O aniversário de Kathlen Romeu volta a transformar o início de outubro em um período especialmente doloroso para a família. A jovem completaria 30 anos neste sábado (3), pouco mais de cinco anos depois de ser morta a tiros no Rio de Janeiro.
Kathlen tinha 24 anos e estava grávida quando foi atingida por um disparo de fuzil em 8 de junho de 2021, no Lins de Vasconcelos, Zona Norte da capital. Ela caminhava acompanhada da avó quando foi baleada. A jovem e o bebê que esperava não sobreviveram.
Desde então, os pais, Jacklline de Oliveira e Luciano Gonçalves, acompanham uma longa trajetória judicial em busca de respostas e responsabilização pela morte da filha.
Dois policiais irão a júri popular
Os policiais militares Rodrigo Correia de Frias e Marcos Felipe da Silva Salviano serão julgados no dia 26 de novembro, às 10h, no II Tribunal do Júri da Capital.
Eles respondem por homicídio qualificado no processo relacionado à morte de Kathlen.
Segundo a acusação do Ministério Público, os policiais realizaram disparos no local onde a jovem foi atingida. A versão apresentada pelos agentes mencionava um confronto com criminosos. O caso, no entanto, será analisado pelo Tribunal do Júri, responsável por decidir sobre a responsabilidade criminal dos réus.
Os dois respondem ao processo em liberdade.
Kathlen fazia planos para o futuro
Antes de morrer, a jovem vivia um período marcado por projetos pessoais e profissionais.
Ela trabalhava desde a adolescência, tinha ligação com o universo da moda e havia conquistado o primeiro apartamento. Também se preparava para a chegada do primeiro filho.
Os planos foram interrompidos pelo disparo que atingiu Kathlen durante a visita à avó.
Fraude na cena do crime gerou outro processo
Além do processo pela morte da jovem, três policiais militares foram condenados em outro caso relacionado ao episódio.
A 6ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio reverteu uma absolvição anterior da Justiça Militar e reconheceu a ocorrência de fraude processual.
Segundo a decisão, elementos foram retirados e outros foram apresentados de maneira irregular para sustentar a versão de que teria ocorrido um confronto armado no local.
Rodrigo Correia de Frias, Marcos Felipe da Silva Salviano e Rafael Chaves de Oliveira receberam penas de dois anos e 15 dias de prisão, em regime inicialmente aberto, além de multa. A decisão ainda admite os recursos previstos em lei.
Família transformou luto em mobilização
Nos anos seguintes à morte de Kathlen, Jacklline e Luciano passaram a participar de manifestações e debates relacionados à violência policial.
A família também questionou diferentes etapas da condução do caso e chegou a procurar a Corregedoria do Ministério Público para apresentar uma reclamação contra a atuação de um promotor.
O procedimento administrativo aberto para analisar a denúncia acabou arquivado por falta de provas que justificassem responsabilização do integrante do Ministério Público.
A perda também modificou a vida pessoal dos pais. Jacklline passou a recorrer à terapia para enfrentar o luto, enquanto Luciano iniciou uma graduação em psicologia.
Mortes em intervenções policiais continuam no debate
A trajetória da família de Kathlen passou a ser associada a uma discussão mais ampla sobre a letalidade policial no Rio de Janeiro.
Em 2025, 797 pessoas morreram em decorrência de intervenções policiais no estado, segundo dados oficiais. O número representou crescimento em relação ao ano anterior.
Estudos nacionais sobre violência também apontam uma presença desproporcional de jovens negros entre as vítimas de intervenções policiais.
O governo estadual afirma adotar medidas de treinamento, aperfeiçoamento de protocolos e controle das operações para reduzir mortes. Órgãos de fiscalização e entidades que acompanham o tema, por outro lado, defendem metas, mecanismos de controle e ações adicionais para diminuir a letalidade.
Julgamento está marcado para novembro
Para a família, a proximidade do júri representa uma nova etapa de um processo que já atravessou mais de cinco anos.
No dia em que Kathlen completaria 30 anos, porém, a lembrança vai além dos tribunais. Permanecem os planos interrompidos, a maternidade que começava e a vida que os familiares imaginavam compartilhar com ela.
A resposta judicial sobre a acusação de homicídio caberá agora aos jurados no julgamento marcado para 26 de novembro.
*Compartilhe este conteúdo do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Estado do Rio.












