O deputado iraniano Esmail Kowsari elevou o tom contra os Estados Unidos nesta segunda-feira, 1º de junho, ao afirmar, em entrevista à RT, que Washington age com uma mentalidade “diabólica” e marcada pela arrogância. A declaração ocorre em meio a uma trégua considerada frágil e a negociações indiretas entre Irã e Estados Unidos para tentar conter a escalada militar no Oriente Médio.
Kowsari acusou os norte-americanos de adotarem uma postura de dominação internacional. Segundo ele, os Estados Unidos agem como se quisessem “tudo para si” e ignorassem os demais países. O parlamentar também questionou o discurso de Washington sobre direitos humanos e democracia, afirmando que a prática norte-americana não corresponderia ao que o país defende publicamente.
Na entrevista, o deputado citou ainda supostos ataques contra civis no Irã e acusou os Estados Unidos de responsabilidade por mortes. A alegação, porém, não foi confirmada de forma independente até o momento e deve ser tratada como declaração de uma autoridade iraniana no contexto do conflito.
As críticas ocorrem enquanto Teerã tenta incluir garantias jurídicas em um eventual acordo com Washington. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, afirmou que as partes discutem cláusula para que um possível pacto seja formalizado por meio de resolução do Conselho de Segurança da ONU. Segundo Baghaei, os chamados 14 pontos ainda tratam de disposições gerais e de artigos considerados essenciais por Teerã.
Mesmo assim, o governo iraniano demonstra desconfiança. Baghaei afirmou que uma resolução do Conselho de Segurança poderia dar proteção legal ao acordo, mas não garantiria, por si só, seu cumprimento. A posição reflete a memória política de Teerã sobre acordos anteriores e sobre decisões internacionais que, segundo autoridades iranianas, teriam sido ignoradas pelos Estados Unidos.
O cenário diplomático segue instável. Segundo a Reuters, a agência iraniana Tasnim informou nesta segunda-feira que o Irã suspendeu trocas indiretas de mensagens com os Estados Unidos e voltou a ameaçar bloquear o Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes para o petróleo mundial.
O Financial Times também informou que as negociações de bastidores foram suspensas por Teerã em meio a novas tensões regionais, incluindo ataques israelenses contra o Hezbollah no Líbano e acusações de violações do cessar-fogo. A eventual interrupção do Estreito de Ormuz aumentaria a pressão sobre o mercado global de energia.
Nos Estados Unidos, Donald Trump afirmou recentemente que as chances de acordo com o Irã eram de “50/50”. Em entrevista citada pela Axios, o presidente norte-americano disse que poderia aceitar um “bom” acordo ou retomar ações militares contra Teerã caso considerasse as condições insuficientes.
Também segundo a Axios, negociadores dos Estados Unidos e do Irã chegaram a um entendimento preliminar sobre um memorando de 60 dias para prorrogar o cessar-fogo e abrir negociações sobre o programa nuclear iraniano. O texto, no entanto, ainda dependeria da aprovação final de Trump, e Teerã não confirmou publicamente a aceitação do acordo.
A proposta em discussão envolveria temas sensíveis como o Estreito de Ormuz, sanções, venda de petróleo, bloqueios navais, enriquecimento de urânio e garantias de segurança. A Al Jazeera informou que o possível entendimento de 60 dias é visto como uma tentativa de ganhar tempo para negociações mais amplas, mas ainda enfrenta resistência política e desconfiança dos dois lados.
Nos últimos dias, relatos sobre novos ataques e acusações mútuas reforçaram a fragilidade da trégua. Autoridades iranianas acusam Washington e aliados regionais de manter pressão militar, enquanto os Estados Unidos afirmam agir para proteger suas tropas e interesses estratégicos no Oriente Médio.
O impasse mostra que, mesmo com canais diplomáticos abertos, a relação entre Teerã e Washington permanece marcada por ameaças, desconfiança e disputa de narrativa. Para o Irã, qualquer acordo precisa ter garantias legais e políticas robustas. Para os Estados Unidos, o avanço dependerá de compromissos verificáveis sobre segurança regional e programa nuclear.
A fala de Kowsari reforça a ala mais dura do discurso iraniano e pode aumentar a pressão interna sobre os negociadores de Teerã. Até o momento, não há confirmação de acordo definitivo entre os dois países.
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