A música de metais ganhou destaque no Centro do Rio de Janeiro com um concerto especial da Rio Brass Band na Igreja de São Francisco de Paula, no Largo de São Francisco.
A apresentação, realizada na quarta-feira, 1º de julho, marcou a celebração dos quatro anos do grupo e integrou a programação preparatória para a WASBE Rio 2026, um dos principais encontros internacionais dedicados às bandas sinfônicas e aos conjuntos de sopro.
A 21ª Conferência Internacional da World Association for Symphonic Bands and Ensembles será realizada no Rio de Janeiro entre os dias 20 e 25 de julho, com encerramento previsto para o dia 26, em Niterói.
O evento reunirá músicos, regentes, pesquisadores, educadores, grupos e bandas de diferentes países, em uma edição considerada histórica para o Brasil e para a América Latina.
A Rio Brass Band está entre as formações confirmadas na programação da conferência. O concerto na Igreja de São Francisco de Paula foi tratado como uma espécie de abertura simbólica desse caminho até a WASBE, ao mesmo tempo em que celebrou a trajetória de um grupo com formação ainda pouco comum no cenário musical carioca.
Segundo o professor Marcelo Jardim, diretor executivo do Comitê Organizador Local da WASBE Rio 2026 e vice-diretor e diretor artístico da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Igreja de São Francisco de Paula reúne condições especiais para apresentações musicais. O espaço é reconhecido pela acústica favorável, além da beleza arquitetônica e da abertura para atividades culturais.
Para Jardim, assistir a uma formação como a Rio Brass Band nesse ambiente proporciona uma experiência sonora diferenciada. A combinação entre instrumentos de metal, percussão e a reverberação natural da igreja amplia o impacto da apresentação e valoriza o repertório escolhido para o concerto.
A apresentação teve regência do maestro Elias Campos, que destacou a singularidade de uma brass band. Diferentemente de uma orquestra tradicional, em que os metais costumam atuar como apoio às cordas, esse tipo de formação coloca os instrumentos de metal e a percussão no centro da identidade sonora.
A Rio Brass Band é apontada como a única banda com esse formato em atividade no Rio de Janeiro. O grupo reúne músicos com atuação expressiva dentro do conjunto, em uma formação na qual cada instrumentista assume papel de destaque na construção da sonoridade coletiva.
De acordo com o maestro, os instrumentos de metal, por suas características acústicas, são capazes de produzir um som intenso, mas não agressivo. Mesmo nos momentos de maior potência, o resultado pode se aproximar de um coral, com camadas harmônicas que criam uma experiência envolvente para o público.
O repertório foi pensado especialmente para o espaço da Igreja de São Francisco de Paula. A proposta foi explorar a acústica do templo e criar uma apresentação adequada à atmosfera do local. Entre as obras executadas, um dos destaques foi “Horizon”, de Paul Lovatt-Cooper, composição que permite dividir a brass band em dois corais sonoros posicionados em pontos diferentes do espaço.
A história da Rio Brass Band começou em 2022, a partir da iniciativa do 3º sargento do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, Kenneth Anderson Gomes de Araújo. Diretor musical do grupo e instrumentista de eufônio, também conhecido como bombardino, ele idealizou a banda inspirado pela tradição europeia das brass bands e por sua própria formação musical em Pernambuco.
Kenneth cresceu em contato com bandas marciais pernambucanas, tradição que marcou sua trajetória artística. Ao chegar ao Rio de Janeiro, após ingressar na banda sinfônica dos Fuzileiros Navais, percebeu a ausência de uma formação profissional dedicada exclusivamente à linguagem dos metais e da percussão.
A ideia de criar uma brass band no Rio permaneceu até que, depois de ser aprovado em outro concurso e transferido para a banda sinfônica do Corpo de Bombeiros, Kenneth conseguiu reunir músicos e tirar o projeto do papel. A proposta era formar um grupo inspirado na tradição europeia, mas aberto ao repertório brasileiro e à criação de uma identidade própria.
Desde o início, a Rio Brass Band conta com músicos ligados aos Fuzileiros Navais e ao Corpo de Bombeiros. Para seus integrantes, o grupo representa uma forma de resistência musical, expressão usada para definir o compromisso com uma linguagem instrumental que ainda busca maior espaço no país.
Esse envolvimento ficou evidente na preparação para o concerto. Mesmo em meio à agenda intensa e à movimentação provocada pelos jogos do Brasil, os músicos mantiveram os ensaios e se dedicaram à apresentação comemorativa. Para Kenneth, esse empenho revela o amor do grupo pela música e a importância do projeto para cada integrante.
A criação da Rio Brass Band também estimulou compositores brasileiros interessados nesse tipo de formação. Obras escritas especialmente para brass band passaram a ser incorporadas ao repertório, contribuindo para o fortalecimento de uma produção nacional voltada aos metais e à percussão.
O movimento iniciado no Rio também inspirou o surgimento de formações semelhantes em outras cidades brasileiras. Segundo o grupo, iniciativas parecidas começaram a aparecer em locais como São Paulo, Manaus e Curitiba, sinalizando o crescimento do interesse por esse formato no Brasil.
A participação da Rio Brass Band na WASBE Rio 2026 reforça esse momento de expansão. A conferência internacional deve dar visibilidade a grupos brasileiros dedicados à música de sopro, aos metais e à percussão, além de promover intercâmbio com formações de diferentes países.
Mais do que uma apresentação comemorativa, o concerto na Igreja de São Francisco de Paula simbolizou a força de uma cena musical que busca reconhecimento, formação de público e valorização institucional. Aos quatro anos, a Rio Brass Band chega à programação da WASBE como representante de uma tradição em construção no Rio de Janeiro.
Com disciplina, excelência técnica, repertório internacional e identidade brasileira, o grupo se consolida como uma das experiências mais singulares da música instrumental carioca. A apresentação no Centro do Rio mostrou que os metais também têm espaço de destaque na agenda cultural da cidade e que a chegada da WASBE pode abrir um novo capítulo para as bandas de sopro no Brasil.
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