A decisão de proibir as bets no Brasil trouxe alívio para pessoas que tentam reconstruir a vida depois de enfrentar dependência e dívidas provocadas pelas apostas online.
Kaio, nome fictício de um homem de 42 anos, está entre elas. Depois de seis anos apostando, conta ter perdido a casa, o carro e o emprego. As dívidas chegaram ao ponto de fazê-lo se afastar da família por medo de credores.
Hoje, ele recebe acompanhamento em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), participa de grupos terapêuticos e faz tratamento médico.
A experiência ajuda a mostrar um problema que ultrapassou as perdas financeiras e chegou aos serviços de saúde mental.
O que muda com a proibição
A Medida Provisória nº 1.394, publicada em 25 de setembro, proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no Brasil, incluindo apostas esportivas e jogos online. A norma também alcança autorizações estaduais e do Distrito Federal.
Novos depósitos ficaram proibidos imediatamente. Quem possui dinheiro nas plataformas tem até 5 de outubro, às 23h59, para solicitar voluntariamente o saque.
A partir de 6 de outubro, sites e aplicativos deverão ficar indisponíveis. Os saldos que não forem retirados voluntariamente serão encaminhados para devolução pelas instituições financeiras entre 9 e 14 de outubro.
Como toda medida provisória, o texto produz efeitos imediatos, mas precisa passar pelo Congresso Nacional para continuar valendo. O prazo de tramitação pode chegar a 120 dias.
Famílias perderam R$ 62,5 bilhões
O crescimento das apostas deixou uma conta pesada.
Estudo do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), elaborado com dados do Banco Central, estimou que as famílias brasileiras tiveram perdas líquidas de R$ 62,5 bilhões com bets em 2025.
No período analisado, as plataformas movimentaram aproximadamente R$ 351 bilhões em transferências por Pix.
A perda líquida corresponde à diferença entre o dinheiro enviado às empresas e os valores que retornaram aos apostadores.
Jovens também entraram nas apostas
O problema não ficou restrito aos adultos.
Pesquisa divulgada em setembro mostrou que 20,4% dos alunos entrevistados nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio disseram já ter realizado apostas online.
O levantamento ouviu 1.912 estudantes de 191 escolas. Entre os participantes com até 11 anos, 9,5% relataram já ter apostado.
Especialistas alertam que adolescentes podem ser particularmente vulneráveis a mecanismos de recompensa e impulsividade, enquanto áreas cerebrais relacionadas ao controle de riscos ainda estão em desenvolvimento.
Dependência chega aos serviços de saúde
Problemas relacionados ao jogo também passaram a aparecer com maior frequência nos atendimentos de saúde mental.
Profissionais relatam casos de ansiedade intensa, depressão, isolamento social e sensação de perda de controle entre pacientes com transtorno do jogo. Em situações mais graves, podem surgir pensamentos relacionados à morte, o que exige atendimento profissional imediato.
Em agosto, o SUS ampliou para até 100 mil por mês a capacidade de teleatendimentos destinados a pessoas com problemas de saúde mental relacionados a jogos e apostas. O serviço pode ser acessado pelo aplicativo Meu SUS Digital e também oferece orientação a familiares.
Após a edição da MP, o Ministério da Saúde informou que pretende ampliar a identificação e a oferta de acompanhamento para pessoas com comportamento problemático relacionado às apostas. Os detalhes sobre como essa nova etapa funcionará ainda não foram totalmente divulgados.
Tratamento continua necessário
O fim das plataformas autorizadas não encerra os efeitos deixados pela dependência.
Para quem já perdeu o controle sobre as apostas, interromper o acesso ao jogo é apenas parte do processo. Avaliação médica, acompanhamento psicológico e apoio familiar podem ser necessários para reorganizar a rotina, enfrentar dívidas e reduzir o risco de recaídas.
O desafio agora passa também pelo combate às plataformas ilegais. O governo informou que sites que continuarem funcionando após o prazo poderão ser bloqueados, juntamente com meios de pagamento utilizados para manter as operações.
*Compartilhe este conteúdo do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Estado do Rio.











