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Antidepressivos são encontrados em tubarões-martelo no litoral do Rio

Pesquisa da UFRJ identificou sertralina no cérebro de animais marinhos e acende alerta sobre resíduos de medicamentos nos oceanos.

Redação DGRJ Por Redação DGRJ
07/07/2026 - 10:51
em Cidade
Estudo da UFRJ encontrou sertralina no cérebro de tubarões-martelo no litoral do Rio e alerta para a presença de resíduos farmacêuticos no mar.

Imagem: Ilustração/ Agência Fonte Exclusiva

O que sai das casas, hospitais e redes de esgoto pode chegar muito mais longe do que a população imagina. No litoral do Rio de Janeiro, pesquisadores identificaram resíduos de sertralina, substância usada em antidepressivos, no tecido cerebral de tubarões-martelo.

A descoberta reforça o alerta sobre a presença de medicamentos no ambiente marinho e sobre os impactos invisíveis da poluição urbana nos oceanos.

O estudo foi conduzido por cientistas ligados à Universidade Federal do Rio de Janeiro e integra o Projeto EcoShark, iniciativa que monitora a saúde de tubarões na costa fluminense desde 2018. A pesquisa investiga a presença de contaminantes emergentes em elasmobrânquios, grupo que inclui tubarões e raias.

A sertralina é um princípio ativo utilizado no tratamento de depressão, ansiedade e outros transtornos de saúde mental. O medicamento é importante para milhões de pacientes e deve ser usado conforme orientação médica. O problema apontado pelos pesquisadores não está no tratamento em si, mas no destino ambiental dos resíduos depois que essas substâncias são eliminadas pelo organismo humano.

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Após o uso, parte do medicamento é metabolizada pelo corpo. Outra parte pode ser eliminada pela urina ou pelas fezes, na forma original ou como metabólitos. Esses resíduos seguem para a rede de esgoto e podem chegar a rios, baías e ao oceano quando o tratamento não é suficiente para remover moléculas farmacêuticas em baixas concentrações.

As estações de tratamento, em geral, foram planejadas para retirar matéria orgânica, nutrientes e microrganismos. No entanto, muitas delas não conseguem eliminar totalmente compostos como antidepressivos, analgésicos, antibióticos, hormônios, estimulantes e outros produtos químicos presentes no cotidiano da população.

No Rio de Janeiro, o cenário preocupa ainda mais por causa dos desafios de saneamento básico. Parte do esgoto gerado em áreas urbanas ainda chega aos corpos d’água sem tratamento adequado ou passa por processos que não removem micropoluentes. Emissários submarinos também podem lançar efluentes no mar após tratamento preliminar, etapa insuficiente para eliminar esse tipo de substância.

Os tubarões analisados pertencem às espécies Sphyrna lewini e Sphyrna zygaena, conhecidas como tubarões-martelo. Os animais foram capturados acidentalmente em redes de pesca em áreas próximas ao Recreio dos Bandeirantes, Barra da Tijuca e Copacabana, por meio de parceria entre pescadores e pesquisadores.

Como predadores de topo, os tubarões ocupam posição elevada na cadeia alimentar. Isso significa que podem acumular substâncias presentes na água, nos sedimentos e nos organismos que consomem. A presença de sertralina no cérebro desses animais indica exposição a um composto biologicamente ativo e amplia a necessidade de monitoramento ambiental.

Os pesquisadores ressaltam que a descoberta não comprova alterações comportamentais nos tubarões nem deve ser associada a incidentes com esses animais. O achado indica, neste momento, que o contaminante chegou ao organismo de uma espécie ameaçada e ecologicamente importante.

A detecção da sertralina no tecido cerebral chama atenção porque, em humanos, a substância atua sobre mecanismos ligados à serotonina, neurotransmissor relacionado ao humor, ao comportamento e a funções neurológicas. Como sistemas semelhantes existem em diferentes vertebrados, cientistas investigam se a exposição contínua pode afetar animais aquáticos.

