O sistema internacional de abastecimento de energia voltou a operar sob forte pressão. A ampliação dos confrontos no Oriente Médio, os ataques contra navios e as restrições em duas das rotas marítimas mais importantes do mundo elevaram o petróleo Brent ao maior fechamento em dois meses.
Na quinta-feira (23), o barril avançou 7% e encerrou a sessão cotado a US$ 100,69. Foi a primeira vez desde 22 de maio que a referência internacional terminou o dia acima dos US$ 100. O petróleo norte-americano WTI subiu 6,2%, para US$ 92,19.
A cotação recuou na sexta-feira (24), depois de informações sobre possíveis esforços diplomáticos da China para interromper o conflito entre Estados Unidos e Irã. O Brent fechou a US$ 96,78, queda de 3,88% no dia, mas ainda acumulou valorização de quase 10% na semana.
Desde o início da guerra envolvendo o Irã, em fevereiro, o Brent registra alta próxima de 40%. O movimento reflete tanto a redução efetiva dos carregamentos quanto o temor de novas interrupções em instalações petrolíferas, refinarias e rotas de transporte.
Rotas essenciais enfrentam restrições
Um dos principais pontos de preocupação é o Estreito de Ormuz, passagem que conecta os produtores do Golfo Pérsico aos mercados internacionais. O tráfego de navios não iranianos caiu significativamente após a retomada dos confrontos e das ações militares na região.
A atividade de carregamento no Golfo recuou para cerca de 2,5 milhões de barris por dia durante uma semana, ante uma média de 6 milhões de barris diários nos 30 dias anteriores, segundo estimativa citada pela Reuters.
O cenário tornou-se ainda mais delicado depois que os houthis, grupo iemenita aliado ao Irã, atacaram embarcações transportando petróleo saudita no Mar Vermelho. O grupo também anunciou a intenção de bloquear carregamentos da Arábia Saudita que utilizem a passagem de Bab el-Mandeb.
As ameaças já provocaram mudanças de rota. Navios destinados a mercados asiáticos chegaram a retornar em direção ao Canal de Suez, ampliando o tempo necessário para a entrega e os custos das operações.
O Estreito de Ormuz e Bab el-Mandeb transportavam, em conjunto, o equivalente a aproximadamente um quarto do petróleo consumido mundialmente. A restrição simultânea nas duas passagens representa um risco elevado para produtores, refinarias e países importadores.
Trump ameaça resposta militar
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prometeu aplicar uma “grande punição militar” ao Irã e aos houthis depois dos ataques contra os navios sauditas.
Washington responsabiliza Teerã pela atuação do grupo iemenita. As declarações aumentaram os temores de uma escalada capaz de comprometer terminais, refinarias, portos e outras instalações estratégicas.
A possibilidade de expansão da guerra influencia os preços mesmo antes de uma interrupção adicional no fornecimento. Operadores incorporam às cotações o risco de perdas futuras, atrasos, aumento dos seguros marítimos e necessidade de utilização de rotas mais longas.
Projeções indicam risco de novas altas
O Goldman Sachs estima que o Brent poderá superar US$ 120 por barril no último trimestre de 2026 caso os problemas no Estreito de Ormuz continuem até 2027.
O banco também projeta uma média próxima de US$ 100 em 2027 nesse cenário. As cotações poderiam avançar ainda mais caso Bab el-Mandeb e o Canal de Suez enfrentassem restrições prolongadas.
As previsões não representam uma certeza. Uma negociação diplomática, a retomada do tráfego marítimo ou o aumento da produção de outros países podem reduzir a pressão.
A volatilidade observada entre quinta e sexta-feira demonstra como rumores de negociação ou novas ameaças militares conseguem provocar movimentos expressivos em poucas horas.
Reservas estratégicas estão menores
Os países consumidores enfrentam a nova fase da crise com menos petróleo disponível em suas reservas emergenciais.
Em março, os integrantes da Agência Internacional de Energia decidiram disponibilizar 400 milhões de barris para enfrentar a interrupção provocada pela guerra. Foi a maior ação coletiva já anunciada pela entidade.
Nos Estados Unidos, a Reserva Estratégica de Petróleo caiu para aproximadamente 311,4 milhões de barris na semana encerrada em 17 de julho. No início de abril, o estoque ainda superava 413 milhões de barris.
