O Paço Imperial, no centro do Rio de Janeiro, recebe até 1º de março de 2026 a exposição “Geometria Visceral”, dedicada à trajetória do artista plástico paulistano Gilberto Salvador. A mostra marca o retorno de Salvador à cidade após 17 anos e reúne cerca de 40 obras, incluindo pinturas, esculturas e vídeos, que abrangem mais de seis décadas de produção artística.
Salvador realizou sua primeira exposição aos 18 anos, e sua obra atravessa diferentes fases que refletem transformações estéticas, experiências pessoais e o contexto político e social do Brasil. Entre os trabalhos em destaque estão peças das décadas de 1960 e 1970, período marcado pela oposição à ditadura militar. A obra “Viu…!”, de 1968, exemplifica o caráter crítico de sua produção.

“Meu trabalho acabou ganhando identidade muito política, porque estávamos vivendo uma ditadura militar com coerção e grandes limitações de ação”, afirmou Salvador em entrevista à Agência Brasil. Durante esse período, ele participou da Bienal de São Paulo e utilizou linguagens como cartazes de cinema e quadrinhos para transmitir suas mensagens de resistência.
Na década seguinte, sua atenção se voltou para questões ambientais, influenciado por nomes como o paisagista Roberto Burle Marx e o arquiteto Oscar Niemeyer. As cores vibrantes, inspiradas na natureza brasileira, tornaram-se marca registrada de sua obra. “A opção de uma paleta tropicalista foi muito mais existencial do que conceitual”, disse o artista.
Ao longo de 60 anos, Salvador explorou suportes diversos, como tapeçaria, gravura, cerâmica, escultura em bronze e pintura. A exposição no Paço Imperial evidencia essa diversidade, reunindo obras recentes e clássicos históricos, incluindo representações de paisagens cariocas, como o Pão de Açúcar e o Morro Dois Irmãos.

Formado em arquitetura e urbanismo, Salvador atribui à formação a capacidade de leitura crítica do espaço, presente em sua produção artística. Diagnosticado com paralisia infantil, ele é cadeirante, mas garante que sua condição física nunca limitou sua expressão: “Não foi um impedimento para desenvolver minha arte, que se manifesta na pintura, no desenho e na escultura”.
A curadoria da exposição, comandada por Denise Mattar, priorizou a acessibilidade, permitindo que algumas obras sejam tocadas pelos visitantes, proporcionando uma experiência tátil única. Mattar destacou a relevância de Salvador na história da arte brasileira, inserindo-o em uma geração de artistas da década de 1970, como Rubens Gerchman, Carlos Vergara e Cildo Meireles. “O trabalho dele transita entre o geométrico e o orgânico, inspirando o título da exposição: Geometria Visceral”, explicou.
A mostra evidencia não apenas a evolução estética de Gilberto Salvador, mas também sua capacidade de expressar questões políticas, sociais e ambientais, reafirmando seu papel central na produção artística brasileira contemporânea.
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