Comunidades tradicionais da Baía de Guanabara estão se destacando na preservação ambiental ao se engajar diretamente na limpeza de manguezais e na recuperação de fauna e flora.
Moradores, pescadores artesanais e catadores de caranguejo participam de projetos que reduzem impactos de resíduos sólidos e promovem consciência ambiental em diversas cidades da região.
Entre janeiro e fevereiro, o Projeto Andadas Ecológicas, promovido pela ONG Guardiões do Mar, retirou aproximadamente 4,5 toneladas de lixo em Magé. A iniciativa beneficia diretamente a comunidade Suruí e áreas próximas, envolvendo crianças e adolescentes e incentivando a participação comunitária na conservação do manguezal.
Além das atividades de limpeza, o projeto criou um ecoclube que aplica a tecnologia social Moeda Azul, chamada Mangal, dentro do conceito de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA).
Durante dois anos e dois meses, escolas, espaços comunitários e moradores das margens do Rio Suruí participarão do programa, incentivando a coleta adequada de resíduos e a reciclagem. Os materiais recolhidos podem ser trocados por moedas Mangal, que posteriormente são convertidas em produtos em um bazar local.
Pedro Belga, presidente da Guardiões do Mar, ressalta que o projeto vai além da coleta de lixo. “O objetivo é educação ambiental e engajamento comunitário. As famílias percebem que cuidar do manguezal aumenta a produtividade de peixes e caranguejos e melhora a qualidade do ambiente”, afirma.
O PSA, aplicado desde 2001 na comunidade da Ilha de Itaoca, demonstra que valorizar o trabalho local gera benefícios ambientais e econômicos. Para os catadores de caranguejo, o programa é especialmente importante durante o período de defeso do caranguejo-uçá, de 1º de outubro a 30 de novembro.
O turismo de base comunitária também se beneficia das ações de preservação. Segundo Rafael dos Santos, presidente da Associação de Caranguejeiros e Amigos do Mangue de Magé, um manguezal limpo atrai visitantes e fortalece a economia local.
O Andadas Ecológicas é uma extensão da Operação LimpaOca, que desde 2012 já retirou mais de 100 toneladas de resíduos nos manguezais da APA de Guapimirim, incluindo sofás, madeira, brinquedos, lixo eletrônico e principalmente plástico, o material mais persistente no ambiente, segundo Rodrigo Gaião, coordenador do projeto.
As ações de preservação têm raízes históricas. Elas começaram em 2000, após o vazamento de um duto da Petrobras que ligava a Refinaria Duque de Caxias (Reduc) ao terminal Ilha d’Água.
A empresa pagou multa de R$ 35 milhões ao Ibama e destinou R$ 15 milhões à revitalização da baía. Desde então, os projetos da Guardiões do Mar, como Mar ao Mangue, Dia de Limpeza da Baía de Guanabara, Sou do Mangue, Guanabara Verde e Uçá, vêm ampliando a proteção ambiental e fortalecendo o protagonismo das comunidades tradicionais.
Pedro Belga conclui: “O projeto foi construído passo a passo junto com a comunidade, valorizando o território e melhorando a qualidade de vida. Muitos pescadores já percebem que sua luta pelo manguezal não está sendo em vão.”
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