Uma pesquisa conduzida por cientistas chineses resultou no desenvolvimento de um material diferente dos tecidos convencionais: uma estrutura flexível formada por fungos vivos, capaz de se regenerar e se decompor naturalmente.
A tecnologia foi desenvolvida no Instituto de Tecnologia Avançada de Shenzhen e descrita em um estudo publicado na revista Science Advances no fim de julho.
O material utiliza o micélio do fungo florestal Cordyceps militaris, formado por uma rede de filamentos responsável pela estrutura vegetativa do organismo. Para produzir o tecido, os pesquisadores cultivaram o micélio em um meio líquido até obter pequenos agrupamentos com formato aproximadamente esférico.
Na etapa seguinte, esses aglomerados foram aquecidos a 45 ºC. O procedimento fez com que as diferentes estruturas se unissem, formando um material contínuo. Segundo os pesquisadores, uma das vantagens do processo é que a estrutura consegue permanecer integrada sem a utilização de cola, linhas ou outros componentes externos.
Protótipo mostra possível uso em roupas
Para demonstrar uma das possíveis aplicações da tecnologia, a equipe liderada por Zhong Chao produziu um protótipo de vestido utilizando folhas do material desenvolvido. O experimento mostrou que o tecido de micélio pode ser moldado e utilizado na formação de peças de maiores dimensões.
Além da flexibilidade, os pesquisadores avaliaram a resistência da estrutura. Em um dos testes realizados, quatro tiras estreitas do material conseguiram sustentar uma carga de um quilo, demonstrando resistência considerada promissora para aplicações experimentais.
Outro resultado chamou atenção durante os experimentos: a capacidade de decomposição do material. Quando colocado no solo, o tecido perdeu quase toda a sua estrutura e apresentou decomposição praticamente completa em cerca de 40 dias.
Possível alternativa para a indústria têxtil
A rápida decomposição pode tornar esse tipo de material interessante para pesquisas que buscam alternativas aos tecidos convencionais. O setor da moda enfrenta desafios ambientais relacionados tanto ao processo de fabricação quanto ao descarte de grandes volumes de roupas.
Materiais produzidos a partir de organismos vivos podem, em determinadas condições, oferecer uma alternativa com menor permanência no ambiente após o descarte. No caso do tecido desenvolvido pelos pesquisadores chineses, a capacidade de decomposição representa uma das características mais relevantes do experimento.
A tecnologia, entretanto, ainda está distante de uma aplicação comercial ampla. Entre os desafios apontados pelos pesquisadores estão a necessidade de melhorar a respirabilidade do material e aumentar sua resistência ao desgaste provocado pelo atrito.
Outro ponto importante é o controle da atividade biológica. Como o tecido é produzido a partir de organismos vivos, os cientistas precisam compreender e controlar seu comportamento para garantir que o material tenha desempenho previsível e segurança durante o uso.
Tecnologia pode ir além da moda
Apesar de o protótipo de roupa demonstrar uma possível aplicação na indústria têxtil, os pesquisadores avaliam que a tecnologia pode ter um alcance maior. O desenvolvimento pode contribuir para pesquisas sobre uma nova geração de materiais vivos e adaptativos.
Esses materiais poderão, futuramente, ser investigados em diferentes áreas, incluindo medicina, arquitetura e soluções ambientais. A capacidade de combinar propriedades físicas com características biológicas abre possibilidades que não estão disponíveis nos materiais convencionais.
O tecido de micélio ainda está em estágio experimental e precisa passar por novos estudos antes de qualquer utilização em larga escala. Mesmo assim, o trabalho demonstra uma abordagem na qual organismos vivos são incorporados à criação de materiais com características como flexibilidade, regeneração e decomposição natural.
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