O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, assinado no último sábado (19), em Assunção, no Paraguai, cria a maior zona comercial do mundo em termos populacionais. Apesar do potencial de expansão das trocas comerciais, o tratado levanta preocupações sobre seus impactos no desenvolvimento industrial dos países sul-americanos.
Para a internacionalista Ana Carolina Marson, chama atenção a reação discreta de setores industriais brasileiros diante da assinatura do acordo. Segundo ela, a mesma mobilização vista entre agricultores europeus, que protestaram contra os termos do tratado, deveria ter ocorrido também no Brasil, especialmente entre representantes da indústria.
De acordo com Marson, as regras estabelecidas favorecem a manutenção de salvaguardas europeias sobre produtos de maior valor agregado, o que limita a capacidade do Mercosul de consolidar uma base industrial competitiva. Na prática, os países sul-americanos tendem a se destacar apenas na exportação de produtos primários, com baixo valor agregado.
“Nesse cenário, a competitividade do Mercosul fica restrita ao setor primário, o que gera impactos relevantes sobre o Produto Interno Bruto do bloco como um todo”, avalia a especialista.
O acordo também prevê mecanismos de cooperação e transferência tecnológica entre os dois blocos econômicos. No entanto, segundo a internacionalista Carolina Pavese, essas iniciativas não são automáticas nem garantidas, o que pode ampliar as assimetrias já existentes entre Europa e América do Sul.
Com a maior abertura do mercado regional a empresas europeias, Pavese alerta para o risco de intensificação da desindustrialização. “A exposição a produtos e serviços europeus altamente competitivos pode acabar estrangulando setores industriais locais ou acelerando um processo de perda de capacidade produtiva nacional”, afirma.
Especialistas defendem que, sem políticas industriais e tecnológicas complementares, o acordo pode consolidar uma relação desigual, reforçando a dependência econômica da América do Sul em relação aos países europeus, em vez de promover um desenvolvimento equilibrado entre os blocos.
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