Reivindicações por igualdade racial, participação política e garantia de direitos ganharão as ruas da Zona Sul do Rio no próximo dia 26 de julho. A 12ª Marcha das Mulheres Negras do Estado do Rio de Janeiro terá concentração às 10h, no Posto 2 da Praia de Copacabana, e deverá receber participantes de diversas cidades fluminenses.
A mobilização terá como tema “Em defesa da democracia, contra o racismo, pela reparação e bem viver”. O ato integra o Julho das Pretas, agenda nacional dedicada à valorização das mulheres negras e ao enfrentamento do racismo, do sexismo e das diferentes formas de violência.
A organização estima a participação de 10 mil a 15 mil pessoas. Caravanas estão sendo preparadas em municípios do interior, na Região Metropolitana, na Baixada Fluminense e em outras áreas do estado.
A proposta ultrapassa a realização de uma caminhada anual. As organizadoras pretendem ampliar a articulação política nos municípios, incentivar a criação de redes locais e fortalecer a cobrança por medidas públicas nas áreas de saúde, educação, trabalho, segurança e participação social.
Os preparativos para a marcha terão uma atividade coletiva neste domingo (19), no Instituto de Pesquisas das Culturas Negras, no Centro do Rio de Janeiro.
A tradicional Oficina de Pirulitos reunirá participantes para a produção dos cartazes que serão levados ao ato. Os materiais recebem esse nome por serem presos a hastes e utilizados para exibir frases, denúncias e palavras de ordem durante o percurso.
A atividade também servirá como espaço de formação política e integração. As mulheres poderão compartilhar experiências, discutir os principais temas da manifestação e contribuir para a definição das mensagens apresentadas ao público.
A programação contará ainda com um churrasco colaborativo, organizado a partir de contribuições voluntárias. A coordenação ressalta que nenhuma participante será excluída caso não possa levar alimentos ou outros itens.
Segundo Clatia Vieira, coordenadora da 12ª Marcha das Mulheres Negras, a confecção dos cartazes simboliza a maneira coletiva como o movimento é construído.
“A construção dos pirulitos também é um ato político. É nesse momento que as mulheres se encontram, debatem as pautas da marcha e fortalecem essa rede de solidariedade. Quem pode leva sua contribuição para o churrasco, quem não pode participa da mesma forma. A gente pensa para que nenhuma mulher fique de fora”, afirma.
A mobilização fluminense está ligada a uma organização nacional iniciada em 2011. Naquele período, coletivos de diferentes estados começaram a preparar uma grande manifestação contra o racismo, a violência e as desigualdades enfrentadas pelas mulheres negras.
O trabalho resultou na primeira Marcha Nacional das Mulheres Negras, realizada em Brasília, em 2015. Aproximadamente 100 mil mulheres participaram da manifestação na capital federal.
No mesmo ano, o Rio de Janeiro realizou sua primeira marcha estadual. Desde então, o evento passou a integrar o calendário anual do Fórum Estadual de Mulheres Negras.
Durante a pandemia de covid-19, duas edições foram promovidas de forma virtual. A alternativa permitiu a continuidade das discussões e da articulação entre as organizações, mesmo diante das restrições aos encontros presenciais.
Para Clatia Vieira, a permanência da marcha está relacionada à necessidade de continuar denunciando desigualdades estruturais.
“Estamos na 12ª marcha. Tivemos duas edições on-line por causa da pandemia, mas estamos há dez anos ocupando as ruas desde 2015. A marcha nunca deixou de existir porque o racismo também nunca deixou de existir”, declara.
Em 2025, integrantes do movimento no Rio também participaram da organização da segunda Marcha Nacional das Mulheres Negras, em Brasília. A mobilização reforçou a união entre lideranças, fóruns e coletivos de diferentes partes do país.
Mulheres de São Francisco de Itabapoana, Cantagalo, Niterói, da Baixada Fluminense e de outras localidades já se organizam para participar do ato em Copacabana.
De acordo com Rose Cipriano, integrante da coordenação, a mobilização ocorre durante todo o ano e deverá continuar depois da manifestação.
O objetivo é estimular a organização de fóruns municipais e aumentar a presença das mulheres negras nos debates sobre políticas públicas e direitos sociais.
“Nós estamos mobilizando mulheres de São Francisco de Itabapoana, Cantagalo, Niterói, Baixada Fluminense e de diversas regiões do estado. A expectativa é reunir entre 10 e 15 mil mulheres em Copacabana”, afirma Rose.