Estudos realizados com peixes em laboratório já apontaram alterações de locomoção, aprendizado e funcionamento do sistema serotoninérgico após exposição à sertralina. Ainda assim, especialistas destacam que esses resultados não podem ser automaticamente aplicados aos tubarões, que possuem fisiologia própria e exigem pesquisas específicas.

A preocupação é maior porque tubarões são animais de crescimento lento, vida longa e baixa taxa reprodutiva. Isso torna suas populações mais vulneráveis a pressões ambientais acumuladas. No caso dos tubarões-martelo, o alerta é reforçado pelo fato de essas espécies já sofrerem com a pesca, a degradação de habitats e a redução de áreas costeiras preservadas.

O problema dos resíduos químicos em animais marinhos não se limita ao Brasil. Estudos internacionais já identificaram substâncias como cafeína, cocaína, paracetamol e diclofenaco em tubarões de outras regiões. Essas descobertas mostram que a contaminação por produtos de uso humano pode atingir até áreas distantes dos grandes centros urbanos.

Em regiões costeiras densamente povoadas, como a Região Metropolitana do Rio, a pressão tende a ser maior. A combinação entre esgoto, turismo, pesca, ocupação urbana e biodiversidade marinha cria um ambiente sensível, no qual substâncias invisíveis podem circular silenciosamente pela cadeia alimentar.

A descoberta também aproxima debates que muitas vezes são tratados separadamente. O primeiro é o da saúde mental. O aumento no uso de antidepressivos acompanha maior busca por diagnóstico e tratamento, o que representa avanço no cuidado com a população. Ao mesmo tempo, exige políticas para reduzir o impacto ambiental dos resíduos.

O segundo debate envolve o saneamento básico. Enquanto o esgoto não for tratado com tecnologias mais eficientes, substâncias químicas continuarão chegando aos rios e ao mar. A poluição marinha não aparece apenas em forma de lixo plástico ou água suja. Ela também pode estar em compostos microscópicos, persistentes e biologicamente ativos.

O terceiro ponto é a conservação dos oceanos. Tubarões exercem papel fundamental no equilíbrio marinho. Como predadores de topo, ajudam a regular populações de outras espécies e contribuem para a estabilidade dos ecossistemas. Qualquer ameaça à saúde desses animais pode gerar efeitos em cadeia.

Especialistas defendem que o Brasil amplie o monitoramento de contaminantes emergentes em ambientes aquáticos. Isso inclui medicamentos, drogas ilícitas, cosméticos, hormônios, agrotóxicos e outros compostos que ainda não são acompanhados de forma ampla e sistemática.

Outra medida considerada essencial é a modernização das estações de tratamento de esgoto. Tecnologias mais avançadas podem reduzir a presença de micropoluentes farmacêuticos nos efluentes, mas dependem de investimento, planejamento e continuidade das políticas públicas.

A população também tem papel importante. Medicamentos vencidos ou sem uso não devem ser descartados na pia, no vaso sanitário ou no lixo comum. O ideal é levar esses produtos a pontos de coleta adequados, geralmente disponíveis em farmácias, unidades de saúde ou programas de logística reversa.

O caso dos tubarões-martelo no litoral do Rio mostra que a saúde humana, o saneamento e a proteção dos oceanos estão diretamente conectados. Uma substância produzida para tratar pessoas pode, depois de passar pelo organismo e pelo esgoto, chegar ao sistema nervoso de um predador marinho ameaçado.

A descoberta não deve gerar medo dos tubarões nem desestimular tratamentos médicos. O alerta é ambiental. O estudo revela que a poluição moderna nem sempre é visível, mas já deixa marcas em espécies fundamentais para o equilíbrio da vida marinha.

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Tags: #biodiversidade#EcoShark#MeioAmbiente#oceanos#PoluiçãoMarinha#RioDeJaneiro#SaneamentoBásico#SaúdeAmbiental#Sertralina#TubaraoMartelo#TubarõesUFRJ
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