Placa inaugurada no Parque Nacional da Tijuca resgata a história das pessoas escravizadas responsáveis por plantar mais de 100 mil árvores no século 19 e garante espaço no Livro dos Heróis e Heroínas do Estado
Maria, Constantino, Eleuthério, Leopoldo, Manoel, Matheus, Sabino, Macário, Clemente, Antônio e Francisco. Esses são os nomes das 11 pessoas escravizadas responsáveis por um dos maiores feitos ambientais do século 19: o reflorestamento da Floresta da Tijuca e das Paineiras, no Rio de Janeiro.
Neste sábado (31), uma nova placa foi inaugurada próximo ao Centro de Visitantes do Parque Nacional da Tijuca, na zona norte da cidade. A homenagem corrige um apagamento histórico e reconhece o protagonismo dessas pessoas negras na construção da maior floresta urbana do mundo.
A cerimônia contou com palestras, apresentações culturais, encenações teatrais e um gesto simbólico de reparação: o plantio de 11 mudas de árvores nativas da Mata Atlântica, cada uma representando um dos reflorestadores.
Correção histórica e resgate de memória
A nova placa substitui uma antiga, que mencionava apenas seis nomes e os referenciava como “escravos do Major Archer e de Nogueira da Gama”. Agora, além de trazer todos os 11 nomes conhecidos, o texto abandona o termo “escravos”, adotando “pessoas escravizadas”, que devolve humanidade e protagonismo histórico a esses trabalhadores forçados.

A iniciativa foi liderada pela deputada estadual Dani Monteiro (PSOL-RJ), autora da lei que também inscreveu os nomes desses trabalhadores no Livro dos Heróis e Heroínas do Estado do Rio de Janeiro, criado pela Lei Estadual 5.808/2010.
“Quando tomei conhecimento dessa história, percebi que ela não está nas escolas, nem nas séries, novelas ou na mídia. Falei: todo cidadão carioca precisa saber disso. Mais de 100 mil árvores foram plantadas em 15 anos por 11 pessoas. Isso é história viva, é memória que precisa ser honrada”, afirmou Dani Monteiro.
Uma floresta plantada por mãos negras
O reflorestamento da Floresta da Tijuca aconteceu entre 1861 e 1874, em meio a uma grave crise ambiental na cidade do Rio de Janeiro. O desmatamento para cultivo de cana-de-açúcar, café e para extração de madeira levou à seca dos mananciais que abasteciam a então capital do Império.

Diante do risco de colapso hídrico, o governo imperial determinou a recuperação da mata. Foi nesse contexto que as 11 pessoas escravizadas realizaram o plantio de mais de 100 mil árvores nativas, restaurando as nascentes e garantindo água para a cidade.
Ato de memória, resistência e reparação
Durante o evento, artistas, pesquisadores e ativistas foram convidados a plantar uma muda em homenagem a cada reflorestador. A rapper Juju Rude destacou: “Este ato é para celebrar nossa ancestralidade e honrar pessoas que fizeram algo tão grandioso não só para o Rio, mas para o mundo todo.”
O produtor cultural Pedro Rajão, do projeto Negro Muro, reforçou que a cerimônia é um enfrentamento ao apagamento histórico: “Por muito tempo essas pessoas foram vistas apenas como escravos. Hoje, reconhecemos sua importância como intelectuais, mestres da terra, da natureza e da vida.”
Do apagamento à valorização
A inscrição dos nomes no Livro dos Herois e Heroínas do Estado só foi possível graças a uma emenda que dispensa a exigência de sobrenomes. “Eles não tinham sobrenomes porque eram tratados como posse, como objetos. A ausência de sobrenome é, por si só, um registro de violência. Por isso, fazer essa reparação é garantir que o futuro seja, necessariamente, ancestral”, afirmou Dani Monteiro.
A nova placa e a inscrição oficial desses nomes na história do estado do Rio de Janeiro são marcos fundamentais no processo de resgate, memória e valorização da contribuição negra para o meio ambiente e para a própria existência da cidade.
*Da Agência Fonte Exclusiva com informações da Agência Brasil. Compartilhe esta notícia do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Rio de Janeiro.