A coordenação defende que as participantes retornem às cidades de origem preparadas para cobrar respostas das prefeituras, do governo estadual e de outras instituições.
A intenção é fazer com que as reivindicações apresentadas durante a marcha também sejam incorporadas aos programas, projetos e orçamentos públicos.
A realização do ato em Copacabana é vista pelas organizadoras como uma forma de disputar simbolicamente um dos territórios mais valorizados e conhecidos da cidade.
O bairro concentra hotéis, restaurantes, estabelecimentos comerciais e residências onde muitas mulheres negras trabalham, principalmente nas áreas de limpeza, alimentação, atendimento e serviço doméstico.
Apesar dessa presença cotidiana, elas nem sempre são reconhecidas como parte legítima da região. Para o movimento, a ocupação da orla reafirma o direito da população negra de circular, se manifestar e participar de todos os espaços da cidade.
Rose Cipriano observa que algumas trabalhadoras acompanham a passagem da manifestação das janelas dos prédios onde exercem suas atividades.
“Muitas mulheres negras trabalham em Copacabana como empregadas domésticas e assistem à marcha das janelas dos prédios onde trabalham. Marchar ali é disputar esse território e mostrar que ele também pertence à população negra”, destaca.
Clatia Vieira também considera a escolha do local uma oportunidade de denunciar as desigualdades existentes em uma das principais vitrines turísticas do país.
“É nessa Copacabana opressora que a gente precisa dizer o que acontece com as mulheres negras. É um território de disputa e de denúncia”, afirma.
A marcha reunirá reivindicações relacionadas à defesa da democracia, à valorização do trabalho, ao combate ao racismo e à ampliação do acesso à saúde e à educação.
O movimento também defenderá o fim da escala de trabalho 6×1, a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição da Reparação e a rejeição de medidas que reduzam a maioridade penal.
As pautas foram elaboradas a partir das experiências vividas por mulheres negras nos diferentes territórios. Segundo as organizadoras, esse grupo sente de forma mais intensa os efeitos combinados do racismo, do sexismo, da pobreza e da insuficiência das políticas públicas.
Para Clatia, a reparação histórica precisa produzir mudanças concretas na distribuição de recursos e do poder político.
“A Marcha é, antes de tudo, um ato político de denúncia ao racismo. A gente denuncia como as mulheres negras vivem, como são submetidas às desigualdades e como o racismo estrutural coloca essas mulheres em situação de ausência de políticas públicas. Quando falamos de reparação, estamos falando de dividir poder, garantir que as mulheres negras ocupem os espaços de decisão e sejam ouvidas”, declara.
A coordenação afirma que as decisões são construídas de maneira horizontal, com a participação das mulheres que integram o movimento.
“A Marcha das Mulheres Negras não tem dona. Ela é pensada por mulheres negras, para mulheres negras e com mulheres negras. Todas têm direito à fala. Quando chegamos à marcha, ninguém vai apenas bater palma. Cada mulher leva sua voz, sua experiência e sua luta”, acrescenta Clatia.
A programação reunirá manifestações políticas e expressões culturais ligadas à história e à identidade da população negra.
Durante a concentração e a caminhada, o público poderá acompanhar apresentações de jongo, conhecido também como caxambu, samba, feira de artesãs e atividades voltadas às crianças.
Elementos associados às religiões de matriz africana também estarão presentes. Para as organizadoras, cultura, espiritualidade e ancestralidade são componentes fundamentais da resistência política.
“Ato de gente preta é ato de aquilombamento. Tem jongo, tem samba, tem ancestralidade, tem cultura. A nossa história vem da África e essa memória faz parte da nossa resistência”, afirma Clatia.
A coordenação também reivindica maior presença das pautas das mulheres negras nos meios de comunicação. Segundo o movimento, a baixa visibilidade contribui para manter desigualdades e violações fora do centro do debate público.
“É muito importante contar com os meios de comunicação. A gente liga a televisão e quase nunca vê as nossas histórias ou as nossas pautas. A marcha não é apenas um encontro. Ela denuncia o racismo, fortalece a organização das mulheres negras e mostra que seguimos lutando por respeito, igualdade e pelo direito de viver com dignidade”, conclui Clatia.
Serviço
12ª Marcha das Mulheres Negras do Estado do Rio de Janeiro
Data: 26 de julho de 2026
Horário: concentração a partir das 10h
Local: Posto 2 da Praia de Copacabana, Zona Sul do Rio
Tema: “Em defesa da democracia, contra o racismo, pela reparação e bem viver”
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