O Brasil já dispõe de tecnologia, conhecimento técnico e bases de dados capazes de acompanhar a origem da soja e da carne bovina. O avanço de uma agropecuária mais transparente, entretanto, dependerá da integração entre os sistemas existentes e da adoção de critérios comuns para a avaliação de riscos ambientais e sociais.
A conclusão faz parte do estudo “Rastreando a Responsabilidade: fortalecendo o monitoramento do desmatamento nas cadeias de suprimento de soja e carne bovina do Brasil”, lançado nesta terça-feira (28) pelo WRI Brasil.
O levantamento avaliou 21 iniciativas de monitoramento e rastreabilidade socioambiental. Dez são direcionadas à cadeia da soja e 11 acompanham a produção de carne bovina.
Os sistemas analisados reúnem informações sobre origem dos produtos, regularidade das propriedades, desmatamento, condições trabalhistas e outros riscos ligados à produção agropecuária, especialmente na Amazônia e no Cerrado.
Segundo os pesquisadores, a falta de comunicação entre as plataformas e a utilização de metodologias diferentes dificultam a comparação dos dados. Essa fragmentação também reduz a eficiência do controle exercido por empresas, compradores, instituições financeiras e órgãos públicos.
A partir da análise, o WRI Brasil elaborou dez recomendações para fortalecer os mecanismos de rastreabilidade e contribuir com políticas públicas e compromissos privados.
Propriedade rural deve ser base do controle
Uma das principais propostas é utilizar a propriedade rural como unidade básica de monitoramento. A medida permitiria identificar com maior precisão a origem da soja e dos animais, além de verificar as condições ambientais e sociais de cada fornecedor.
O estudo recomenda a utilização prioritária de dados oficiais ou cientificamente validados. A padronização dessas informações poderia reduzir divergências entre os sistemas e aumentar a confiança dos participantes da cadeia produtiva.
As ferramentas também deveriam verificar o cumprimento do Código Florestal, a existência de desmatamento ilegal e possíveis violações relacionadas ao trabalho forçado.
Outra recomendação é a realização de auditorias independentes. A verificação por organizações externas ajudaria a confirmar a qualidade das informações fornecidas pelos mecanismos de rastreabilidade.
O levantamento também propõe a publicação periódica de relatórios de transparência, permitindo que produtores, investidores, compradores, governos e a sociedade acompanhem os resultados alcançados.
Monitoramento precisa alcançar todos os biomas
Embora grande parte das iniciativas esteja concentrada na Amazônia e no Cerrado, os pesquisadores defendem que o acompanhamento seja ampliado para todos os biomas brasileiros.
A expansão evitaria que atividades irregulares fossem transferidas para regiões com menor cobertura dos sistemas de controle. Também ajudaria a impedir o deslocamento do desmatamento para áreas menos fiscalizadas.
Entre os critérios sugeridos está a verificação da inexistência de desmatamento ilegal a partir do marco temporal de 2008.
O estudo também recomenda a adoção de desmatamento zero após agosto de 2020, em alinhamento com compromissos ambientais e requisitos adotados por determinados mercados internacionais.
A utilização de datas e metodologias diferentes pelas iniciativas atuais pode gerar insegurança para produtores e compradores. Por isso, a harmonização dos critérios é considerada necessária para tornar as exigências mais claras.
Fornecedores indiretos permanecem como desafio
O acompanhamento dos fornecedores indiretos é apontado como um dos principais obstáculos para a rastreabilidade completa das cadeias produtivas.
Na pecuária, um animal pode passar por diversas fazendas antes de ser vendido ao frigorífico. Quando o sistema verifica apenas a última propriedade, parte do percurso permanece sem monitoramento.
Essa falha pode permitir que animais originados em áreas com desmatamento ou outras irregularidades entrem em cadeias consideradas regulares depois de passar por propriedades intermediárias.
O estudo defende a adoção de mecanismos capazes de acompanhar os produtos desde a origem até a comercialização final, incluindo todas as etapas e transferências realizadas.
Também é recomendada a criação de procedimentos para a reintegração de fornecedores que tenham sido suspensos por descumprir as regras.
A exclusão permanente, segundo o levantamento, nem sempre contribui para a melhoria das práticas no campo. O modelo proposto prevê planos de adequação, prazos e critérios objetivos para comprovar que as irregularidades foram corrigidas.
Somente após a regularização devidamente registrada e verificada o produtor poderia retornar à cadeia comercial.
China é mercado estratégico
A integração dos sistemas pode fortalecer a posição dos produtos brasileiros em mercados que passaram a exigir informações mais detalhadas sobre desmatamento, condições de produção e origem das mercadorias.
A China foi destacada pelo estudo por sua importância nas exportações do agronegócio brasileiro. Em 2024, o mercado chinês comprou do Brasil US$ 44,6 bilhões em soja e carne bovina.
Com bases de dados conectadas e critérios padronizados, compradores chineses poderiam verificar com maior facilidade os riscos socioambientais relacionados aos produtos adquiridos.
A medida também poderia reduzir exigências divergentes entre empresas, facilitar as negociações e aumentar a previsibilidade das operações comerciais.
A diretora do Programa de Florestas e Uso da Terra do WRI Brasil, Mariana Oliveira, defende que o processo seja construído em cooperação com os principais parceiros comerciais do país.
Segundo a pesquisadora, a rastreabilidade também pode ser incorporada às análises de risco realizadas por instituições financeiras antes da concessão de crédito ou da liberação de investimentos.
Alguns bancos brasileiros já consultam informações oficiais e não oficiais para avaliar riscos ambientais, sociais e jurídicos. A prática poderia ser ampliada para bancos de desenvolvimento, fundos e investidores internacionais.
Benefícios vão além do comércio exterior
O fortalecimento da rastreabilidade não deve ser visto apenas como uma resposta às exigências internacionais.
Sistemas mais eficientes podem ampliar o acesso dos produtores ao crédito, estimular investimentos em tecnologia e melhorar a gestão das propriedades rurais.
A comprovação de boas práticas ambientais e sociais também pode facilitar a entrada em mercados que valorizam produtos sustentáveis.
Para o poder público, a integração das informações pode ajudar a localizar regiões que necessitam de apoio técnico, regularização ambiental ou políticas específicas de desenvolvimento.
O estudo recomenda ainda que a gestão dos sistemas tenha participação de representantes do governo, produtores, empresas, instituições financeiras, pesquisadores e organizações da sociedade civil.
Esse modelo de supervisão multissetorial permitiria atualizar critérios, identificar falhas e distribuir responsabilidades entre todos os envolvidos na produção, no financiamento e na comercialização das commodities.
Segundo o WRI Brasil, o país não precisa começar do zero. Grande parte da infraestrutura necessária já existe, mas funciona de maneira fragmentada.
A conexão entre as bases de dados, a ampliação da cobertura territorial e a definição de padrões comuns são apontadas como etapas fundamentais para reduzir riscos socioambientais e aumentar a competitividade da soja e da carne bovina brasileiras.
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