A morte de Cláudio Rafael Landeiro Moreira, de 37 anos, em Copacabana voltou a levantar questionamentos sobre a atuação de grupos que oferecem serviços informais de segurança em áreas públicas do Rio de Janeiro.
O caso trouxe para o debate os limites entre a vigilância privada regulamentada e atividades exercidas sem autorização legal.
Cláudio foi morto a pauladas no dia 12 de agosto, após ser acusado de furtar uma bicicleta. Segundo as investigações, Davi Santos Machado, apontado como autor das agressões, confessou o crime e declarou que recebia R$ 1.500 mensais para atuar no controle informal de um trecho da Rua Barata Ribeiro.
Outros quatro homens fariam parte do grupo, e dois entregadores de aplicativo também teriam participado das agressões.
O episódio chamou atenção para a existência de estruturas informais de vigilância em regiões comerciais e residenciais da cidade. Em Copacabana, relatos publicados pelo jornal O Globo mencionaram homens vestidos de preto e posicionados em pontos das calçadas, acompanhando a movimentação das ruas e adotando comportamento semelhante ao de profissionais de segurança.
Mercado formal movimenta bilhões
A segurança privada possui um mercado significativo no estado e no país. Dados da Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transporte de Valores (Fenavist) apontam que 53.454 vigilantes atuam regularmente no Rio de Janeiro.
Ao mesmo tempo, estimativas citadas pelo jornal O Globo indicam que o número de pessoas trabalhando de maneira clandestina no setor poderia superar 100 mil no estado.
Em âmbito nacional, o setor formal também apresenta crescimento. Segundo o Anuário da Segurança Privada 2026 da Fenavist, as empresas autorizadas movimentaram R$ 50,5 bilhões em 2025, alta de 3,98% em comparação com o ano anterior.
Em março de 2026, havia 588.420 vigilantes regularmente cadastrados no país, distribuídos entre 4.809 empresas autorizadas. O contingente cresceu pelo terceiro ano consecutivo.
Atividade clandestina tem restrições legais
A legislação brasileira estabelece regras específicas para a prestação de serviços de segurança privada. Atividades de vigilância e proteção precisam seguir as exigências previstas para empresas e profissionais autorizados, enquanto rondas realizadas irregularmente em espaços públicos podem caracterizar atuação clandestina.
Em junho, o governo federal regulamentou o Estatuto da Segurança Privada, instituído pela Lei nº 14.967/2024. A legislação atualizou normas que estavam em vigor desde 1983 e estabeleceu novas medidas relacionadas à fiscalização e ao combate aos serviços clandestinos.
As regras também estabelecem obrigações para quem contrata serviços de segurança. Empresas e pessoas físicas devem verificar se os prestadores possuem autorização para exercer a atividade.
No caso investigado em Copacabana, a polícia identificou comerciantes que teriam contratado o grupo apontado como responsável pela vigilância informal naquela região.
Fiscalização enfrenta obstáculos
A fiscalização é apontada como um dos principais desafios para combater a atuação irregular. Representantes do setor afirmam que a estrutura disponível para controlar esse tipo de atividade ainda enfrenta limitações.
Entre os problemas mencionados está o efetivo da Delegacia de Segurança Privada (DELESP), da Polícia Federal, que exerce funções de fiscalização sobre o segmento.
O delegado Ângelo Lages, titular da 12ª Delegacia de Polícia do Rio, também alertou para a percepção de segurança que esses grupos podem transmitir. Segundo ele, a presença de pessoas atuando informalmente pode levar moradores e comerciantes a acreditar que se trata de um serviço autorizado.
A circulação de informações sobre ocorrências em grupos de mensagens e redes sociais também pode contribuir para essa percepção, quando situações suspeitas deveriam ser comunicadas às autoridades competentes.
O caso de Copacabana evidencia, assim, um problema que vai além da existência de profissionais trabalhando sem autorização. A presença de grupos informais em espaços públicos levanta questões sobre fiscalização, responsabilidade de contratantes e os limites da atuação privada na segurança das cidades.
Para especialistas e representantes do setor, o desafio é ampliar o controle sobre atividades clandestinas e evitar que comerciantes e moradores recorram a grupos não autorizados para exercer funções que dependem de profissionais legalmente habilitados e que, em determinadas situações, são atribuições das forças de segurança pública.
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