Poucos nomes conseguiram ocupar tantos lugares de destaque na história do futebol inglês quanto Kevin Keegan. Vencedor como atacante, treinador identificado com o jogo ofensivo e personalidade capaz de mobilizar multidões, o ex-capitão da Inglaterra morreu nesta segunda-feira (20), aos 75 anos, após enfrentar um câncer em estágio avançado.
A morte foi confirmada pelo Newcastle United, clube pelo qual Keegan atuou dentro de campo e iniciou sua trajetória como técnico. Liverpool, Hamburgo, Federação Inglesa e outras instituições também divulgaram homenagens ao ex-jogador.
O diagnóstico de câncer havia sido tornado público em janeiro, depois que Keegan foi internado para investigar sintomas abdominais persistentes. Em junho, ele informou que a doença estava no estágio quatro. O tipo de câncer não foi revelado pela família.
Conhecido pelos apelidos de “Mighty Mouse” e “King Kev”, Keegan construiu uma carreira que ultrapassou os títulos. Sua intensidade, o carisma e a facilidade de comunicação transformaram o atacante em uma das primeiras grandes celebridades do futebol britânico.
Da pequena estatura ao protagonismo
Keegan não apresentava o porte físico normalmente associado aos centroavantes do futebol inglês dos anos 1970. A desvantagem de estatura, porém, era compensada pela velocidade, pela coragem nas disputas, pela movimentação constante e por uma surpreendente capacidade no jogo aéreo.
O atacante participava da criação, abria espaços para os companheiros e aparecia com eficiência na área adversária. Essa combinação permitiu que se destacasse inicialmente no Scunthorpe United e atraísse a atenção de Bill Shankly, então treinador do Liverpool.
Contratado em 1971, aos 20 anos, Keegan chegou a Anfield como uma aposta para o meio-campo. Durante a preparação da equipe, entretanto, seu desempenho em posições mais avançadas levou Shankly a utilizá-lo no ataque ao lado de John Toshack. A parceria se tornaria uma das mais importantes daquele período.
Protagonista na transformação do Liverpool
A chegada de Keegan coincidiu com o início de uma fase de expansão do Liverpool. O clube deixou de ser apenas uma força doméstica e passou a conquistar espaço entre as principais equipes da Europa.
Em seis temporadas, o atacante disputou 323 partidas e marcou 100 gols com a camisa vermelha. Nesse período, conquistou três vezes a Primeira Divisão Inglesa, duas Copas da Uefa, uma Copa da Inglaterra e a primeira Copa dos Campeões da história do clube.
Na temporada 1972/1973, Keegan marcou 22 gols e ajudou o Liverpool a conquistar o campeonato nacional e a Copa da Uefa. Na decisão continental contra o Borussia Mönchengladbach, participou diretamente de três gols da equipe no confronto realizado em duas partidas.
Outra atuação marcante ocorreu na final da Copa da Inglaterra de 1974. Keegan marcou duas vezes na vitória por 3 a 0 sobre o Newcastle, clube que anos depois ocuparia uma posição central em sua trajetória.
A despedida de Anfield aconteceu em 1977, logo depois da conquista da Copa dos Campeões. O Liverpool derrotou novamente o Borussia Mönchengladbach, desta vez por 3 a 1, em Roma. Keegan teve atuação decisiva e participou da jogada que resultou no pênalti responsável por confirmar o título.
Consagração no futebol alemão
Mesmo no auge da popularidade na Inglaterra, Keegan decidiu buscar uma experiência fora do país. A transferência para o Hamburgo representou uma escolha incomum em uma época na qual poucos jogadores britânicos atuavam em ligas estrangeiras.
A adaptação inicial foi difícil, mas o inglês recuperou o protagonismo e ajudou o clube a conquistar o Campeonato Alemão. Também participou da campanha que levou a equipe à final da Copa dos Campeões de 1980.
O desempenho no Hamburgo rendeu a Keegan duas Bolas de Ouro consecutivas, em 1978 e 1979. Ele permanece como o único inglês a conquistar a premiação duas vezes.
A consagração individual ampliou sua fama para além dos estádios. Keegan participou de programas de televisão, campanhas publicitárias e projetos musicais, tornando-se um dos primeiros jogadores ingleses a explorar amplamente a projeção construída no esporte.
Retorno à Inglaterra e relação com o Newcastle
Após três temporadas na Alemanha, Keegan retornou ao futebol inglês para defender o Southampton. Em 1982, aceitou atuar pelo Newcastle United, que naquele momento disputava a Segunda Divisão.
A contratação provocou grande entusiasmo entre os torcedores. Mesmo já consagrado, o atacante se envolveu com o projeto de recuperação da equipe e ajudou o clube a retornar à elite do futebol inglês.
Keegan encerrou a carreira como jogador em 1984. Sua passagem pelo Newcastle, porém, estabeleceu uma ligação que seria retomada anos depois e transformaria definitivamente sua relação com a cidade.
