*Por Robert Bridge
No momento em que os EUA se preparavam para o segundo aniversário da insurreição de 6 de janeiro, o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro chegou à Flórida (EUA), após sua derrota eleitoral em seu próprio país.
De todos os lugares do mundo para os quais Jair Bolsonaro poderia ter fugido após sua tumultuada derrota em um segundo turno contra seu adversário de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, os Estados Unidos podem ter sido os menos esperados.
Afinal, aqui está um país do qual os homens mais procurados – pense em Julian Assange e Edward Snowden – não são capturados. Enquanto isso, as lembranças de sua própria chamada “insurreição” ainda estão frescas nas mentes de muitos americanos, alguns dos quais agora estão segurando as rédeas escorregadias do poder.
Em 6 de janeiro de 2021, após a derrota do então presidente dos EUA, Donald Trump, nas eleições presidenciais de 2020, uma multidão de seus apoiadores desceu ao Capitólio em Washington, DC, acreditando que a eleição havia sido “roubada”.
Um roteiro semelhante aconteceu na última semana em Brasília, a capital brasileira, quando apoiadores de Bolsonaro saquearam o Congresso e a Suprema Corte, e cercaram o palácio presidencial em mais uma fenda na armadura de eleições controladas por computador.
A violência, que o ex-presidente de direita condenou formalmente, obrigou Lula a pedir estado de emergência na capital até 31 de janeiro. Em comparação, embora Trump tenha se comprometido rapidamente com uma transição ordenada de poder, Bolsonaro não ficou por perto para entregar a faixa presidencial cerimonial a Lula da Silva na posse, uma decisão ousada que o novo líder brasileiro não esquecerá ou perdoará tão cedo.
Em vez de se afastar, o ex-titular brasileiro fugiu para o reduto republicano da Flórida, o que certamente não foi por acaso, considerando que o Sunshine State é o lar de Donald Trump e do governador da Flórida, Ron DeSantis.
Isso pode ser inestimável se Lula fizer um pedido de extradição para Bolsonaro. Provavelmente não seria surpresa que os democratas, um partido que nunca perde a chance de se envolver no teatro político, já não estejam fazendo exatamente isso.
“Bolsonaro foi um líder autoritário” disse Joaquin Castro, um legislador democrata do Texas, ao âncora da CNN Jim Acosta, acrescentando que o presidente de extrema-direita “basicamente usou a cartilha de [Donald] Trump para inspirar terroristas domésticos a tentar assumir o governo.
“Agora ele está na Flórida, na verdade muito perto de Donald Trump, ele deveria ser extraditado para o Brasil”, continuou Castro, que também é membro do comitê de relações exteriores da Câmara.
No curto prazo, o solo americano protege Bolsonaro de qualquer emaranhado legal imediato no Brasil, onde ele está sob investigação em pelo menos quatro inquéritos criminais. Mas nem é preciso dizer que Lula, que estava preso durante a posse de Bolsonaro em 2019 por condenações por corrupção que mais tarde foram anuladas, não gostaria de nada mais do que exigir alguma justiça poética sobre seu inimigo ideológico. Isso era óbvio em uma ameaça velada que Lula fez ao seu antecessor.
“Não carregamos nenhum espírito de vingança contra aqueles que tentaram subjugar a nação aos seus desígnios pessoais e ideológicos, mas garantiremos o Estado de Direito”, disse o presidente, sem citar Bolsonaro pelo nome. “Aqueles que erraram responderão por seus erros.”
Lula, então, aumentou o tom das ameaças ao acusar o governo anterior de cometer “genocídio” ao não promulgar medidas apropriadas para combater o vírus Covid-19, que matou quase 700 mil brasileiros.
“As responsabilidades por este genocídio devem ser investigadas e não devem ficar impunes”, disse ele.
É apenas um palpite, mas com base apenas nessas palavras, parece bastante improvável que Jair Bolsonaro embarque em um avião de volta ao Brasil em breve, a menos que seja obrigado a fazê-lo pela autoridade do governo dos EUA a pedido expresso de Lula.
O governo Biden teria algo a ganhar concedendo um pedido de extradição para Bolsonaro se fosse solicitado? A resposta é, sem dúvida, sim, à medida que os democratas buscam para sua própria sobrevivência política a disseminação de sua mensagem – seja a mudança climática, a ideologia transgênero ou as fronteiras abertas – em todo o planeta.
Ter o Brasil, o sétimo país mais populoso do mundo, a bordo desse rolo compressor global certamente daria aos liberais em todo o mundo algum poder extra de soco com o qual eles não poderiam contar com o Brasil sob o governo mais nacionalista de Bolsonaro.
A situação que os liberais enfrentam não é diferente daquela que enfrenta a OTAN sedenta de poder, que está constantemente em busca de novos aliados (e taxas de adesão) através de crises sempre novas, para que seu próprio propósito de existência não se torne redundante.
Embora Joe Biden e Lula pudessem facilmente encontrar interesses mútuos sem a necessidade de arrancar Bolsonaro da Flórida, a chance de derrubar um amigo de Donald Trump, que já está sendo culpado por seus asseclas pelo ataque ao Congresso brasileiro, pode simplesmente ser muito tentadora para ambos os lados. Seja qual for o caso, o Brasil teve um início quente em 2023, uma tendência que não terminará tão cedo.
*Robert Bridge é um escritor e jornalista norte-americano. Ele é o autor de “Meia-noite no Império Americano”, como as corporações e seus servos políticos estão destruindo o sonho americano.
*Da RT, traduzido por Fonte Exclusiva. Compartilhe esta reportagem do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Rio de Janeiro.












