O frio que marcou o início de setembro no Centro-Sul do Brasil pode parecer incompatível com um El Niño em rápida intensificação no Pacífico. Não é. Enquanto o fenômeno influencia o comportamento do clima ao longo de semanas e meses, frentes frias e massas de ar polar conseguem provocar quedas bruscas de temperatura em períodos muito mais curtos.
É justamente o que acontece neste feriado de 7 de Setembro. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) prevê a passagem de uma frente fria pelo Centro-Sul, com instabilidades em diferentes áreas do país e frio intenso, acompanhado de geadas, na Região Sul.
Isso não altera, por si só, a tendência para o restante do mês. No prognóstico climático para setembro, o Inmet aponta temperaturas acima da média em grande parte do Brasil, especialmente no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Minas Gerais, Espírito Santo e boa parte do Rio de Janeiro também aparecem com desvios positivos, enquanto grande parte do Sul deve ficar próxima da média histórica.
A aparente contradição desaparece quando se considera a escala de tempo. Uma massa de ar frio pode mudar as condições durante alguns dias; já uma previsão mensal ou trimestral considera a temperatura média de um período muito maior. Assim, uma região pode enfrentar uma sequência de manhãs geladas e ainda terminar setembro com média normal ou acima do esperado.
El Niño está ficando mais forte
O atual episódio de El Niño foi confirmado em junho. O terceiro boletim do Painel El Niño 2026-2027, produzido por sete órgãos federais, indica que o fenômeno deve permanecer pelo menos até o início de 2027 e tem mais de 90% de probabilidade de alcançar intensidade muito forte entre setembro e novembro.
A projeção mais recente da NOAA reforça esse cenário. Para o trimestre de outubro a dezembro, o órgão americano estima 69% de probabilidade de o episódio atingir intensidade superior à dos demais El Niños registrados desde 1950, considerando o indicador utilizado pela agência. A própria NOAA ressalta, porém, que um El Niño muito intenso aumenta a chance de determinados impactos climáticos, mas não garante que eles ocorrerão da mesma forma em todas as regiões.
No Brasil, os efeitos também não são uniformes. Para setembro, outubro e novembro, os modelos indicam maior probabilidade de chuva acima da média no Sul e em partes de São Paulo e Mato Grosso do Sul. No Norte, Nordeste e em setores do Brasil Central e do Sudeste, o cenário predominante é de precipitação abaixo da média. As temperaturas tendem a ficar elevadas em grande parte do território.
Por isso, o avanço do El Niño não significa o fim antecipado do frio. A primavera pode ser mais quente na média e, ainda assim, ter episódios pontuais de temperaturas baixas. Frentes frias continuarão atravessando o país e, quando acompanhadas por massas de ar frio suficientemente intensas, poderão produzir novas quedas de temperatura.
O que muda com o El Niño é o pano de fundo climático: aumenta a probabilidade de determinados padrões de chuva e temperatura ao longo da estação. O tempo de cada dia continua dependendo dos sistemas atmosféricos que passam pelo país.
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