A mudança de temperatura durante o inverno costuma alterar os hábitos das famílias e aumentar o tempo de permanência em ambientes fechados. Para pessoas com asma, esse cenário exige cuidados adicionais, já que a menor ventilação dos imóveis, a circulação mais intensa de vírus e o contato com poeira, mofo, fumaça e objetos guardados podem favorecer o surgimento de crises.
Apesar da associação frequente entre o frio e a piora dos sintomas respiratórios, especialistas esclarecem que as baixas temperaturas, isoladamente, não são as principais responsáveis pelo agravamento da asma. O risco aumenta, sobretudo, quando infecções respiratórias atingem pacientes cuja doença não está adequadamente controlada.
Resfriados, gripes e outras viroses podem intensificar a inflamação das vias aéreas, provocando tosse persistente, chiado no peito, falta de ar e sensação de pressão ou aperto no tórax. Em quadros mais graves, o paciente pode precisar de atendimento de emergência ou internação.
O coordenador da Comissão Científica de Asma da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, Emilio Pizzichini, explica que o inverno cria condições favoráveis à transmissão de vírus, principalmente porque as pessoas ficam mais próximas umas das outras em espaços fechados.
Quando o paciente já apresenta inflamação nos brônquios por falta de controle da asma, uma infecção respiratória pode adicionar um novo processo inflamatório e desencadear uma crise. Por esse motivo, o tratamento deve ser mantido regularmente, inclusive nos períodos em que não há tosse, chiado ou dificuldade para respirar.
Interrupção do tratamento aumenta vulnerabilidade
A asma é uma enfermidade inflamatória crônica que, em muitos casos, precisa ser acompanhada continuamente. A ausência de sintomas não significa necessariamente que a inflamação dos brônquios tenha desaparecido.
Suspender medicamentos por conta própria após uma melhora pode deixar as vias respiratórias mais sensíveis. Isso aumenta a possibilidade de novas crises, limitações nas atividades diárias, idas a unidades de emergência e hospitalizações.
O acompanhamento médico também permite avaliar se o tratamento está funcionando, ajustar doses, verificar a técnica de uso dos inaladores e identificar fatores presentes na rotina do paciente que podem contribuir para a piora da doença.
Vacinação ajuda a evitar complicações
A manutenção da carteira de vacinação é apontada como parte importante da prevenção. Imunizantes contra influenza, Covid-19, doenças pneumocócicas e vírus sincicial respiratório, quando indicados para a faixa etária e para a condição clínica do paciente, podem diminuir o risco de infecções graves.
Segundo Pizzichini, a vacinação reduz a possibilidade de que uma infecção respiratória provoque uma inflamação intensa, uma crise severa ou a necessidade de internação.
A proteção é especialmente relevante para crianças, idosos e pessoas que convivem com outras condições de saúde. A indicação de cada vacina, no entanto, deve respeitar as recomendações dos serviços de saúde e a avaliação do profissional responsável pelo acompanhamento.
Brasil tem cerca de 20 milhões de pessoas com asma
A estimativa é de que aproximadamente 20 milhões de brasileiros convivam com a doença. Ao longo do ano, esses pacientes podem enfrentar uma ou duas infecções respiratórias, situação que amplia a necessidade de acompanhamento permanente na rede pública.
Diante do número elevado de pessoas afetadas, especialistas avaliam que o atendimento não pode ficar concentrado apenas em pneumologistas, alergistas e outros profissionais especializados.
As unidades básicas de saúde e as equipes de saúde da família são fundamentais para reconhecer os sintomas, orientar sobre o uso correto dos medicamentos, acompanhar a evolução dos pacientes e encaminhar os casos de maior complexidade.
Na infância, o diagnóstico pode exigir atenção ainda maior. Crianças pequenas nem sempre conseguem realizar corretamente exames utilizados para avaliar o funcionamento dos pulmões. Além disso, sintomas como tosse frequente e chiado podem estar associados a diferentes doenças, o que torna indispensável uma análise clínica cuidadosa.
Crianças e adolescentes concentram internações
Os registros de hospitalização revelam que o impacto da asma é particularmente expressivo entre crianças e adolescentes.
Dados do Departamento de Informação e Informática do Sistema Único de Saúde, reunidos pela organização Umane, indicam que pessoas com até 14 anos representaram 70,5% das internações por asma contabilizadas em julho de 2024.
Durante aquele mês, foram registradas 4.034 hospitalizações nessa faixa etária. O resultado ficou próximo do dobro do observado em janeiro de 2024, quando o país contabilizou 2.108 internações entre crianças e adolescentes.
No conjunto de 2024, o Brasil registrou 52.087 hospitalizações associadas à asma. Desse total, 73,7% envolveram pacientes de até 14 anos.
Os números mostram que a doença permanece como um importante desafio para as famílias e para o sistema público de saúde. Especialistas avaliam que parte das internações pode ser evitada por meio de diagnóstico oportuno, tratamento preventivo, acompanhamento regular e orientação adequada sobre os fatores desencadeadores.
Ventilação e limpeza reduzem exposição a alérgenos
Dentro de casa, mudanças simples podem ajudar a diminuir o contato com substâncias capazes de irritar as vias respiratórias.
