A crise no sistema financeiro norte-americano, que provocou o efeito cascata e levou a economia mundial ao fundo do poço em 2008, voltou a assombrar o Federal Reserve Bank (FDA, na sigla em inglês). Foram tempos difíceis, obrigando o então governo Barack Obama a inundar o mercado de dólares, para evitar um colapso na economia interna.
Agora, o novo sinal de alerta foi acionado com a decretação da falência do Silicon Valley Bank (SVB), instituição sediada na Califórnia e especializada em financiamento de empresas de tecnologia e startups no Vale do Silício.
A decretação da falência foi confirmada nesta sexta-feira (10) pelo Departamento de Proteção Financeira e Inovação (DFPI, na sigla em inglês).
Esses sintomas não são alvissareiros. Ao contrário, são maus presságios, porque a economia dos EUA no fundo poço arrasta todos os seus parceiros ocidentais, principalmente os países da União Europeia, que já enfrentam carestia, aumento no índice de miséria, crise energética e escalada inflacionária.
Motivos da falência
A falência do SVB está associada a diferentes fatores, um deles seria decorrente da elevação das taxas de juros, medida adotada nos últimos 12 meses pelo Federal Reserve para desacelerar a inflação, uma conjuntura que provocou uma corrida aos saques.
Os EUA enfrentam elevação de preços, escassez de mercadorias e queda no poder de compra dos trabalhadores.
Outra medida do Fed que gerou efeito colateral foi o aumento nos custos de empréstimos, o que minou a cotação das ações de tecnologia que beneficiaram o SVB.
O valor dos títulos de longo prazo que o SVB e outros bancos capitalizaram durante a era das taxas de juros ultra baixas, quase zero, foram praticamente dizimadas pela política de elevação das taxas do Fed.
Para uma simples comparação: a carteira de títulos de US$ 21 bilhões (cerca de R$ 100 bilhões) do SVB estava rendendo uma média de 1,79% – o atual rendimento do Tesouro de 10 anos é de cerca de 3,9%.
Ao mesmo tempo, o capital de risco começou a secar. Com isso, as startups começaram a sacar os fundos mantidos pelo SVB.
Assim, o banco estava parado sobre uma montanha de perdas em títulos no momento em que o ritmo de saques dos clientes aumentava.
Na quarta-feira, antes da decretação de sua falência, o SVB anunciou que havia vendido vários títulos com prejuízo e que também venderia US$ 2,25 bilhões (cerca de R$ 10 bilhões) em novas ações para reforçar seu balanço.
Isso desencadeou pânico entre as principais empresas de capital de risco, que supostamente aconselharam as empresas a sacar seu dinheiro do banco.
As ações do banco começaram a despencar na manhã de quinta-feira e, à tarde, arrastavam as ações de outros bancos com elas, pois os investidores começaram a temer uma repetição da crise financeira de 2007-2008.
Na manhã de sexta-feira, a negociação de ações da SVB foi interrompida e ela abandonou os esforços para levantar capital rapidamente ou encontrar um comprador.
O ambiente no mercado financeiro é de temor. No pregão de sexta-feira (10), as ações do First Republic Bank chegaram a registrar queda de 50% e no fechamento conseguiram amortizar as perdas para 15%.
Para acalmar os temores de investidores, o First Republic emitiu um comunicado garantindo “segurança, estabilidade contínuas, e fortes posições no capital e liquidez”.
“As fontes além de uma base de depósitos bem diversificada incluem mais de US$ 60 bilhões [R$ 313 bilhões] em capacidade de empréstimo disponível e não utilizada no Federal Home Loan Bank e no Federal Reserve Bank”, disse o First Republic.
A secretária do Tesouro, Janet Yellen, também na sexta-feira, afirmou que tinha “total confiança nos reguladores bancários para adotar ações apropriadas em resposta”, ao caso do SVB, e destacou que os reguladores “têm ferramentas eficazes” para lidar com a situação.
O episódio, no entanto, reforça algumas advertências de economistas e empresas de avaliação de riscos sobre o estágio de vulnerabilidade acentuada da economia dos EUA.
A worse financial crisis than 2008 will start soon unless the Fed acts quickly to postpone it. However, a far greater U.S. dollar and sovereign debt crisis will occur later if it does. The latter will be far more devastating for the economy and average Americans.
— Peter Schiff (@PeterSchiff) March 10, 2023
Por meio de uma postagem no Twitter, o CEO e estrategista-chefe global da corretora de valores Euro Pacific Capital, Peter Schiff, alertou que o sistema bancário dos EUA está “à beira de um colapso muito maior do que em 2008”.
“Uma crise financeira pior do que a de 2008 começará em breve, a menos que o Fed aja rapidamente para adiá-la. No entanto, uma crise muito maior do dólar americano e da dívida soberana ocorrerá mais tarde se isso acontecer. Este último será muito mais devastador para a economia e para o americano médio”, afirmou.
Ele explicou que se outros bancos chegarem ao estágio de falência, a única maneira dos investidores e correntistas recuperarem o dinheiro será por meio de uma intervenção do FED, com impressão de dólar.
The failure of @SVB_Financial could destroy an important long-term driver of the economy as VC-backed companies rely on SVB for loans and holding their operating cash. If private capital can’t provide a solution, a highly dilutive gov’t preferred bailout should be considered.
— Bill Ackman (@BillAckman) March 10, 2023
Para o investidor bilionário e gerente de fundos de hedge, Bill Ackman, disse que a falência do banco do Vale do Silício poderia “destruir um importante impulsionador de longo prazo da economia, já que as empresas apoiadas por capital de risco dependem do SVB para empréstimos e retêm seu caixa operacional”.
Sobre o SVB
O SVB foi fundado em 1983 durante um jogo de pôquer entre Bill Biggerstaff e Robert Medearis. Desde o início, a empresa se especializou na prestação de serviços financeiros para startups de tecnologia.
Os reguladores norte-americanos chegaram aos escritórios do SVB na Califórnia enquanto o banco lutava para estabilizar suas finanças na quinta-feira (9), informou a Bloomberg.
O banco tinha cerca de US$ 209 bilhões (cerca de R$ 1 trilhão) em ativos totais e cerca de US$ 175,4 bilhões (R$ 915 bilhões) em depósitos totais no final do ano passado.
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