A preservação do Cerrado está profundamente ligada à proteção dos territórios indígenas. Em um dos biomas mais pressionados pela ocupação humana no Brasil, as Terras Indígenas se destacam não apenas pela conservação da vegetação nativa, mas também pela importância que possuem para a cultura, a espiritualidade e os modos de vida dos povos originários.
A relação entre território e preservação ganha ainda mais evidência nesta sexta-feira (11), quando é celebrado o Dia Nacional do Cerrado.
Para os Bororo, o Cerrado faz parte da identidade
O povo Boe Bororo vive atualmente em seis territórios localizados em Mato Grosso. A área tradicionalmente ocupada pelo grupo, porém, era muito mais extensa e abrangia regiões entre o Rio Xingu, a Bolívia e o centro-sul de Goiás.
Para o artesão e ativista Jean Bororo, o Cerrado não representa apenas uma fonte de recursos naturais. O território está ligado à identidade e à própria existência do povo Bororo.
Segundo ele, a relação com o bioma envolve aspectos culturais, sociais e espirituais. Plantas e outros elementos encontrados no Cerrado também são utilizados na produção de ornamentos, objetos, pigmentos e fibras, além de fazerem parte da alimentação.
Jean defende ainda que os conhecimentos tradicionais podem contribuir para uma relação mais equilibrada com o meio ambiente. Para ele, preservar a natureza não significa separar o ser humano do território, mas reconhecer a conexão existente entre as comunidades e o espaço onde vivem.
Vegetação nativa é mais preservada em Terras Indígenas
Os dados de monitoramento da cobertura vegetal reforçam a importância desses territórios para a conservação do Cerrado.
De acordo com Bárbara Costa, pesquisadora da rede MapBiomas, aproximadamente 95% das áreas de Terras Indígenas localizadas no Cerrado ainda mantinham vegetação nativa em 2025.
O percentual chama atenção diante da situação do bioma como um todo. Mais da metade da cobertura original do Cerrado já foi desmatada ou modificada por atividades humanas.
O MapBiomas também aponta o Cerrado como o bioma brasileiro que registrou o maior impacto sobre sua vegetação nos três anos anteriores ao levantamento.
Para Bárbara Costa, a presença de grandes áreas contínuas de vegetação nativa dentro das Terras Indígenas ajuda a conter a substituição da cobertura natural. Esses espaços também favorecem a conservação da biodiversidade e a conexão entre diferentes áreas preservadas.
A manutenção dessas áreas tem reflexos ainda sobre a proteção dos recursos hídricos, o armazenamento de carbono e outros serviços ecossistêmicos importantes para o equilíbrio ambiental.
Agropecuária pressiona vegetação do Cerrado
Entre os principais fatores de transformação do Cerrado está o avanço das atividades agropecuárias.
Segundo Bárbara Costa, mais de 80% do desmatamento registrado no bioma em 2025 ocorreu em imóveis rurais privados.
Nesse cenário, as Terras Indígenas assumem um papel estratégico na manutenção de áreas de vegetação nativa e na proteção dos recursos naturais.
Para os povos originários, entretanto, a preservação ambiental está diretamente relacionada à garantia de seus territórios. Entre os Bororo, por exemplo, a conservação do Cerrado está ligada à continuidade de práticas culturais, conhecimentos tradicionais, alimentação e manifestações espirituais transmitidas entre gerações.
Assim, proteger o Cerrado também significa preservar os espaços onde diferentes povos indígenas mantêm vivas suas histórias, tradições e formas próprias de relação com a natureza.
*Compartilhe este conteúdo do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Estado do Rio.