A pneumologista Marcela Marques, do Atendimento Multiassistencial de Saúde da Umane, recomenda que os imóveis sejam mantidos ventilados e recebam luz solar sempre que possível. Problemas como mofo, infiltração e excesso de umidade precisam ser corrigidos, pois favorecem a proliferação de fungos.
Tapetes, cortinas e objetos que acumulam poeira devem ser limpos regularmente. Nos quartos infantis, é recomendável evitar grande quantidade de bichos de pelúcia e outros brinquedos que possam concentrar ácaros e partículas de poeira.
Cobertores, casacos e roupas de cama guardados por vários meses também merecem atenção. Antes de serem utilizados, devem ser lavados, secos adequadamente e, sempre que possível, expostos ao sol.
Edredons podem ser uma alternativa mais prática por serem, em muitos casos, mais fáceis de higienizar e conservar do que cobertores pesados.
Na hora da limpeza, o uso de vassouras pode levantar poeira e espalhar partículas pelo ambiente. A recomendação é dar preferência ao pano úmido ou ao aspirador.
Produtos com perfume intenso, desinfetantes e outras substâncias químicas devem ser utilizados com cautela. O cheiro forte pode irritar as vias respiratórias e causar desconforto em pessoas mais sensíveis.
Fumaça de cigarro representa perigo
A exposição à fumaça está entre os principais fatores de risco para quem tem asma. O alerta vale para cigarros convencionais, dispositivos eletrônicos, narguilés e outras formas de consumo de tabaco.
As substâncias liberadas durante o uso desses produtos podem irritar os brônquios, aumentar a inflamação e dificultar o controle da doença. A exposição passiva é particularmente prejudicial às crianças, que podem apresentar crises mais frequentes e maior necessidade de atendimento médico.
Marcela Marques ressalta que o contato com a fumaça de outras pessoas está entre as situações mais nocivas para pacientes asmáticos. Por isso, não é suficiente evitar o cigarro apenas no quarto ou perto da criança.
O recomendado é que ninguém fume dentro da residência, em veículos ou próximo da pessoa com asma. Mesmo quando o consumo ocorre em outro cômodo, a fumaça e os resíduos podem permanecer no ambiente e aderir a móveis, roupas e superfícies.
Primeira internação deve ser seguida de acompanhamento
A pneumologista também chama a atenção para o atendimento oferecido após os primeiros episódios graves. Algumas famílias recebem assistência durante a crise, mas deixam o hospital ou a unidade de emergência sem informações suficientes sobre prevenção e acompanhamento.
O início ou a revisão do tratamento preventivo depois de uma internação pode reduzir de forma importante o risco de novas hospitalizações. Quando a inflamação permanece controlada, a tendência é que os episódios graves se tornem menos frequentes.
Além de conhecer a função de cada medicamento, pacientes e familiares precisam aprender a identificar sinais de que a asma está piorando.
Tosse durante a noite, dificuldade para dormir, cansaço durante brincadeiras ou exercícios, chiado recorrente e necessidade frequente de medicamentos de alívio podem indicar que a doença não está controlada.
As famílias também devem receber um plano de ação para as crises. A orientação precisa informar quais medicamentos devem ser utilizados, a quantidade indicada, o intervalo entre as doses e as situações em que será necessário procurar atendimento.
Dificuldade intensa para respirar, lábios ou extremidades arroxeados, fala interrompida pela falta de ar, sonolência, confusão e piora rápida são sinais de emergência. Nesses casos, o paciente deve ser encaminhado imediatamente a um serviço de saúde.
Locais fechados aumentam transmissão de vírus
O alergista e imunologista Pedro Giavina-Bianchi, integrante do Departamento Científico de Asma da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, explica que o comportamento das pessoas durante o inverno contribui para o aumento das infecções.
Com portas e janelas fechadas, famílias, estudantes e trabalhadores passam mais tempo em contato próximo. A falta de circulação do ar facilita a transmissão de vírus respiratórios.
Influenza, rinovírus e coronavírus estão entre os agentes que podem provocar inflamações importantes nas vias respiratórias e desencadear crises em pacientes asmáticos.
Para reduzir a possibilidade de contágio, a orientação é evitar contato próximo com pessoas que estejam apresentando tosse, febre, coriza, dor de garganta ou outros sintomas de infecção respiratória.
O uso de máscara pode ser adotado em locais fechados, com grande circulação de pessoas ou durante o contato com alguém doente. A medida ajuda a diminuir a transmissão de diferentes vírus, especialmente entre pessoas pertencentes a grupos mais vulneráveis.
Doença pode ser controlada
A prevenção das crises depende de um conjunto de medidas. O tratamento regular, a vacinação, a ventilação dos ambientes e a redução do contato com poeira, mofo, produtos irritantes e fumaça fazem parte dos cuidados recomendados.
O reconhecimento precoce dos sinais de piora também é decisivo para evitar que uma crise evolua para um quadro grave.
Embora não exista uma cura definitiva para a asma, a doença pode ser controlada. Com diagnóstico, tratamento e acompanhamento adequados, pacientes podem estudar, trabalhar, praticar exercícios e manter suas atividades habituais durante todas as estações do ano, inclusive no inverno.
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