A tentativa de compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB) voltou ao centro de questionamentos após o ex-banqueiro Daniel Vorcaro apresentar acusações de um suposto esquema de pagamento de propina durante as negociações.
Em uma proposta de delação premiada que não foi aceita, ele afirmou ter desembolsado cerca de R$ 80 milhões e atribuiu ao então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), uma suposta exigência de R$ 400 milhões para facilitar a operação. As informações foram divulgadas pelo UOL.
Segundo o relato de Vorcaro, o acordo teria sido acertado em setembro de 2024, durante uma conversa com Leonardo Valverde, apontado como próximo de Ibaneis. A proposta, conforme a versão apresentada pelo ex-banqueiro, previa que metade do valor fosse paga em dinheiro vivo e a outra metade fosse repassada por meio de um contrato fictício com um escritório de advocacia indicado pelo então governador.
Vorcaro também alegou que Ibaneis receberia uma participação de 5% no novo banco por meio de uma empresa de fachada. Ainda de acordo com o relato, R$ 80 milhões teriam sido antecipados em espécie e transportados pelo motorista do banqueiro até Valverde, em Brasília.
Mensagens obtidas pelo UOL e extraídas pela Polícia Federal (PF) registrariam pelo menos dez entregas feitas pelo motorista a uma pessoa identificada como “Léo” ou “Dr. Léo”. Os investigadores suspeitam que a referência seja a Leonardo Valverde. No entanto, os registros não comprovam o conteúdo das encomendas nem demonstram, por si só, que houve pagamento de propina.
As conversas também indicariam que Ibaneis acompanhou etapas das negociações entre o BRB e o Banco Master, incluindo discussões sobre aumento de capital do banco público, compra de carteiras de crédito e aquisição da instituição financeira de Vorcaro.
A defesa de Ibaneis negou a participação do ex-governador nas decisões do BRB e contestou as acusações. O advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, declarou que Ibaneis deixava o presidente do banco público livre para tomar as decisões que julgasse necessárias.
Os representantes do ex-governador afirmaram que não comentariam uma “delação que não foi aceita por não ter um fiapo de prova”. Procurado pelo UOL, Leonardo Valverde não respondeu.
Encontros e negociações entre BRB e Banco Master
Os contatos entre Ibaneis e Vorcaro teriam começado em setembro de 2024, durante um almoço na residência do banqueiro, em Brasília. Cerca de uma semana depois, os dois voltaram a se encontrar, dessa vez com a presença de Paulo Henrique Costa, que presidia o BRB naquele período.
Conforme fontes ouvidas pelo UOL, Ibaneis autorizou o avanço de uma operação de aumento de capital de R$ 500 milhões no banco público. Em outubro de 2024, o valor autorizado passou para R$ 750 milhões, com participação de fundos ligados ao Banco Master na instituição brasiliense.
Paralelamente, o BRB começou a comprar carteiras de crédito do banco de Vorcaro. Até fevereiro de 2025, as operações somavam R$ 9,5 bilhões, ampliando a relação comercial entre as duas instituições.
As tratativas avançaram para uma proposta de aquisição do Banco Master pelo BRB. Em janeiro de 2025, Ibaneis, Vorcaro, Paulo Henrique Costa e Valverde teriam se reunido em Zurique, na Suíça, para discutir a possível compra.
Dois meses depois, em março, o BRB anunciou a intenção de adquirir 58% do Banco Master, após meses de negociações. A operação, contudo, passou a enfrentar questionamentos sobre a qualidade e a existência de parte dos ativos negociados.
Problemas em carteiras de crédito levantaram suspeitas
As dificuldades ganharam força quando o BRB identificou inconsistências em carteiras de crédito compradas do Master e originalmente negociadas pela empresa Tirreno. Segundo a Polícia Federal, parte dos empréstimos não existia, já que não havia clientes que tivessem contratado essas operações.
Em setembro de 2025, ainda restavam R$ 2,1 bilhões em ativos que precisavam ser substituídos. A descoberta aumentou os questionamentos sobre as transações realizadas entre as instituições financeiras.
Naquele mês, o Banco Central vetou a aquisição do Banco Master pelo BRB, impedindo a conclusão do negócio. Mesmo após a decisão, mensagens mencionadas na reportagem indicariam que Ibaneis concordou com a possibilidade de um acordo operacional entre as instituições e com discussões sobre um novo aumento de capital do banco público.
Em novembro de 2025, o Banco Central determinou a liquidação do Banco Master, e Vorcaro foi preso.
Acusações ainda não foram comprovadas
As alegações sobre o suposto pagamento de propina foram apresentadas por Vorcaro em uma proposta de delação premiada que acabou rejeitada. Dessa forma, as declarações não constituem, por si só, comprovação dos fatos relatados.
Da mesma maneira, as mensagens citadas na reportagem não demonstram isoladamente que as entregas continham dinheiro ou que os envolvidos participaram de um esquema de corrupção. Ibaneis nega as acusações, e os registros mencionados precisam ser considerados dentro do conjunto de elementos eventualmente reunidos pelas autoridades.
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