O edifício que abrigou o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), no centro do Rio de Janeiro — um dos principais símbolos da repressão política do século 20 —, pode ser oficialmente tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O julgamento está marcado para o dia 26 de novembro, em reunião do Conselho Consultivo do órgão, que será transmitida ao vivo. O processo tramita há mais de dez anos e é considerado um dos mais relevantes da área de preservação da memória política brasileira.
Segundo o Iphan, o tombamento se justifica tanto pelo valor arquitetônico do prédio, inaugurado em 1910 com inspiração francesa, quanto por sua importância histórica e simbólica nas lutas em defesa da democracia e dos direitos humanos. Caso o tombamento seja confirmado, qualquer alteração na estrutura dependerá de autorização do instituto.

A medida atende a reivindicações antigas de entidades civis, do Ministério Público Federal (MPF) e de movimentos de direitos humanos que há décadas pedem a transformação do antigo Dops em um centro de memória sobre a repressão e a violência de Estado.
Um espaço que testemunhou a repressão
Construído originalmente para abrigar a sede da Polícia Federal, o prédio foi cedido à Polícia Civil na década de 1960, mantendo sua função policial. O edifício guarda celas solitárias, salas de interrogatório com isolamento acústico e o gabinete do ex-chefe de polícia Filinto Müller, um dos principais nomes da repressão durante o Estado Novo (1937–1945).
Por suas celas passaram figuras históricas como Olga Benário, Luís Carlos Prestes, Nise da Silveira, Abdias Nascimento e o escritor Graciliano Ramos. O prédio também é lembrado pela morte sob tortura de Raul Amaro Nin Ferreira, em 1971, durante a ditadura militar.
Fechado há mais de uma década, o imóvel encontra-se em estado precário, com vitrais quebrados e documentos abandonados. Em vistoria feita em 2024, o Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça e Reparação encontrou o espaço praticamente intacto, com inscrições originais nas celas e móveis preservados.
“Mesmo em 2025, o prédio ainda conserva todos os elementos da repressão. É um testemunho material de um passado que o Estado tentou apagar”, afirmou o arquiteto Felipe Nin, integrante do coletivo.

Debate sobre o futuro do prédio
O coletivo denunciou ao MPF o abandono do imóvel e o risco de descaracterização do patrimônio. Em resposta, a Polícia Civil apresentou um projeto para criar um centro cultural no local — proposta criticada por entidades de direitos humanos por ignorar o caráter histórico do prédio.
“Querem transformar a carceragem feminina, onde esteve Olga Benário, em um bistrô. Isso é apagar a história e as marcas da repressão”, criticou Nin.
Com o tombamento, todas as modificações no edifício, incluindo as celas e paredes originais, deverão preservar sua integridade como patrimônio da memória política brasileira.
Memória e reparação
A farmacêutica Ana Bursztyn Miranda, que foi presa três vezes no Dops por lutar contra a ditadura, defende que o prédio seja transformado em um espaço educativo sobre direitos humanos. “A tortura ainda existe. Precisamos lembrar o que aconteceu para que o terror daquela época não se repita”, afirmou.
Para historiadores e ex-presos políticos, o tombamento representa uma forma de reconhecimento das vítimas e de reparação simbólica. Se a decisão for confirmada no dia 26, o antigo Dops poderá, enfim, tornar-se um espaço de memória, verdade e justiça — um marco na preservação da história democrática do Brasil.
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