A partir de agosto, o Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), em Salvador, será palco da impactante exposição “O Avesso do Tempo”, do artista beninense Roméo Mivekannin. A mostra, que integra a Temporada França-Brasil 2025, já passou pelo Louvre Lens, no norte da França, onde esteve em cartaz entre dezembro de 2024 e junho deste ano, e agora desembarca no Brasil com força simbólica e estética.
Conhecido por utilizar lençóis usados como telas, Mivekannin recria obras consagradas da história da arte, principalmente do acervo do Museu do Louvre. Mas ao invés dos rostos brancos originais, quem ocupa o centro das cenas são autorretratos do próprio artista, um homem negro, reescrevendo com firmeza as narrativas visuais do passado.
A ideia não é apenas revisitar a arte clássica, mas propor novas perguntas:
Quem pinta? Quem é pintado? Quem está ausente nas imagens que marcaram a história da arte europeia?
Entre as obras reinterpretadas está a icônica “Balsa da Medusa” (1819), de Théodore Géricault, na qual Mivekannin insere seus traços em rostos de sobreviventes do naufrágio. A releitura enfatiza presença, resistência e contestação ao apagamento histórico.
“Ele se insere para reescrever a história, para propor a sua narrativa. Ele também nos interpela para nos fazer entrar nessa história e, quem sabe, reescrever as nossas narrativas”, afirma Evelyne Reboul, gerente de atividades educacionais do Louvre Lens.
Lençóis como tela, ancestralidade como guia
Os materiais usados pelo artista não são escolhidos ao acaso. Lençóis antigos comprados em brechós europeus passam por um ritual de purificação com ervas antes de serem usados como base para as pinturas. Em algumas obras, o artista costura cartas endereçadas às personagens retratadas, pedindo permissão para ocupar seus lugares — gesto que dialoga com práticas da religião vudu, tradicional do Benin e praticada por Mivekannin.
Outro destaque é a releitura de “Retrato de Madeleine” (1800), de Marie-Guillemine Benoist. O artista substitui Madeleine por ele mesmo, com o mesmo turbante e olhar desafiador, invertendo a lógica do olhar colonial. O quadro original só foi corretamente identificado em 2019; antes disso, era conhecido apenas como “Retrato de uma mulher negra”.
Além disso, Mivekannin homenageia seu tataravô, o último rei independente de Daomé, Behanzin, inserindo-se em retratos históricos da realeza africana e também em registros coloniais que retratam grupos de mulheres negras com um homem branco — invertendo os significados de submissão e resistência.
Brasil Ilustrado: Debret sob novo olhar
Outra exposição presente na Temporada França-Brasil que dialoga com o mesmo espírito de revisão histórica é “Brasil Ilustrado – Um legado pós-colonial de Jean-Baptiste Debret”, que será apresentada no Museu do Ipiranga, em São Paulo. A mostra expõe o trabalho do pintor francês que retratou a sociedade escravocrata brasileira entre 1816 e 1839, em especial na obra “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”.
Curada por Jacques Leenhardt, a exposição convida artistas contemporâneos brasileiros a confrontar a iconografia violenta de Debret. Nomes como Eustáquio Neves, Jaime Lauriano e Gê Viana trazem obras que ressignificam os registros visuais do período colonial com crítica, memória e protagonismo negro.
Temporada França-Brasil 2025
A Temporada cultural foi firmada entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Emmanuel Macron, com o objetivo de aprofundar as relações bilaterais por meio da cultura, da ciência e dos direitos sociais. Após o primeiro semestre com programação brasileira em solo francês, o segundo semestre (agosto a dezembro) traz a presença francesa ao Brasil em 15 cidades, como Salvador, São Paulo, Belém, Recife, Fortaleza e Macapá.
Entre os temas prioritários estão:
- Diversidade e diálogo com África
- Democracia e Estado de Direito
- Clima e transição ecológica
*Compartilhe esta reportagem do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Rio de Janeiro.












