freud dizia que há pelo menos quatro maneiras de lidar com o desejo: a primeira seria, se possível, realizá-lo. Não sendo possível ou desejável, então outras saídas seria mantê-lo sob as rédeas ou então sublimá-lo — desviar para outras finalidades, como trabalho, ciência, arte, etc. —, e, por último, o pior destino seria negá-lo, fingindo que ele não existe. Uma outra lição importante do pai da Psicanálise é: aquilo que se joga pela porta, volta pela janela.
O que se joga pela porta volta pela janela
É exatamente isso que vemos em Lavoura Arcaica. Pedro, que é o primogênito e o sucessor do pai, é construído no romance como um símbolo da sensatez e da razão. Porém, conhecia muito pouco sobre suas paixões. Jorge Forbes, psicanalista brasileiro, diz que quanto maior o poste, maior a sombra — ou seja, quanto mais contido, maior o desvario.
Pedro, tomado de ciúmes e pelos desejos desencadeados ao ver a irmã dançar, aciona no pai a violência necessária para conter a enxurrada de seus excessos cujos diques haviam se rompido. Iohána, o patriarca, farol moral da família, ao descobrir o segredo perturbador do casal de filhos, vê todas as suas barreiras romperem e, como um raio, em velocidade fatal, diz André, narrador do romance, descarrega a rajada de sua ira sobre Ana e, com um só golpe, assassina a própria filha. O trágico, ao final, cede lugar a um desfecho dramático!
Um farol diferente
A família, como lugar fundante de nossa humanidade, com seus excessos, pode ser um lugar de construção de saídas possíveis e interessantes. Toda a narrativa de André é uma confissão de seus excessos, que o atormentavam.
Pedro é um interlocutor inicialmente interessante, mas depois revela que não podia suportar conhecer mais de perto o irmão senão pelas lentes de sua própria moral. Já o capítulo 25 mostra um longo diálogo entre André e seu pai, e fica claro que Iohna também não podia ir além e emprestar uma escuta mais fina aos excessos de André, que a certa altura diz: corremos graves riscos quando falamos. É o próprio pai que diz: aqueles que abrem demais os olhos acabam só por ficar com a própria cegueira.
Talvez os pais de hoje tenham flexibilidade para, além de oferecer orientação moral, também abrir espaços de circulação da palavra em que toda a família se sinta segura para colocar em discussão os seus excessos, assim desejando.
A leitura de um livro como Lavoura Arcaica pode ser ótima oportunidade para que cada um possa colocar na roda, ou no um a um, o que mais o incomoda, o que pode levar a soluções outras que não se evadir da família findar na morte. O pai contemporâneo pode ser um farol que não exija identificação maciça, como aconteceu com Pedro, restando a André a rebeldia.
Outras saídas podem ser construídas. O pai pode ser um farol no sentido de que os filhos se sintam seguros para a construção de sua própria humanidade, abrindo caminhos para que o trágico em nós não tenha como desfecho necessário o drama.
Lavoura Arcaica, como é próprio ao clássico, continua tão atual como quando foi lançado há cinquenta anos, em 1975, e nossos votos é que continue ensinando seus leitores por mais cinquenta anos.
*Sobre o autor: Francisco Neto Pereira Pinto é escritor e psicanalista. Doutor em Letras, é também Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura da Universidade Federal do Norte do Tocantins. Entre outras obras, é autor de À beira do Araguaia.
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