Mais partidas, estádios lotados e produtos direcionados ao público de maior poder aquisitivo transformaram a Copa do Mundo de 2026 em uma operação comercial ainda mais lucrativa do que a FIFA projetava. A entidade deverá anunciar uma receita estimada em US$ 15 bilhões, superando em aproximadamente US$ 4 bilhões a previsão inicial associada ao torneio.
A estimativa foi revelada pelo jornal britânico The Guardian, que atribuiu o crescimento principalmente à comercialização de ingressos e aos pacotes de hospitalidade. Até a divulgação da reportagem, a FIFA ainda não havia apresentado formalmente o balanço definitivo ao público.
O desempenho financeiro reflete a expansão do Mundial, que passou de 32 para 48 seleções e alcançou 104 partidas distribuídas entre Estados Unidos, México e Canadá. O aumento do número de jogos criou novas oportunidades para contratos de transmissão, patrocínios, bilheteria, publicidade e experiências premium.
Uma parcela significativa do crescimento está relacionada aos produtos de hospitalidade, que oferecem serviços adicionais aos torcedores. Os pacotes podem incluir assentos privilegiados, entradas exclusivas, alimentação, bebidas, entretenimento e atendimento diferenciado nos estádios.
Os valores atingiram patamares elevados principalmente nas partidas decisivas. Na véspera da final entre Espanha e Argentina, ingressos para o espaço premium denominado Trophy Lounge ainda eram anunciados por US$ 34,5 mil por pessoa.
A oferta demonstra o peso do público de alta renda na estratégia comercial adotada durante o torneio. O mercado esportivo norte-americano já trabalha tradicionalmente com camarotes, áreas VIP e experiências exclusivas, modelo que foi intensamente explorado pela FIFA.
A entidade também ampliou as opções de hospitalidade ao longo da competição. Alguns produtos disponibilizados durante a fase de grupos partiam de centenas de dólares, enquanto as experiências mais sofisticadas para os jogos decisivos alcançaram dezenas de milhares de dólares.
O mercado oficial de revenda tornou-se outra fonte importante de recursos. A plataforma da FIFA cobra uma taxa equivalente a 15% do preço total do comprador e desconta outros 15% do valor destinado ao vendedor.
Na prática, a entidade pode ficar com o equivalente a 30% do preço negociado em cada revenda. Dessa maneira, um ingresso originalmente comercializado volta a produzir receita quando é adquirido por outro torcedor.
O sistema ganhou importância diante da elevada procura por determinadas partidas. Os valores negociados variaram de acordo com o país-sede, o tipo de ingresso e as regras estabelecidas para a plataforma oficial.
O mecanismo também recebeu críticas por permitir que entradas para partidas muito procuradas alcançassem preços significativamente superiores aos valores iniciais.
Antes mesmo da abertura do Mundial, as projeções indicavam que bilheteria e hospitalidade poderiam movimentar aproximadamente US$ 3 bilhões. Os direitos de transmissão permaneceram como outra fonte central de receita, com estimativas superiores a US$ 4 bilhões.
A forte demanda permitiu a utilização de preços dinâmicos, modelo no qual os valores são alterados conforme a procura, a fase da competição e a relevância das partidas.
Em estimativas divulgadas antes do torneio, os ingressos mais caros para a final chegaram a US$ 10.990 nas vendas convencionais. Esse valor não incluía as experiências de luxo, que poderiam custar mais de três vezes esse montante.
O modelo foi questionado por torcedores e entidades de defesa do consumidor. Além dos ingressos, muitos fãs precisaram arcar com viagens entre cidades distantes, hospedagem, alimentação e transporte local.
Apesar das críticas, os dados de ocupação divulgados ao longo da competição indicaram alta procura. Após as primeiras 36 partidas, a FIFA informou que 99,54% dos lugares disponíveis haviam sido ocupados.
As associações nacionais filiadas à FIFA deverão participar dos benefícios gerados pelo aumento da arrecadação, embora os detalhes da distribuição ainda não tenham sido definidos.
Segundo o The Guardian, Gianni Infantino comunicou às entidades associadas que o resultado financeiro havia superado as projeções. A entrada de recursos adicionais poderá ampliar investimentos em competições, infraestrutura e programas de desenvolvimento do futebol.
A FIFA costuma utilizar parte de suas receitas para financiar projetos executados pelas federações nacionais. A definição dos valores e dos critérios de repasse, entretanto, dependerá das decisões administrativas tomadas após o fechamento das contas.
O resultado também fortalece a posição política de Infantino dentro da organização. Mesmo após um período de críticas e controvérsias durante o Mundial, o dirigente passa a apresentar às associações um desempenho econômico muito superior ao inicialmente projetado.
A capacidade comercial demonstrada em 2026 poderá influenciar futuras decisões sobre sedes. Os Estados Unidos já demonstraram interesse em organizar novamente a Copa do Mundo e mantiveram conversas com a FIFA sobre a possibilidade de receber o Mundial de Clubes de 2029.
A próxima edição masculina disponível para um novo processo de candidatura deverá ser a de 2038. A infraestrutura esportiva, o tamanho do mercado consumidor e o desempenho financeiro de 2026 podem fortalecer uma eventual candidatura norte-americana.
A escolha, porém, não dependerá apenas da arrecadação. O processo ainda precisará considerar as regras de candidatura, o rodízio entre confederações, a capacidade dos países interessados e a concorrência de outros projetos.
O sucesso econômico da Copa de 2026, portanto, representa uma vantagem comercial, mas não garante automaticamente que os Estados Unidos voltem a receber a competição.
A previsão de US$ 15 bilhões confirma o crescimento da Copa como uma das maiores operações comerciais do esporte mundial.
O novo formato ampliou a quantidade de conteúdo vendido às emissoras, aumentou os espaços destinados aos patrocinadores e criou mais oportunidades para a comercialização de ingressos e experiências especiais.
Ao mesmo tempo, o resultado reacende a discussão sobre o equilíbrio entre arrecadação e acesso popular. Os preços praticados durante o torneio dificultaram a presença de parte dos torcedores, especialmente daqueles que precisaram acompanhar suas seleções em diferentes cidades.
A FIFA encerra a competição diante de dois cenários contrastantes. De um lado, prepara-se para apresentar uma receita muito acima das previsões. Do outro, enfrenta questionamentos sobre até que ponto a exploração comercial pode afastar o público que ajudou a transformar a Copa do Mundo no evento esportivo mais popular do planeta.
*Compartilhe este conteúdo do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Rio de Janeiro.












