Uma crise que começou dentro de um dos maiores bancos digitais do Paraguai chegou nesta quinta-feira (5) ao centro do poder político do país. A Câmara dos Deputados iniciou uma sessão extraordinária para discutir o impeachment do presidente Santiago Peña, depois que o Ueno Bank entrou em processo de resolução, deixou milhões de clientes sem acesso normal aos recursos e colocou sob suspeita a atuação de autoridades responsáveis pela fiscalização do sistema financeiro.
O caso ganhou peso político por causa das antigas relações de Peña com o grupo controlador da instituição. O presidente foi acionista do Grupo Vázquez, proprietário do Ueno, até março de 2025. Parlamentares da oposição sustentam que essa proximidade, somada à presença de grandes volumes de dinheiro público no banco, levanta suspeitas de conflito de interesses e de favorecimento regulatório. Peña não foi condenado por nenhuma dessas acusações e defende que eventuais irregularidades sejam investigadas e punidas.
A situação do banco se deteriorou de forma acelerada. Em 2 de novembro, o Banco Central do Paraguai decidiu iniciar o procedimento de resolução após constatar que o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo exigido. Segundo o próprio regulador, ajustes realizados durante o processo de regularização expuseram uma insuficiência grave de capital.
O Ueno tinha aproximadamente 3 milhões de clientes e administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo dinheiro relacionado ao sistema previdenciário. A interrupção das operações provocou filas, temor entre poupadores e aumento da procura por outros bancos, enquanto aplicativos de diferentes instituições também registraram instabilidade em meio à corrida por transferências e saques.
Como o banco virou uma crise política
O pedido de impeachment apresentado por 35 deputados vai além da quebra da instituição. O documento acusa Peña de mal desempenho das funções e reúne diferentes alegações, entre elas conflito de interesses, manipulação regulatória, exposição excessiva de recursos previdenciários, falhas de fiscalização e possível benefício patrimonial. Também questiona decisões tomadas por órgãos públicos que mantiveram grandes quantias depositadas no Ueno.
Essas acusações ainda precisam ser apuradas. A oposição sustenta que órgãos do Estado flexibilizaram regras e permitiram que a instituição ampliasse sua presença em áreas estratégicas enquanto enfrentava problemas financeiros. Entre os pontos investigados está a concentração de recursos do Instituto de Previdência Social e de outras entidades públicas no banco.
A crise também colocou o Banco Central sob pressão. Carlos Carvallo, que havia ocupado cargos no próprio grupo financeiro antes de comandar a autoridade monetária, deixou a presidência da instituição em meio ao escândalo. Parlamentares questionam se os órgãos de supervisão reagiram tarde demais às irregularidades identificadas no Ueno.
O Banco Central, por sua vez, afirma que o problema é específico do Ueno e não representa uma crise generalizada do sistema financeiro paraguaio. A instituição destaca que os demais bancos mantêm níveis adequados de liquidez e solvência e tenta conter o risco de perda de confiança no setor.
Investigação criminal avança
O caso também saiu do campo regulatório e chegou à esfera criminal. O Ministério Público abriu investigação após receber documentos do Banco Central e confirmou a detenção de dirigentes da instituição. Os investigadores analisam milhares de páginas de documentos e trabalham com hipóteses que incluem lesão de confiança, fraude e outras condutas econômicas que possam ter gerado prejuízos ou vantagens ilícitas.
Oito dirigentes foram detidos, e a investigação pode alcançar operações realizadas fora do Paraguai. O Ministério Público informou que analisa a necessidade de solicitar cooperação internacional aos Estados Unidos e a Luxemburgo para rastrear documentos, valores e eventuais bens relacionados ao caso.
Ao mesmo tempo, o governo tenta reduzir os efeitos sobre os correntistas. O Fundo de Garantia de Depósitos cobre valores de até 228,3 milhões de guaranis por depositante, equivalente a 75 salários mínimos paraguaios. O Banco Central também anunciou um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis para clientes atingidos enquanto define as etapas seguintes da liquidação.
Peña afirmou que os responsáveis por eventuais irregularidades deverão responder à Justiça e pediu que as forças políticas priorizem os interesses dos poupadores. O governo também apoiou mudanças legais para acelerar a liberação dos valores cobertos pelo sistema de garantia.
Impeachment chega ao Congresso
A dimensão política da crise aumentou nas últimas horas. O pedido de impeachment nasceu com 35 assinaturas da oposição, mas parlamentares do Partido Colorado, legenda de Peña, começaram a anunciar apoio ao processo nesta quinta-feira. Veículos paraguaios relataram que o movimento ganhou força depois que diferentes alas governistas mudaram de posição.
Pela Constituição paraguaia, a Câmara dos Deputados é responsável por formular a acusação, que precisa de maioria qualificada de dois terços para avançar. Caso seja aprovada, caberá ao Senado julgar o presidente e decidir sobre eventual destituição. O mesmo procedimento está sendo discutido contra o vice-presidente Pedro Alliana.
Até a última atualização consultada, a sessão desta quinta-feira estava em andamento e havia expectativa de ampla maioria favorável ao prosseguimento do processo. No entanto, como a Câmara ainda não havia publicado oficialmente o resultado, não é possível afirmar neste momento que o impeachment já tenha sido aprovado.
A velocidade dos acontecimentos ajuda a explicar por que uma crise bancária se transformou em uma das maiores turbulências políticas do atual governo. Em poucos dias, o Ueno passou de uma instituição financeira em dificuldades para o centro de uma investigação criminal, provocou detenções, colocou autoridades regulatórias sob suspeita e levou o Congresso a discutir a permanência do presidente no cargo.
O impacto mais imediato, porém, continua fora do Palácio de López e do Parlamento. Milhões de clientes ainda querem saber quando e de que forma terão acesso integral ao próprio dinheiro. É justamente a resposta a essa pergunta, somada à investigação sobre como o banco chegou a esse ponto, que determinará até onde a crise financeira poderá avançar sobre o futuro político de Santiago Peña.
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