Criado no Complexo da Maré, na favela Nova Holanda, o fotógrafo Affonso DaLua construiu sua trajetória artística a partir das experiências vividas no território onde nasceu e cresceu.
Atuando na fotografia popular desde 2016, o artista desenvolve um trabalho marcado por performances, valorização dos corpos e reconstrução simbólica do cotidiano das favelas.
Nesta sexta-feira (26), a partir das 18h, ele inaugura sua primeira exposição individual na Galeria 535, no Observatório de Favelas, com entrada gratuita e classificação livre.
A mostra, intitulada “Do Mangue à Laje: O Encantamento de uma Vida Mareense”, reúne um conjunto de obras que exploram a relação entre memória, território e criação artística.
Segundo o fotógrafo, sua produção busca construir narrativas a partir do cotidiano da Maré, utilizando cenas encenadas, objetos e ambientações que dialogam com a realidade local.
O projeto apresenta 29 fotografias selecionadas, compondo um percurso visual que aborda a Maré como espaço de disputa simbólica, política e imagética.
A pesquisa do artista também se baseia na formação histórica da região, que passou por transformações ao longo dos séculos, desde o território indígena original até o processo de colonização e os aterros que deram origem ao complexo de favelas atual.
Outro eixo central da exposição é a investigação de narrativas relacionadas à população LGBTQIA+ favelada e às múltiplas identidades que compõem o território mareense. A partir disso, o fotógrafo propõe uma leitura crítica e poética da Maré como espaço plural, onde diferentes vivências sociais, culturais e afetivas coexistem.
Em sua abordagem, DaLua destaca o caráter coletivo de sua obra, ressaltando que a Maré, com mais de 125 mil habitantes, não pode ser representada por uma única narrativa. Cada imagem, segundo ele, integra um conjunto de relações entre corpo, memória e imaginação.
A abertura da exposição contará com apresentação da artista e MC Preta QueenB Rull, moradora do Parque União, também na Maré.
O evento terá ainda a instalação do barco “Filha do Mangue”, produzido em parceria com pescadores da Colônia Parque União, ampliando a proposta artística para além da fotografia.
A mostra também propõe uma leitura simbólica dos elementos do território, como o mangue e a laje. Enquanto o mangue remete à formação histórica e ambiental da região, a laje aparece como espaço de convivência, criação de vínculos e projeção de futuros possíveis dentro da comunidade.
A iniciativa reforça a presença de fotógrafos oriundos de favelas e territórios populares no circuito artístico, ampliando a visibilidade dessas produções.
Formado pela Escola de Fotografia Popular, ligada ao programa Imagens do Povo do Observatório de Favelas, DaLua integra desde 2022 o acervo do projeto.
Em 2023, participou de uma residência no Instituto Moreira Salles, aprofundando suas pesquisas sobre a relação entre o mangue, a Maré e os espaços de convivência.
Com sua primeira exposição individual, o artista consolida uma trajetória que articula arte, território e coletividade, apresentando uma leitura sensível e crítica sobre a vida na Maré.
*Compartilhe este conteúdo do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Rio de Janeiro.