A redução limita a capacidade de Washington de repetir, com a mesma intensidade, uma nova liberação destinada a compensar eventuais interrupções prolongadas.
Os estoques norte-americanos de petróleo bruto, somando as reservas comerciais e emergenciais, também atingiram os menores níveis desde a década de 1980. Os volumes de gasolina e diesel permanecem reduzidos para os padrões históricos.
Refinarias operam sob pressão
O problema não está restrito à oferta de petróleo bruto. A capacidade mundial de transformar o produto em gasolina, diesel e querosene de aviação também foi afetada.
Refinarias do Oriente Médio permanecem parcial ou totalmente paralisadas desde o início da guerra. Na Rússia, ataques de drones ucranianos danificaram unidades de processamento e levaram Moscou a restringir as exportações de diesel.
Somadas, as interrupções retiraram aproximadamente 5 milhões de barris diários da produção mundial de derivados durante o segundo trimestre, na comparação com o mesmo período do ano anterior.
As refinarias dos Estados Unidos e da Europa operam próximas do limite, reduzindo a capacidade de compensar rapidamente as perdas registradas em outras regiões.
Margens de refino atingem recordes
A escassez aparece nas margens obtidas pelas refinarias, indicador que representa a diferença entre o preço do petróleo bruto e o valor dos combustíveis produzidos.
Nos Estados Unidos, a margem de referência conhecida como spread 3-2-1 aproximou-se de US$ 70 por barril, atingindo nível recorde. No noroeste europeu, o indicador chegou perto de US$ 30.
O diesel apresenta uma situação ainda mais crítica. As margens europeias alcançaram cerca de US$ 65 por barril, enquanto os produtores norte-americanos passaram a priorizar o combustível diante da elevada rentabilidade e da redução dos estoques.
Margens tão elevadas indicam que consumidores, empresas de transporte e indústrias estão disputando uma quantidade limitada de combustíveis.
Diesel espalha custos pela economia
O aumento do diesel produz impactos que ultrapassam os postos de abastecimento. O combustível é utilizado no transporte rodoviário, na agricultura, na mineração, na construção civil e em diferentes atividades industriais.
Quando o custo do diesel aumenta, empresas gastam mais para transportar matérias-primas e mercadorias. Parte dessa despesa tende a ser repassada aos preços cobrados dos consumidores.
Alimentos, roupas, equipamentos, produtos eletrônicos e materiais de construção podem ficar mais caros conforme os custos logísticos avançam.
A pressão também pode afetar a produção agrícola. Máquinas, tratores, colheitadeiras e caminhões dependem do combustível durante o plantio, a colheita e o transporte.
Aviação enfrenta estoques reduzidos
O querosene de aviação também permanece vulnerável. A Europa iniciou junho com aproximadamente 38 milhões de barris armazenados, quantidade suficiente para cobrir menos de 30 dias de consumo.
A região aumentou as importações de outros mercados e ampliou a produção das refinarias, mas continua exposta às restrições do Oriente Médio. Reino Unido, França e Alemanha estão entre os países mais dependentes do combustível importado.
O querosene e o diesel são obtidos a partir de frações semelhantes do petróleo. Por isso, o aumento da produção de um combustível pode limitar a disponibilidade do outro.
As companhias aéreas também enfrentam elevação dos custos operacionais. A Ryanair, por exemplo, atribuiu parte da queda do lucro trimestral ao encarecimento do combustível provocado pela guerra.
Crise pode ampliar inflação mundial
A combinação entre petróleo caro, fretes maiores e combustíveis escassos eleva o risco de uma nova onda inflacionária.
Empresas de transporte, companhias aéreas e indústrias podem repassar os custos aos consumidores. Governos e bancos centrais também poderão enfrentar dificuldades para reduzir juros caso a energia continue pressionando os índices de preços.
O mercado opera atualmente com menos estoques e uma capacidade reduzida de processamento. Isso significa que novos ataques ou interrupções podem gerar reações mais rápidas e intensas nas cotações.
A evolução dos preços dependerá principalmente da situação no Estreito de Ormuz, das ações dos houthis em Bab el-Mandeb e da possibilidade de um acordo capaz de reduzir os confrontos.
Enquanto essas incertezas permanecerem, o petróleo deverá continuar sujeito a oscilações acentuadas, com efeitos diretos sobre combustíveis, transporte, indústria e custo de vida.
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