Relatórios revelam aumento de crianças e adolescentes vítimas de violência armada e intervenções policiais no Rio e São Paulo. Dados apontam para crise humanitária em meio a disputas territoriais e operações com alto poder letal.
Na região metropolitana do Rio de Janeiro, seis crianças foram baleadas apenas nos primeiros três meses de 2025. Uma delas, um menino de 11 anos, morreu após ser atingido por uma bala perdida enquanto brincava em um condomínio em Realengo.
O caso, registrado pelo Instituto Fogo Cruzado, não é isolado: em 2024, 26 crianças e adolescentes foram vítimas de tiros no estado, com 10 mortes.
“As crianças estão na linha de tiro ao irem para a escola, dentro de casa ou brincando. Não há exagero em dizer que são alvos potenciais”, alerta Carlos Nhanga, coordenador do Fogo Cruzado no Rio. Ele critica a falta de transparência dos dados governamentais: “Isso cria a falsa ideia de que a violência contra menores é esporádica, mas os números mostram o contrário”.
Em 2025, a região metropolitana do Rio já registrou mais de 640 tiroteios, 280 durante operações policiais. Embora o total de confrontos tenha caído 5% em relação a 2024, as operações policiais tiveram aumento de 40%, com 44% mais feridos.
A Secretaria de Segurança do Rio afirma “desconhecer a metodologia” do Fogo Cruzado e ressalta que seu objetivo é “preservar vidas”.
São Paulo: Letalidade policial e o rostos das vítimas
Enquanto isso, São Paulo vive um cenário ainda mais sombrio. Dados do UNICEF e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que mortes de crianças e adolescentes em intervenções policiais aumentaram 120% entre 2022 e 2024.
Em 2024, 77 jovens de 10 a 19 anos foram mortos pela polícia – mais que o dobro de 2022.
“Uma em cada três vítimas de homicídio nessa faixa etária morreu pela polícia. São majoritariamente meninos negros das periferias”, explica Adriana Alvarenga, do UNICEF-SP. O relatório liga o aumento à flexibilização no uso de câmeras corporais e discursos governamentais que incentivam operações letais.
Em novembro de 2024, Ryan, de 4 anos, foi morto por um tio policial em Santos. Sua mãe, Beatriz Silva, cobra justiça: “Preciso do fim do inquérito para seguir em frente”, disse em entrevista à TV Brasil.
Políticas Públicas sob questionamento
O estudo recomenda gravação ininterrupta das câmeras corporais e avaliações independentes das políticas de segurança.
Em nota, a SSP-SP afirmou ampliar em 18,5% o número de câmeras e punir “excessos”, mas especialistas destacam que, entre 2019 e 2022, a letalidade caiu 66% justamente onde as câmeras eram usadas corretamente.
“Mudanças recentes nos protocolos coincidem com o aumento de mortes”, diz Leonardo Carvalho, do Fórum de Segurança Pública.
Enquanto autoridades divergem sobre números e métodos, mães como Beatriz seguem enterrando filhos e exigindo respostas. Nas favelas do Rio e nas periferias de São Paulo, brincar na rua virou um risco calculado – e a infância, uma vítima colateral de uma guerra sem fim.
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