Pela seleção inglesa, disputou 63 partidas, marcou 21 gols e exerceu a função de capitão em 31 oportunidades. Também participou da Eurocopa de 1980 e da Copa do Mundo de 1982.
Retorno como treinador muda o Newcastle
Longe dos bancos de reservas durante vários anos, Keegan aceitou assumir o Newcastle em 1992. A equipe enfrentava dificuldades na Segunda Divisão e estava ameaçada de cair para o terceiro nível do futebol nacional.
O novo treinador conseguiu evitar o rebaixamento e, na temporada seguinte, conduziu o clube ao acesso para a recém-criada Premier League.
Sob seu comando, o Newcastle passou a praticar um futebol ofensivo, marcado por velocidade, liberdade criativa e busca permanente pelo gol. A equipe ficou conhecida como “The Entertainers”, expressão traduzida como “Os Artistas”.
Jogadores como Peter Beardsley, David Ginola, Les Ferdinand e Alan Shearer participaram daquela fase. O estilo empolgante transformou o Newcastle em candidato ao título e recuperou o orgulho de uma torcida que aguardava por melhores resultados.
Na temporada 1995/1996, o time chegou a abrir uma vantagem expressiva sobre o Manchester United. A queda de rendimento na reta final, entretanto, permitiu a reação do adversário, e o Newcastle terminou como vice-campeão.
Apesar da perda do título, aquela equipe permanece como uma das mais lembradas da história da Premier League. A identificação construída com os torcedores fez com que Keegan recebesse o apelido de “King Kev” em Newcastle.
Seleção inglesa e outros trabalhos
Depois da primeira passagem pelo Newcastle, Keegan trabalhou no Fulham e participou da recuperação esportiva do clube. Em 1999, foi escolhido para assumir a seleção da Inglaterra.
O treinador comandou o país na Eurocopa de 2000, mas a equipe foi eliminada na fase de grupos. Sua passagem terminou meses depois, após uma derrota para a Alemanha nas Eliminatórias da Copa do Mundo.
Keegan também dirigiu o Manchester City, conquistando o acesso à Premier League como campeão da segunda divisão. O trabalho confirmou uma característica presente em diferentes momentos de sua carreira: a capacidade de recuperar a confiança de clubes e elencos.
Em 2008, retornou ao Newcastle para uma segunda passagem como treinador. A experiência durou poucos meses e terminou depois de divergências com a direção sobre a política de contratação de jogadores.
Mesmo afastado dos trabalhos técnicos, Keegan continuou participando de eventos, entrevistas, programas esportivos e homenagens promovidas pelos clubes que defendeu.
Homenagens do futebol europeu
A confirmação da morte provocou manifestações em diferentes países. O Liverpool recordou os 100 gols, os títulos e a importância do antigo camisa 7 para a formação de uma geração vencedora.
O Newcastle destacou o impacto de Keegan em duas funções distintas. Como jogador, ele contribuiu para o retorno do clube à elite. Como treinador, criou uma equipe que disputou o título inglês e reconectou os torcedores com o futebol ofensivo.
O Hamburgo também relembrou o período em que o inglês se tornou uma estrela internacional, conquistou a Bundesliga e recebeu duas vezes o principal prêmio individual do futebol europeu.
Um legado construído em diferentes funções
Kevin Keegan deixa uma história difícil de ser resumida apenas por estatísticas. Os dois prêmios de melhor jogador da Europa, as conquistas pelo Liverpool e a contribuição ao Hamburgo colocam seu nome entre os maiores atacantes de sua geração.
Como treinador, embora não tenha conquistado a Premier League, foi responsável por uma das equipes mais populares e ofensivas da competição. O Newcastle dos anos 1990 permanece associado à coragem de atacar, ao entusiasmo das arquibancadas e à personalidade de seu comandante.
Keegan também ajudou a modificar a imagem do jogador inglês. Ao aceitar o desafio de atuar na Alemanha, mostrou que os atletas britânicos poderiam alcançar protagonismo fora do país. Ao ampliar sua presença na mídia, antecipou um modelo de estrela esportiva que se tornaria comum nas décadas seguintes.
Sua morte é sentida especialmente por Liverpool e Newcastle, clubes nos quais construiu relações profundas com as torcidas. O legado também permanece no Hamburgo, na seleção inglesa e entre os admiradores de um futebol praticado com intensidade, emoção e permanente disposição para atacar.
Kevin Keegan se despede como campeão europeu, bicampeão da Bola de Ouro, capitão da Inglaterra e personagem central de diferentes períodos do futebol britânico. Mais do que os troféus, permanece a lembrança de uma figura capaz de transformar equipes e aproximar o público do jogo.
*Compartilhe este conteúdo do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Rio de Janeiro.












