A literatura também pode abrir caminhos para o acolhimento e a compreensão de experiências pessoais. Essa foi a proposta do workshop “Histórias que acolhem”, conduzido pela escritora mineira Conceição Evaristo na tarde de quarta-feira (21), no Rio de Janeiro. A atividade foi direcionada a educadores sociais e profissionais das Unidades de Reinserção Social (URS), vinculadas à Secretaria Municipal de Assistência Social.
Realizado na sede da MultiRio, na Cidade Nova, o encontro contou com aproximadamente 70 participantes que atuam em diferentes regiões da capital fluminense. A iniciativa buscou mostrar como a escrita, a leitura e a contação de histórias podem contribuir para as atividades desenvolvidas com pessoas atendidas pela rede municipal de acolhimento.
Durante a oficina, Conceição Evaristo compartilhou com o grupo o conto “Olhos D’água”, publicado no livro de mesmo nome. A obra aborda temas como memória, ancestralidade e afeto a partir das lembranças da narradora sobre a mãe.
Professora aposentada da rede municipal de ensino do Rio, a escritora ressaltou a importância da literatura para expressar sentimentos e ampliar perspectivas. Ela também chamou atenção para a relação entre os sonhos individuais, a garantia de direitos e a dignidade humana.
Atividade despertou memórias e emoções
Além da leitura, a oficina abriu espaço para que os participantes compartilhassem lembranças da infância e experiências familiares. Cheiros, recordações e situações vividas no passado foram utilizados como pontos de partida para as conversas.
A leitura coletiva de trechos da obra provocou diferentes reações emocionais, e alguns profissionais se comoveram durante a atividade. Diante das manifestações, Conceição Evaristo destacou que demonstrar emoção não deve ser motivo de vergonha.
A escritora defendeu que a sensibilidade diante da alegria e do sofrimento de outras pessoas é importante para construir relações mais humanas, evitando que o cotidiano seja marcado pela indiferença.
O secretário municipal de Assistência Social, Augusto Ribeiro, também participou da reflexão sobre o papel da literatura e ressaltou a trajetória de Conceição Evaristo no enfrentamento ao racismo. Segundo ele, o combate à discriminação racial precisa fazer parte de todas as políticas públicas, inclusive das ações de assistência social.
Educadores querem aplicar os aprendizados no acolhimento
A experiência foi bem recebida pelos profissionais presentes. Andreia Costa, de 53 anos, funcionária administrativa da MultiRio, avaliou que a atividade contribuiu para ampliar seus conhecimentos e proporcionar novas reflexões pessoais.
Denis da Silva Caetano, de 38 anos, também pretende aproveitar os aprendizados no trabalho com adolescentes de 12 a 17 anos atendidos pela URS Angélica Goulart, onde atua há dois anos.
Ele planeja utilizar histórias para incentivar os jovens a refletirem sobre situações difíceis e experiências de superação. Entre as propostas está a criação de um texto coletivo, no qual cada adolescente ficará responsável por escrever uma parte da narrativa.
A ideia é incluir a literatura na rotina das atividades com os jovens, estimulando a criatividade, a expressão de sentimentos e o compartilhamento de vivências.
Podcast sobre literatura e acolhimento será publicado em novembro
Depois do workshop, Conceição Evaristo e Elizabeth Silveira, diretora da URS Angélica Goulart, participaram da gravação de um podcast com estudantes da rede pública de ensino. A produção integra o Projeto Andar, desenvolvido pela MultiRio.
A participação de Elizabeth levou à conversa a experiência de quem trabalha diretamente com o acolhimento institucional de adolescentes do sexo masculino e realiza ações voltadas ao enfrentamento do racismo.
A entrevista tem previsão de publicação em novembro, período em que é celebrado o Dia da Consciência Negra. O conteúdo poderá ser acompanhado pelo site oficial do Projeto Andar, da MultiRio.
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