Um erro administrativo, uma denúncia ignorada e um nome até então desconhecido da opinião pública: Welter José da Costa. Assim começa um dos episódios mais explosivos da história recente da política capixaba — e que promete abalar as estruturas do poder em Presidente Kennedy, cidade de apenas 14 mil habitantes no sul do Espírito Santo, mas com um orçamento bilionário graças aos royalties do petróleo.
A série especial do Diário da Guanabara inicia neste domingo (1º) a cobertura de um escândalo que já está nas mãos da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) e mira diretamente o coração do grupo político liderado por Dorley Fontão (PSB) e seu sucessor no comando interino do município, o vereador e presidente da Câmara, Júnior de Gromobol (PSB).
As investigações, no entanto, estariam enfrentando embaraços políticos, situações que deverão ser reveladas no decorrer desta série de reportagem.

A denúncia que caiu no colo da Draco
No dia 22 de janeiro de 2024, uma mensagem inesperada foi enviada ao e-mail oficial da Superintendência de Inteligência da Polícia Civil do Espírito Santo. Vinda da conta oficial da Secretaria de Obras da Prefeitura de Marataízes, o conteúdo parecia tratar da isenção do então prefeito local, Tininho Batista, em uma suposta trama criminosa — mas, ao abrir o anexo, o que se revelou foi uma bomba: um documento protocolado por Welter Costa que denunciava movimentações bancárias milionárias e suspeitas envolvendo a Prefeitura de Presidente Kennedy, não Marataízes.
O documento — encaminhado por engano — trazia provas de que cerca de R$ 12 milhões foram pagos à empresa Shark Negócios e Empreendimentos, registrada em nome de Welter. Mas, segundo ele, tudo não passava de fachada.
O laranja que resolveu falar
Lavador de carros, ex-usuário de drogas, sem recursos e morando em uma casa alugada na periferia de Marataízes, Welter revelou em depoimento à Draco que foi aliciado por Leonardo Rios, conhecido como “Léo Goela”, para figurar como proprietário da Shark.

Leonardo teria adquirido a empresa de um homem chamado Samuel, prometendo a Welter um “salário” e o uso de seu nome em troca da titularidade da empresa. O dinheiro, afirmou, viria de “obras travadas” em Presidente Kennedy.
Sem qualquer controle sobre a movimentação financeira da empresa, Welter descobriu que o aplicativo da conta bancária da Shark estava instalado no celular de Leonardo, que fazia movimentações vultosas: transferências para empresas, pessoas físicas, compra de carros e até aeronaves. Tudo com dinheiro público.
Documentos falsificados e 12 milhões desviados
Em depoimento, Welter disse ter sido ameaçado após exigir sua retirada do contrato social da empresa. Após conseguir, com ajuda de um ex-procurador da República, acesso ao aplicativo e aos extratos, ele ficou “em choque” ao descobrir que R$ 12 milhões foram pagos à Shark em 2023 — ano em que, segundo ele, a empresa não possuía contratos vigentes com o município.
Mais grave: Welter afirmou que não reconheceu nenhuma assinatura sua nos documentos que autorizaram os pagamentos. Alegou que elas foram falsificadas.
O dinheiro, conforme os extratos, foi repassado a figuras ligadas à administração pública local, inclusive ao filho de um fiscal de contrato, ao advogado Rodrigo Lisboa (também promotor de eventos) e à empresa Queen Empreendimentos, igualmente envolvida no esquema e, segundo Welter, controlada por outro “laranja”, o cunhado de Leonardo Rios.
O “homem forte do Estado”
Welter relatou ameaças, tentativas de suborno e pressões para que desistisse da denúncia. Disse que foi abordado por um engenheiro da Prefeitura de Marataízes com uma mala de dinheiro e procurado por figuras “temidas” da cidade. Afirmou também que o Secretário de Obras de Presidente Kennedy ofereceu R$ 400 mil para “abafar o caso”.
A todo momento, Leonardo — segundo Welter — repetia que nada aconteceria, pois tinha a proteção do “Homem forte do Estado”, alguém que, nas palavras de Welter, “manda na Justiça, no Ministério Público e na polícia”.
Embora não tenha revelado o nome por medo, o denunciante deixou claro que o personagem central por trás da rede de proteção é um figurão da política capixaba.
Operação Draco: a bomba começa a explodir
Com base na denúncia, a Draco iniciou uma investigação sigilosa e articulou buscas e apreensões nas casas dos primeiros alvos. O resultado foi histórico: R$ 200 mil em espécie foram encontrados, sendo R$ 150 mil na casa do engenheiro fiscal Lanna, e o restante na residência de Leonardo Rios — valores inéditos para operações da região, segundo a própria polícia.
A investigação identificou ainda indícios de fraudes em licitações milionárias, como o contrato da Construtora Patamar, que saltou de R$ 19 milhões para R$ 40 milhões com aditivos ilegais.
Coincidência? A empresa pertence ao companheiro da subprocuradora do município, braço direito do procurador Rodrigo Lisboa, já na mira da Draco.
O que vem a seguir
O que começou como um protocolo enviado por engano pode ser a pedra fundamental do maior escândalo político do Espírito Santo em décadas. A denúncia de Welter, inicialmente tratada como uma formalidade administrativa, revelou um suposto esquema de corrupção com ramificações que atingem o Judiciário, o Ministério Público, forças policiais e o núcleo do poder político de Presidente Kennedy — cidade que segue sob intervenção, com eleições suspensas por manobras jurídicas e o comando mantido pelo aliado de Dorley Fontão, Júnior de Gromobol.
No próximo capítulo da série, vamos destrinchar os contratos milionários da Prefeitura de Presidente Kennedy, os empresários beneficiados e os bastidores do poder que, segundo testemunhas, tentam obstruir a investigação.
*Capítulo 1 da série Especial – Diário da Guanabara: “A República dos Royalties”
Acompanhe nos próximos dias.
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