A trajetória da filósofa Helena Theodoro, uma das referências brasileiras nos estudos sobre filosofia africana e afro-brasileira, ganha um novo registro nesta quarta-feira (2).
A Biblioteca Parque Estadual (BPE), no Rio de Janeiro, recebe o lançamento de Dona Helena Theodoro — Uma Tia Negra da Filosofia Popular Brasileira, livro que nasceu da pesquisa acadêmica de Carla Rocha e também celebra a relação construída entre as duas ao longo de mais de 30 anos.
A obra é resultado da dissertação de mestrado de Carla no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A proposta de transformar a trajetória de Helena em objeto de estudo partiu do professor Rafael Haddock-Lobo, orientador da pesquisa, em parceria com o coorientador Marcelo José Derzi Moraes.
O livro vai além de uma narrativa biográfica. A pesquisa busca compreender pensamentos filosóficos e formas de atuação relacionadas à valorização dos conhecimentos africanos, afro-brasileiros e indígenas, áreas nas quais Helena construiu uma trajetória marcada pela defesa desses saberes dentro e fora das universidades.
Uma relação que atravessa gerações
Carla conheceu Helena há mais de três décadas e, desde então, a relação entre professora e aluna também se transformou em uma parceria acadêmica. Helena foi orientadora de Carla no mestrado e continua acompanhando sua formação durante o doutorado.
Para a pesquisadora, a convivência com a filósofa representa uma oportunidade de aprendizado que ultrapassa os limites da universidade.
Helena, hoje com 83 anos, continua participando de aulas, bancas, eventos e outras atividades acadêmicas. A disposição para permanecer atuante é uma das características que mais impressionam Carla.
“Ela tem um vigor fantástico e não é uma pessoa que busca ser absoluta. Ela quer empoderar todas as pessoas. Quer todo mundo junto com ela, não quer atrás dela. Ela dá a mão para todo mundo”, afirmou Carla à Agência Brasil.
A pesquisadora também destaca a rotina intensa da professora, que segue envolvida com diferentes atividades mesmo após décadas de carreira.
O significado das “Tias Negras”
Um dos conceitos trabalhados na publicação é o das “Tias Negras”. A expressão se refere a mulheres que, ao longo da história, assumiram funções importantes de acolhimento, organização, transmissão de conhecimentos e preservação da memória dentro das comunidades negras.
Para Helena Theodoro, essa atuação está relacionada à ancestralidade e à visão de mundo de origem Bantu, que coloca a coletividade no centro da existência.
“No mundo africano é o Bantu, ‘eu sou, porque nós somos’. Eu existo, logo penso, e não penso, logo existo. Nós temos ancestralidade”, explicou a filósofa.
A partir dessa perspectiva, a filosofia não fica restrita aos espaços acadêmicos. Ela também está presente nas relações comunitárias, na família, na memória e na transmissão de saberes entre diferentes gerações.
Helena descobriu o tema durante a banca
A própria Helena não sabia que seria a personagem central da pesquisa quando aceitou participar da banca de mestrado de Carla. Até aquele momento, tinha conhecimento apenas de que a estudante desenvolvia um trabalho sobre filosofia popular brasileira.
A surpresa veio quando recebeu a tese durante a banca e percebeu o verdadeiro tema do estudo.
“Quando chego à banca e ele me entrega a tese, começo a chorar. ‘Como você faz isso comigo?’. Foi assim encantador. Muita emoção”, contou Helena.
A filósofa foi a primeira mulher negra a apresentar uma tese de doutorado em filosofia africana no Brasil, em 1985. Antes disso, havia concluído o mestrado, em 1975.
Por isso, Helena considera que o livro não deve ser visto simplesmente como uma biografia.
“É um estudo de pensamentos filosóficos e de maneira de atuação. Fiquei muito feliz porque não é uma coisa presa à minha vida. É um pensamento que venho buscando desde que fiz doutorado”, afirmou.
Família, militância e ancestralidade
A ideia de coletividade também aparece nas lembranças pessoais de Helena. Filha de pais com formação universitária e envolvidos com a militância, ela cresceu em um ambiente familiar no qual a união e o cuidado entre parentes eram valorizados.
Entre as memórias, estão os grandes encontros familiares na casa da tia Alice, na Tijuca, zona norte do Rio. Segundo Helena, uma das comemorações chegou a reunir 94 familiares. As celebrações de Natal, por sua vez, aconteciam na casa da tia Conceição, na Ilha do Governador, conhecida por preparar quitutes para a família.
“A gente aprendeu a se amar, a se gostar, a se aglutinar. Sempre foi a visão do Bantu ‘eu sou porque nós somos’”, lembrou.
A trajetória de Helena também é marcada por momentos de dor. Em 1981, ela perdeu o filho Maurício, de quatro anos, fruto de seu relacionamento com o escritor, cantor, compositor e pesquisador das culturas africanas Nei Lopes.
Na época, encontrou apoio em integrantes da comunidade negra e de terreiros de candomblé, que tiveram papel importante em sua recuperação.
“Eu fui muito amparada pelo Ilê Axé Opô Afonjá, pelo mestre Didi e todo o pessoal. Acho que se não tivesse esse tipo de apoio, não teria conseguido superar”, relatou.
Professora continua ativa aos 83 anos
A atuação de Helena Theodoro permanece intensa. Mesmo aos 83 anos, ela continua participando de atividades acadêmicas e de ações ligadas à militância e à valorização da cultura negra.
Somente no ano passado, participou de 32 bancas. Naquele período, era a única professora pós-doutora em filosofia africana e também a única professora negra do Departamento de Filosofia da UFRJ.
“Eu tenho 83 anos de idade e continuo na militância, escrevendo e trabalhando porque os meus pais eram militantes”, afirmou.
Lançamento acontece nesta quarta
O lançamento do livro acontece nesta quarta-feira (2), das 14h às 17h, na Biblioteca Parque Estadual, no Rio de Janeiro.
Além de Helena Theodoro e Carla Rocha, participam do encontro os professores Rafael Haddock-Lobo, da UFRJ; Marcelo José Derzi Moraes e Mariane Biteti, ambos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Ligada à Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, a Biblioteca Parque Estadual tem entre seus objetivos ampliar o acesso da população aos livros, à leitura e à literatura.
Carla Rocha nasceu no Rio de Janeiro e cresceu no conjunto habitacional do Ipase, em Vicente de Carvalho, na zona norte. Formada em Filosofia e Jornalismo, também possui especialização em assessoria de comunicação e gestão de negócios sustentáveis.
Atualmente, é mestre e doutoranda em Filosofia pelo Laboratório Encruzilhadas Filosóficas, da Pós-Graduação em Filosofia da UFRJ. A pesquisadora também já publicou ensaios e contos pelo selo da Festa Literária das Periferias (Flup) e participa do coletivo Mulheres Sambistas.
A publicação conta ainda com contribuições de Rafael Haddock-Lobo, responsável pela orelha; Mariane Biteti, autora do prefácio; Marcelo José Derzi Moraes, que assina a apresentação; e da própria Helena Theodoro, responsável pelo posfácio.
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