Em meio à paisagem urbana da Glória, na zona sul do Rio de Janeiro, uma comunidade mantém tradições que atravessaram gerações e ajudam a contar a história da população negra na cidade. O Quilombo Urbano Ferreira Diniz, formado por 14 famílias, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), tornando-se o primeiro quilombo do estado do Rio a receber esse tipo de reconhecimento.
Situado na Rua Cândido Mendes, o território reúne construções antigas e um amplo quintal com diferentes espécies de árvores, entre elas coqueiros, bananeiras, goiabeiras, uma paineira-rosa e um raro pé de abiu. O tombamento considera não apenas os imóveis históricos, mas também os espaços de convivência e o quintal, reconhecidos pelo instituto como elementos importantes da identidade cultural da comunidade.
Tradição que passa pela culinária
Um dos principais símbolos do quilombo é a Feijoada da Tia Cida, preparada por Maria Aparecida Ferreira. A atividade se tornou uma fonte de renda para a comunidade e também uma forma de manter viva a cultura quilombola.
As feijoadas são realizadas regularmente e recebem moradores da região, turistas e visitantes interessados em conhecer tanto a culinária quanto a trajetória das famílias que vivem no local.
O quintal também recebe diferentes manifestações culturais e religiosas. Rodas de capoeira, celebrações de São Jorge, Folia de Reis, aniversários e reuniões entre moradores fazem parte da rotina do espaço, considerado pelo Iphan um importante ponto de encontro gastronômico e cultural.
História das famílias
As famílias Ferreira e Diniz ocupam o terreno desde a década de 1950. A comunidade é formada por descendentes de africanos escravizados que vieram de Minas Gerais e, ao longo das décadas, preservaram relações familiares, costumes e formas coletivas de convivência.
Em 2023, a comunidade recebeu o reconhecimento oficial como quilombola pela Fundação Cultural Palmares.
O principal casarão do território foi construído no início do século 20, seguindo características da arquitetura neoclássica. Atualmente, o imóvel é utilizado como moradia pelas famílias, com adaptações feitas ao longo do tempo.
Para o Iphan, o tombamento representa uma medida de proteção que envolve aspectos jurídicos, territoriais e simbólicos. A iniciativa também tem caráter reparatório, ao reconhecer a contribuição histórica da população negra e proteger o território de possíveis descaracterizações.
Expectativa pela regularização
Além da preservação do patrimônio, os moradores esperam que o tombamento ajude a avançar na regularização fundiária da área junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
A medida pode facilitar o acesso da comunidade a programas voltados à recuperação das moradias e contribuir para garantir a permanência das famílias no território.
A presidenta da associação do quilombo, Érida Ferreira, considera que o reconhecimento não deve ser visto apenas como uma forma de preservar os prédios antigos. Para a comunidade, o patrimônio também está nas pessoas, nas tradições e nas relações construídas ao longo de gerações.
Pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) participam dos estudos que deverão ser encaminhados ao Incra. O trabalho busca documentar a trajetória das famílias e registrar as características do modo de vida coletivo mantido no território.
Em uma região marcada pela intensa ocupação urbana e pela valorização imobiliária, o Quilombo Ferreira Diniz segue preservando um espaço de memória e convivência. O tombamento do Iphan passa a representar mais uma etapa na proteção da história da comunidade e de suas tradições no coração do Rio de Janeiro.
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