A exemplo do ocorrido em 2008, quando o sistema de crédito travou, em função inadimplência no mercado de hipotecas imobiliárias, a crise bancária internacional do tempo presente tem origem na desaceleração da taxa de lucro das empresas de alta tecnologia, forçadas a demitir em massa e redirecionar seus esforços para atender uma demanda por seus serviços cada dia menor, após o auge da pandemia.
A aceleração da crise se deu, também, pela necessidade imperiosa dos Bancos Centrais ao redor do planeta, de elevar as taxas nominais de juros para conter uma inflação de custos (energia e alimentos) e os desequilíbrios de oferta nas cadeias globais de valor.
Particularmente na terra da jabuticaba e do juro pornográfico, a submissão do conhecimento à tirania das grandes corporações, bem como a agressão financeirista contra o orçamento público obriga a contenção do gasto social, aquele que reduziria a desigualdade abissal desta terra de passado escravagista, para priorizar o braço empresarial das privatizações lucrativas e dos encargos da Dívida Pública Federal.
O desafio de nossa sociedade é conquistar corações e mentes para se desvencilhar dessa armadilha abstrata dos algoritmos financeiros geradora do processo de asfixia, tanto do gasto público real, quanto da economia produtiva, que poderia ser redinamizada pela componente do gasto autônomo público, notadamente o investimento em infraestrutura.
Nesse contexto, o “Arcabouço” lançado pelo governo se sustenta no discurso mistificador da disciplina fiscal e da “fada da confiança”, ou seja, tal qual famílias e empresas (que podem simplesmente falir), o Estado precisa perseguir o equilíbrio entre receitas e despesas. Vale lembrar que a malta endinheirada não quer ouvir falar de pagar impostos!
O problema dessa proposição é não considerar o caráter estratégico do poder público, num quadro de “crise de realização” e falta de crédito predominante nos dias atuais em nossa economia. Nesta fase das economias capitalistas, o Estado sempre exerce o papel de estabilizador do crédito e da demanda agregada, enquanto as famílias e as empresas superavitárias compram Dívida Pública para remunerar seu excedente de capital, aquele sem aplicação rentável, pela queda generalizada da demanda efetiva da economia.
Essa discussão me recorda Otto Albert Hirschman – economista liberal alemão retratado na série “Transatlântico” nas plataformas de streaming. Com pitacos de geopolítica, a película mostra a luta de um grupo na defesa dos intelectuais perseguidos pelo nazismo no século passado.
O autor de “Estratégias de Desenvolvimento Econômico”, era profundamente atento à grande tensão presente nas sociedades em processo de transformação, como é o caso da brasileira, e estudou o grau de complementariedade entre investimento público e privado, o impulso das importações e da tecnologia de capital intensivo e o papel do desenvolvimento na salvaguarda da democracia liberal.
Nas cinco décadas recentes, treze países tornaram-se países de alta renda, nenhum deles sul-americanos. Daí que o voto popular pede qualidade de vida e uma concepção de riqueza diferente, rompendo a relação imperiosa entre trabalho, dinheiro e acesso aos recursos necessários à vida. Enquanto a elite do dinheiro quer que “tudo mude para continuar tudo do mesmo jeito”, no estilo do filme “O Leopardo”, de Luchino Visconti.
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