Somos constituídos por histórias — as nossas próprias, que contamos durante toda a vida, e as dos outros, que nos contam, inclusive, antes mesmo de existirmos. Toda história é digna de ser narrada e, assim como acontece na literatura, a grande diferença que separa a beleza de uma história de outras está no como ela é contada. Sigmund Freud deixou isso claro logo cedo na história da Psicanálise, nos ensaios O romance familiar dos neuróticos e O escritor e a fantasia.
No registro do romance familiar, contamos nossa história de maneira chata, desinteressante, com personagens pouco desenvolvidos, embora, às vezes, eles tenham muito potencial. São cristalizados e fixados em uma monotonia sem graça, de matar de tédio até mesmo o autor da novela. É um mito que serve apenas à própria pessoa, sem criar laço com os outros, como diria Jacques Lacan em O mito individual do neurótico.
Muito diferente é o caso do escritor criativo, que mesmo das histórias potencialmente horrorosas retira material e o trabalha de modo que agrada, inspira e se torna fonte de prazer para os outros. São histórias que iluminam a vida do autor e fazem ponte entre as pessoas e suas próprias narrativas. Este é o caso de Análise, de Vera Iaconelli, publicado pela Zahar, em 2025.
A escrita como divã
Carlos Drummond de Andrade dizia que não fazia psicanálise porque tinha a sua poesia, que lhe servia de divã. Iaconelli afirma que resolveu escrever esse novo livro como uma maneira de trabalhar os restos de suas três análises, feitas ao longo de mais de quarenta anos de Psicanálise.
Embora o livro seja um relato de seu percurso analítico, sua prosa fluida, com cuidado de quem faz literatura, nos dá a sensação de estarmos diante de uma narrativa clariceana. O uso do discurso direto, com travessões, nos coloca em contato imediato com personagens importantes da vida da psicanalista — o pai, a mãe, seus analistas — e funciona como um suspiro para o leitor ganhar fôlego e continuar acompanhando o relato, que não conta com divisões em títulos e subtítulos.
Bem ao estilo das narradoras de Clarice Lispector, sua escrita simula a abertura do inconsciente diante de nós, descortinando a outra cena, com seus brilhos e horrores, o que nos causa muitas boas surpresas e dá prazer.
O relato começa in medias res, instaurando um presente da escrita a partir do qual, por meio de flashbacks, a narradora nos conduz pelo passado, retorna ao presente e desvela o futuro. No momento em que escrevo este texto, também leio Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector, e penso em Vera, na sua escrita, como Joana, heroína clariceana, que, ao contar sua vida, nos deixa, às vezes, sem saber em que ponto do tempo estamos.
É divertido, mas exige atenção. Adotar o registro artístico para transmitir sua experiência em análise foi uma estratégia acertada porque, como ela mesma diz, a arte vai aonde a psicanálise não pode chegar.
Sua história também poderia ser a nossa
Vera Iaconelli é psicanalista, escritora e colunista da Folha de S. Paulo. Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo, é também diretora do Instituto Gerar. Filha de descendentes de italianos, por parte do pai, e de alemães, russos ou brasileiros, no caso da mãe, é a quinta filha de seis do casal, somando-se ainda dois irmãos frutos do relacionamento do pai com a secretária — uma mulher mais jovem que sua mãe.
Ao narrar o que seria seu romance familiar, Iaconelli dá notícias dos avós, tios, primos, seus dois maridos e duas filhas. Teve sua primeira entrevista com uma analista aos 17 anos, em 20 de novembro de 1982, tal como no Poema tirado de uma notícia de jornal, de Manuel Bandeira, o que é adequado para uma mulher branca que se declara racista advertida e que luta contra essa herança, contra o racismo estrutural e, em particular, contra o racismo que permeia a Psicanálise.
Seu pai era um homem alcoólatra, violento, capaz de impor aos filhos as piores humilhações. Melancólico, talvez atormentado por uma culpa atroz de levar vida dupla, carregava também uma herança familiar que o predispunha, como disse Freud, a ser um arruinado pelo êxito: tão logo obtinha sucesso financeiro, não conseguia evitar uma tragédia em seguida. Mas era também um pai afetuoso, leitor de jornal, aquele que lhe presenteou com as obras de Freud e que mantinha, pelo jeito, uma biblioteca invejável em casa.
A mãe, por sua vez, dedicava-se aos cuidados da família e do lar, sem jamais reclamar da conduta do marido, lembrada por Iaconelli como uma mulher submissa. Por outro lado, era muito bonita e de saúde de ferro, do que é testemunha seu já um século de vida. Depois da morte do marido, parece transformar-se em outra mulher, descobrindo uma liberdade que até mesmo a filha psicanalista se mostra surpresa. Essa metamorfose lembra Firmina Daza, do romance O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Márquez.
Uma casa para habitar
Como conciliar admiração e repulsa, amor e ódio, por figuras tão contraditórias, tão humanas, na vida vivida, em que realidade e ficção se misturam? Iaconelli descobre um pai que, apesar de tudo, casou-se com sua mãe por amor e jamais foi violento com ela.
A mãe, tão submissa, não o era apenas por obrigação ou pelo peso de ser uma mulher da primeira metade do século XX, mas também porque amava o marido e, inclusive, gostava do sexo. Ao longo da escrita, Iaconelli tritura certas identificações e constrói outras em torno das figuras parentais, mais condizentes com seus ideais e desejos, tornando talvez mais suportável habitar a própria pele. Como diria Lacan, em relação aos pais, no fim das contas, o pulo do gato é saber se servir deles.
Análise é um livro para quem está iniciando na Psicanálise, mas também para quem já percorreu longa estrada. É igualmente indicado a quem se interessa por jornadas familiares interessantes ou, simplesmente, a quem gosta de boas histórias – esta contada por quem passou a vida ouvindo histórias dos outros e, agora, se dispõe a contar a sua própria, de um modo sedutor e prazeroso. Encerro esta apresentação com uma citação que, ao meu ver, ilustra bem a jornada de Iaconelli — mas também a de todos nós — e desejo a todas e todos uma boa leitura:
*Se passadas cinco décadas sigo falando de pai e de mãe, é porque as funções parentais nos assombram para muito além das pobres pessoas que as encarnam.
Sobre o autor: Francisco Neto Pereira Pinto é esposo da Ana Paula e pai do Théo e do Ravi. Doutor em Letras, é psicanalista, escritor e professor permanente no Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura – Mestrado e Doutorado, da Universidade Federal do Norte do Tocantins. É autor de vários livros de literatura, dentre eles À beira do Araguaia.
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